Recentemente passei pelas minhas turmas falando sobre Romantismo, escola literária. Claro que o tema rendeu boas discussões, sobre relacionamentos e amor. Lá pelas tantas, antes de falar sobre o romance A Moreninha, perguntei quem acreditava que o amor, se é amor, não acaba, é pra sempre. Surpreendeu-me o número de braços levantados, mais do que eu imaginava!
Tempo houve em que eu também pensava assim. Hoje não. Hoje entendo Vinícius e sei que amor acaba, mas nossa capacidade de amar continua.
É perigoso acreditar que amor não acaba. Quem acha que o amor resiste a tudo, coloca o amor em perigo, expõe-no a situações perigosas, conflitos desnecessários. Não, o amor não resiste a tudo. Quem acredita que o amor verdadeiro é eterno, tende a rebaixar sentimentos, contaminar a lembrança de momentos felizes vividos ao lado de alguém com mágoas e decepções.
O amor precisa de paz, tranquilidade, confiança para poder se nutrir. E amar não é fácil. O amor é exigente; exige sacrifício, doação, atenção, companheirismo, paciência. Exige entrega.
Sei que amei minhas duas ex-namoradas. Por motivos bem diferentes meu relacionamento com elas terminou e, por um tempo, o amor que nutria por elas ficou ali, como uma neblina, me envolvendo e embaçando minha visão. Hoje, amo a lembrança do amor que passou. O amor deixa tatuagem em nossa alma. A dor passa, mas o desenho fica.
Quando meu primeiro namoro terminou, sofri barbaridade, pois pensava que nunca mais ia viver algo intenso e significativo como o que chegava ao fim. Mas aprendi a lidar com a dor, aprendi a suportar a ausência, esqueci-me de sentir falta e, quando menos esperava, estava apaixonado novamente e o amor voltou a deixar esse mundo mais alegre e instigante.
Ao término do segundo namoro, já sabia que alegria é questão de paciência, é saber deixar o tempo passar. E a certeza de que amaria novamente me fez menos triste, embora não menos saudoso, que ter saudade é uma forma de valorizar o que foi vivido.
Tê-las amado, ter vivido o que vivi com elas, me fez uma pessoa melhor. Mas o amor acabou, ficou guardado na memória, está refletido no meu jeito de ser.
Um amor termina para que outro possa surgir, até que algum se torne o último.
Entre o segundo amor e o atual foram quatro anos, bem vividos, porque também se vive sem amor. Mas será que se vive sem a vontade de amar novamente, sem a expectativa de ver, novamente, o amor surgir em nós?
Afinal, como diria Drummond:
“Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.”









