Escritos Esparsos

18 de agosto de 2016

Trechos de um projeto Abortado

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 1:34

Cap. 01

 Quando levantou naquele dia, mais um domingo que tinha tudo para ser igual aos outros tantos domingos do seu último ano, Fernando já estava de máscara posta.

Estava cursando o primeiro semestre de Direito na UFC. Era um garoto inteligente, bem inteligente, e aprendia tudo com facilidade. Assim, precisava estudar pouco para se destacar na turma – o que revoltava muitos de seus colegas, que se matavam de estudar.

Os seus domingos costumavam ser sempre iguais: acordava por volta das nove horas, tomava café e deitava-se numa rede na varanda de casa com um livro na mão. Lia até uma da tarde, quando almoçava com a mãe e o irmão mais velho, e depois ia para o shopping assistir a algum filme, tomar um milk-shake de Ovomaltine e, após o filme, ir para a casa de sua namorada, ou ex-namorada, as coisas continuavam muito confusas, visitá-la.

Fernando era um leitor inveterado. O gosto pela leitura começou na infância, quando, diariamente, seu pai lhe trazia uma revistinha da Turma da Mônica.¹ Depois de ter devorado todos os livros de Marcos Rey, de Pedro Bandeira, a maioria de Sidney Sheldon, Harold Hobins e Paulo Coelho, ele descobriu Machado de Assis e se perdeu no gosto da literatura chamada “clássica”. Ler era uma forma de fugir de si mesmo, do que temia em si mesmo, ainda que através da leitura o encontro consigo fosse inevitável.

Mas naquele primeiro domingo das férias de meio do ano Fernando pensava em fazer algo diferente. Cogitou ir à praia, mas ao abrir a janela e sentir o ar quente de Fortaleza circular pela varanda no seu verão eterno, desistiu, ansiou pelo ar condicionado do shopping e acabou resolvendo fazer o de sempre.

Às dez horas, já estava deitado na rede terminando de ler Cem Anos de Solidão e se impressionando com a capacidade de Gabriel Gárcia Márquez. Impressionava a capacidade do colombiano em criar situações absurdas e contá-las com tanta naturalidade, a mesma naturalidade e beleza com que encaixava os palavrões no texto.² Terminou o livro pouco antes de a mãe chamar para o almoço. Desceu e a encontrou colocando a mesa.

– O que é o almoço? – Perguntou.

– Macarronada. Vá lavar as mãos.

– Lá se vai meu regime. – Disse Ricardo entrando na cozinha.

Ricardo tinha vinte anos e um metro e oitenta de um corpo cheio de músculos moldado em horas de academia.

A mãe de Fernando e Ricardo era fã do poeta português Fernando Pessoa³ e escolheu, como nome para seu primeiro filho, dentre os heterônimos do poeta aquele que era médico, na esperança de que ele fizesse medicina, mas Ricardo, o seu Ricardo, nunca gostou muito de estudar e acabou entrando, depois da terceira tentativa, para o curso de Educação Física.

– Ei, semana que vem tem um show bom pra gente ir, lá na Órbita. – Ricardo falou enquanto sentava à mesa.

– De quem?

– Não sei, mas vai ser bom. Vamos?

– Acho que vou, faz tempo que não faço algo diferente. Vai pagar a minha?

– Cara, eu sou instrutor de academia! Ganho miséria. Mamãe vai pagar a nossa.

– Então eu também vou para esse Show! – A mãe disse.

– Vai não, mãe. – Respondeu Fernando – Show é coisa do diabo.

– Você não gosta, mãe. E é cansativo, tempo todo em pé, pessoas se esbarrando… – Completou Ricardo.

– Você sabe lá do que eu gosto! E eu já andei da Igreja Matriz até o ginásio Paulo Sarasate, aguento ficar muito tempo em pé! E andando!

– Mas era rezando, Deus te carregando.

– É, não era no meio da perdição.

– Pois também não pago nada!

Os dois começaram a rir, sabendo que, claro, ela pagaria.

Cap. 02

Depois de comprar o ingresso para o filme a que iria assistir, mais uma vez sozinho, Fernando olhou ao redor procurando onde sentar. Todo mundo em pé, cinema lotado, calor. Perto da fila para o cinema, sentada no chão, aos pés da coluna, uma única garota.

Sentindo a inevitável timidez ficou naquele “vou não vou?” de sempre. Mas como sempre, foi. Todo tímido é um ousado esperando uma oportunidade. Não que tivesse intenção de falar com ela, nem tinha reparado direito em sua aparência. Mas, para ele, sentar-se ao lado de uma garota nessas circunstâncias já era difícil. Certamente ela pensaria que ele era mais um daqueles garotos que não podiam ver uma mulher sozinha e chegavam junto, cheios de si. Fernando era rapaz bonito. Moreno, cabelos pretos e lisos cortados curtos, um metro e setenta e seis de altura, corpo de quem faz artes marciais há alguns anos. Tinha um quê de arrogância no andar. Vendo-o, ninguém imaginaria a timidez que arrasta consigo. Pensava que, se fosse feio, talvez fosse menos tímido. Tinha receio de que, ao se aproximar, as garotas o vissem como mais um engraçadinho, que o julgassem por sua aparência, que não o enxergassem realmente. Sua beleza era uma armadilha para si mesmo.

Todos esses pensamentos passaram em sua cabeça novamente enquanto percorria o caminho que o separava da coluna e da garota sentada no chão.

– Com licença. – Disse ele ao sentar.

– Pode sentar! – A garota respondeu.

Sentado, o cheiro do perfume que emanava do cabelo dela começou a envolvê-lo, mas ele evitava virar-se para ela e ficava naquele beco sem saída em que seu pensamento sempre o metia nessas situações. Pegou seu livro e começou a ler, imitando-a.

O cheiro dela o atrapalhava, mas em pouco tempo a leitura o absorveu e ele relaxou.

– Perfume bom esse que você está usando. – Ele ouviu meio sem acreditar.

– Como?

– Muito bom esse perfume. – Ela repetiu, e ele começou a rir.

– O que foi?

– Desculpa. – Ele apressou-se em dizer. – É que assim que sentei a primeira coisa que pensei sobre você foi isso, que seu cheiro era bom, mas não tive coragem de dizer.

– Por quê?

– Não sei… Acho que medo de você me interpretar errado… Não se sai por aí dizendo essas coisas a desconhecidas!

– Eu disse. – Ela falou olhando nos olhos dele, o que o deixou mais desconcertado ainda. – Você está me interpretando errado?

– Não! Desculpa, não quis dizer isso. É que eu sou sem noção mesmo. Tímido.

– Acho que a gente não deve guardar coisas boas que pensamos sobre os outros, mesmo que nos julguem errado. Você julgou erradamente que eu te julgaria errado se você falasse comigo. Que besteira, né?

Ele não acreditava que tinha sido desmontado em poucos minutos por uma garota que, olhando bem, devia ser mais nova do ele.

– Você tem razão. E eu adorei seu cheiro.

Ela sorriu e, por uma fração de segundo, ele sentiu que teria problemas. Ele sentiu que aquele cheiro, aquele olhar e aquele sorriso, juntos, fariam com que ficasse encurralado em algum lugar dentro de si mesmo, cerceado pela vontade de se deixar levar por aquele cheiro, de ser tragado por aquele olhar e ser salvo por aquele sorriso. E, sim, isso o deixava com medo.

– Obrigada! Que livro você está lendo?

– Um aprendizado ou O livro dos prazeres, da Clarice Lispector. Comecei agorinha. Conhece?

– Não. É bom?

– Nossa! É genial!

– Lê um trecho pra mim.

Sem abrir o livro, ele começou a recitar para ela.

“— Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

Ela olhava-o séria, enquanto ele lia. Quando ele acabou, ela disse:

– Apesar da sua timidez, você sentou aqui. Apesar do risco de você me interpretar errado, eu elogiei seu perfume. Lindo.

Ele não soube como responder àquilo.

– Lindo mesmo. – Concordou. – Gosta de Clarice?

– Nunca li muito. Só o que todo mundo posta no Facebook. Sempre que li, curti. Mas você não me disse que começou a ler agorinha? Como já sabe decorado?

– Isso acontece, leio algo que me interessa e basta reler umas duas ou três vezes para ficar guardado. Nem sei como consigo guardar tanta coisa aqui dentro! – Ah… Meu nome é Fernando, prazer!

– O meu é Lua, prazer!

– Lua? – Admirou-se ele.

– É, Lua! Meu pai pretendia colocar Lia, mas o escrivão acabou registrando errado, ficou Lua. Eu gosto.

– Eu também gosto! Que filme você vai ver?

– Deadpool. Estou esperando minhas amigas chegarem. E você?

– Também vou ver esse.

– Com quem?

– Sozinho.

– Assiste com a gente. Você vai adorar as meninas!

Antes que pudesse responder, as meninas chegaram. Eram duas. Bia, uma morena, cabelo preto um pouco cacheado, magra e extremamente animada, que chegou rindo alto e perguntando à Lua quem era o “boy”. E uma branquinha, cabelo liso com umas mechas californianas, rosto afilado e olhos cor de mel. Mais contida, vinha sorrindo das extravagâncias da amiga e cumprimentou Fernando com um “oi”.

– O boy é o Fernando, amiga. – Respondeu Lua – Convidei pra ver o filme com a gente.

– Não, não quero atrapalhar o programa de vocês!

– Ah, querido, não vai atrapalhar não! Vamos com a gente! Né, Vi?

– É, sim, claro que não atrapalha. – Respondeu Vitória, a branquinha contida.

– Então vamos para a fila que já estão todos entrando. – Concordou Fernando.

Fernando descobriu, após o filme, que Bia estava no primeiro semestre de Estilismo e Moda, Vitória no de Arquitetura e que Lua por pouco não entrou para o curso de Direito e se tornou sua colega. Assim, ela estava fazendo extensivo e pertencia àquele grupo de alunos caracterizado por algum tipo de desespero, conhecidos como pré-universitários. Claro, nem todos os pré-universitários são facilmente identificados pelo desespero próprio da categoria, só aqueles que: a) se cobram demais e se entregam desesperadamente aos estudos, sendo bons alunos, mas nunca estando satisfeitos consigo mesmos; b) são intensamente cobrados pelos pais e se entregam desesperadamente aos estudos, sendo bons alunos, satisfeitos consigo mesmos, mas nunca satisfazendo aos pais; c) se cobram razoavelmente, são razoavelmente cobrados pelos pais, se entregam razoavelmente a algumas horas de estudo e, nas demais horas, carregam desesperadamente o fardo da culpa por não se esforçarem mais.*4

Lua ostentava o desespero do tipo “b” e, assim que terminaram de comer, ela disse que precisava ir embora, que o pai já estava vindo para buscá-la. Bia e Vitória iriam pegar carona com ela, então ele pegou número do telefone de todas e passou o seu a elas.

Depois que elas se foram, Fernando ficou pensando em como, até ali, o domingo foi muito melhor do que podia imaginar quando acordou. Conheceu três garotas lindas e, cada uma a seu modo, muito interessantes.

A vida é um susto. – Pensou. Gostou do que pensou e resolveu mandar para as três por Whatsapp, sabendo que elas ainda estavam juntas.

Fernando: “A vida é um susto. Adorei conhecer vcs!”

Bia: “Ow, querido, que fofo! Foi mara te conhecer tb!”

Vitória: “Que lindo! Tb adoramos!”

Lua: “Que fofo! Depois vc me diz de quem é essa frase! Ou é sua mesmo?”

Fernando: “kkkk… essa é minha mesmo! Acho q leio tanto q às vezes as coisas se misturam aqui dentro e saem organizadas de forma diferente.”

Lua: “Ainda é poeta! Tô chegando em casa.  Dps vc me mostra algumas coisas suas, vou adorar ler! Bj!”

Fernando: “kkk… Ok! Bj!”

Steller de Paula

10 de maio de 2015

Amor de Mãe

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 23:21
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Haroldo - Mãe

Renato Russo, na música Pais e Filhos, imortalizou de maneira extremamente bela uma percepção que muitos filhos têm quando amadurecem:

Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo.

São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer.

Para crescer, é preciso bater de frente com os pais muitas vezes. Pais de verdade, daqueles que não se limitam a por no mundo e sustentar, que não se veem apenas como provedores, preocupam-se com os filhos, sofrem com as dores dos filhos, não dormem enquanto os filhos estão na rua e esperam poder guiar os filhos pelo bom caminho, esperam ser capazes de fazer com que eles evitem os erros clássicos da adolescência, temem que seus filhos cometam os mesmo erros que eles cometeram no passado.

Por isso cobram, por isso impõem, por isso, muitas vezes, sufocam. É o amor, que traz o medo, falando. É a experiência, que traz o conhecimento, falando.

Mas é de nós não aprendermos com a experiência do outro, não sermos capazes de aprender senão através de nossos próprios erros. Precisamos teimar, bater de frente, seguir nosso próprio caminho, cair, quebrar a cara e levantar mais forte, mais maduro.

Feliz do filho que recebe dos pais bons conselhos, que faz suas escolhas bem orientado e que, quando teima e erra, tem os pais por perto, não para dizer “eu avisei”, mas para consolá-lo, para ajudá-lo a se reerguer, a enxergar seus defeitos com sabedoria e lhe dar, novamente, bons conselhos.

Feliz dos pais que têm sabedoria para enxergar que criam seus filhos não para si, mas para a vida, que não esperam fazer dos seus filhos uma versão mais bem acabada de si, que não depositam em seus filhos suas frustações, que sabem reconhecer as individualidades daqueles a quem deram a vida.

Feliz dos pais que reconhecem seu papel de educar, de orientar, de vigiar, de punir, mas que sabem equilibrá-lo com a dose de liberdade que todos precisamos para descobrir quem somos e o que queremos, para poder fazer nossas escolhas e encararmos as consequências delas, para que aprendamos com nossos erros e sejamos capazes de andarmos com nossas próprias pernas.

Hoje é dia das mães. E um pai, por mais pai que seja, não pode conceber o que é ser mãe, o que é ver crescer dentro de si o fruto do seu amor, o que é sentir a sua carne e seu sangue gerando vida, o que é sentir um coração pulsando dentro do seu corpo, o que é, antes mesmo de ter o filho entre os braços, pedir aos céus que o protejam, querer ser capaz de sofrer em sua própria carne todas as violências que a vida tiver reservado para seu filho.

Por nove meses, minha mãe me carregou em seu ventre. Por nove meses, cresci protegido pelo seu corpo e embalado pelo seu amor por mim, por seus sonhos para mim, por seus medos por mim.

Não sou capaz de imaginar quão forte é esse amor, quão poderosa é essa ligação. Não sou capaz supor o peso da responsabilidade de se sentir tão responsável por mim, por minha segurança, por minha felicidade.

Quantas vezes não terá sofrido por não poder me dar o que eu pedia?

Quantas vezes não abdicou do seu conforto, do seu orgulho, dos seus sonhos para me dar o que eu precisava?

Quantas vezes não terá se perguntado se falhou ao me ver seguindo um caminho errado?

Quantas vezes não terá chorado ao me ver doente e não ser capaz de me curar com seus abraços?

Quantas noites insone, pedindo a Deus, que me protegesse e me fizesse capaz de atingir meus objetivos?

Mãe, você fez um excelente trabalho. Nada que não tive me faltou. Tudo que me era necessário eu tive. Você sempre esteve comigo quando precisei, quando adoeci, quando sofri por amor, quando cai por consequência de minhas más escolhas. Você sempre me deu a mão e ajudou a levantar, sempre me empurrou para a frente, sempre teve fé em mim e por mim..

Mãe, eu sou forte, eu sou duro. Minha fortaleza é o teu amor por mim. Minha confiança, teu abraço me deu.

Mãe, eu sou um lutador. As lágrimas que choraste por mim forjaram minha resistência. Minha coragem, teu exemplo me deu.

Mãe, eu acredito em mim, acredito que por mais que tudo esteja dando errado, eu posso consertar, que tudo vai dar certo. Minha coragem para o trabalho, teu exemplo me deu. Meu otimismo é o fruto da tua luta por mim. Minha fé em mim, teu incentivo me deu.

Mãe, eu sei ser só, eu aprecio o encontro comigo mesmo. Foi de ti, de tua independência, de tua abnegação, que herdei o gosto pela solidão.

Não consigo imaginar meus dias sem tua presença, sem tua preocupação, sem teu cuidado, sem teu amor se fazendo presença, preocupação e cuidado.

– Teté, tu me ama? – Tu me perguntaste hoje. Eu, mais uma vez respondi com silêncio e te oferecendo o rosto para beijares.

Amo mãe. Nem consigo mensurar quanto. Até me acovardo diante desse amor.

Nunca quis permitir que esse amor se tornasse dependência emocional, psicológica, sempre procurei me defender. Mas tu nem imaginas o quanto esse amor me moldou.

Não sou presente na tua rotina como gostarias, não durmo mais abraçado a ti na tua cama. Mas quando eu durmo, sinto teu amor me embalando e tuas rezas me protegendo. Por isso eu durmo sempre tão bem.

Feliz Dia das Mães!

Steller de Paula

8 de maio de 2015

Talvez eu esteja falando com você

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 5:46

Lavô tá novo

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento fazer um bom trabalho. Tento ajudar meus alunos a conseguirem seus objetivos, a conquistarem seus sonhos, tento lhes ajudar a terem o conhecimento necessário para passar de ano, passar no vestibular.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento fazer com que meus alunos se apaixonem por arte, por literatura, tento fazer com que eles se abram para a Arte e deixem que pintores, cronistas, dramaturgos, romancistas e poetas façam seus pequenos milagres.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento levar meus alunos a pensarem, a refletirem, a serem críticos; tento fazer com que eles se importem com os problemas de sua cidade, de seu estado, de seu pais; tento, sobretudo, que eles se importem com os problemas humanos, tento humanizá-los, tento fazer com que encarem seus preconceitos, tento falar com eles e tocar-lhes falando sobre ética, sobre honestidade, sobre solidariedade, sobre gentilezas, virtudes tão aparentemente em falta em nosso país, no nosso dia a dia.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento não ser hipócrita, tento não posar de santo, de dono da verdade, mas tento não falhar, tento aprender com meus erros, tento combater os meus preconceitos, tento olhar para mim e me ver nas minhas palavras.

Mas como é difícil, como é difícil ser honesto no país da malandragem, como é difícil ser decente e honesto quando se lê diariamente o jornal e se vê tanta safadeza, tanta corrupção, tanta má vontade para com o outro, tanta falta de gentileza. Como é difícil ser honesto no país que valoriza a “esperteza”, no país que institucionalizou a safadeza, a malandragem, no país do “jeitinho brasileiro”, no país que parece ter a corrupção entranhada na alma.

Como, como não ser pessimista? Como olhar para o lado, para os políticos, para os juízes, para os policiais, para a imprensa, para as manifestações, para o BRASILEIRO e ter esperança, e não ser pessimista?

Mas estou cansado, muito cansado. Cansado da alienação, cansado da corrupção, cansado da imprensa defendendo sempre seus próprios interesses. Estou cansado das minhas críticas, cansado do meu discurso diário contra tudo isso, cansado de reclamar. Estou cansado de ser pessimista, de não ter fé no meu povo, no meu país. Estou cansado de estar cansado.

E no meio do meu cansaço eu me pergunto:

– Seremos todos safados?

– Seremos todos corruptos, corruptores, corruptíveis?

– Seremos todos tão preconceituosos, tão conservadores?

– Então, é isso? Os corruptos se organizaram, os vagabundos se organizaram, os idiotas ganharam força e agora gritam a plenos pulmões na internet, perseguindo, ofendendo, humilhando, calando quem não é idiota? Então não há mesmo esperança? Não adianta sonhar com uma cidade melhor, com um país melhor? Não há bons? Não há honestos? Não há cidadãos de boa vontade, com uma boa dose altruísmo para fazer frente a tanto, corrupto, a tanto vagabundo, a tanto idiota? Não há a quem pedir ajuda?

Sim, eu sei que há. Eu sei que estão por aí, cansados, indignados, fazendo a sua parte, cultivando a gentileza e a honestidade no seu universo particular, mas com sua voz abafada, com as mãos atadas, enquanto os ladrões, os assassinos, os corruptos e os idiotas gritam a plenos pulmões e percorrem as ruas, os tribunais, as jurisdições, as repartições, as assembleias livremente, sem serem incomodados, estão por aí rosnando na internet, fazendo panelaços, torcendo por um partido como um torcedor doente torce pelo seu time, ofende pelo seu time, agride pelo seu time.

Mas enquanto os ladrões, os assassinos, os corruptos e os idiotas andam em bando, aprenderam a se organizar, os bons andam sozinhos, são desorganizados, estão sonhando um mundo que cada vez mais parece uma utopia.

Eu cansei de estar cansado, eu quero uma cidade melhor, eu quero não ser roubado pelos corruptos, ameaçado pelos idiotas, calado pelos preconceituosos.

Eu quero ser cobrado por minhas palavras, por minhas ideias expostas em sala de aula. Eu quero ser cobrado pelos meus sonhos, pelas minhas esperanças, mas quero ser cobrado por outros que sonham e esperam uma sociedade melhor.

Eu quero ser cobrado por aqueles que se indignam, mas que lutam diariamente para não se afundar no lodo da mentira, da hipocrisia, da esperteza. Quero ser cobrado por aqueles que procuram fazer a sua parte, que não mentem para si mesmos, procurando justificativas para agir como os corruptos, como os safados.

Quero ser cobrado por aqueles que se cobram não cair na tentação, que se cobram resistir ao jeitinho brasileiro. Não, não quero ser cobrado por santos, não sou santo, mas quero encontrar aqueles que cultivam suas virtudes, que combatem seus defeitos, suas falhas.

Mas quero ser cobrado por todos eles juntos, organizados.

Enquanto os bons não se organizarem, enquanto aqueles que cultivam a honestidade e a decência não se mobilizarem, enquanto não forem capazes de se identificarem, de se encontrarem, de planejarem uma ação, enquanto os bons não forem capazes de expandir seus sonhos e esperanças para além de suas mentes e de seus universos particulares, continuarão à mercê da maioria (maioria?) corrupta, safada e idiota.

Com quem eu falo?

Eu falo com quem apoia os direitos dos homossexuais.

Eu falo com quem reconhece que vive num país preconceituoso contra o negro, contra a mulher. Um país que mata os seus negros e suas mulheres.

Eu falo com quem acha que o aborto precisa ser discutido, como uma questão de saúde pública.

Eu falo com quem não grita pela redução da maioridade penal e não encara o problema da violência praticada pelo menor como um problema complexo que é.

Eu falo com quem está disposto a sair de sua zona de conforto, a se mobilizar, não para ir gritar na rua pedindo intervenção militar, batendo panela para a tv, mas com quem quer olhar para a sua cidade, para nossa cidade, com mais cuidado, com mais carinho, com mais vigilância.

Eu falo com quem quer se organizar, discutir, debater e agir para o bem.

Estou falando sozinho talvez. Talvez seja apenas mais um desabafo. Talvez eu esteja fazendo papel de ridículo e amanhã seja ridicularizado por isso.

Mas, apesar do cansaço, continuarei gritando e tentando fazer minha parte.

São 02h36min da madrugada. Tenho sono e amanhã pela manhã estarei mais uma vez em sala de aula.

Talvez ninguém se dê ao trabalho de ler esse texto até aqui.

Mas talvez eu esteja falando com você.

Steller de Paula

25 de dezembro de 2014

O amor e suas dores. O amor e seus ardores.

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 1:10
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Ao que a gente nasce para o amor.

Quando crianças, dormimos o sono profundo do desconhecimento, embalados pela tranquilidade de não conhecer o poder devastador do amor.

Um dia, já adolescentes, vamos caminhando nossos dias daquele jeito leve e descompromissado; e o amor nos vê passar, sem peso, sem medo, sem ansiedade.

Imperceptivelmente, então, ele se aproxima, arrepia nossa pele com seu toque e nos deixa sua marca.

Daí em diante, do amor não nos livramos mais, pois que o perseguiremos ou seremos por ele perseguidos, e o amor terá um altar em cada esquina por onde passemos.

O amor e suas dores. O amor e seus ardores.

Do amor, às vezes, a gente foge por covardia, por incompreensão, por falta de atenção.

Mas vida mexe com a gente, leva para um lado, leva para outro e, no caminho, consciente ou não, o que a gente procura é uma coisa só: esbarrar no amor, se afeiçoar a outro alguém de modo a querer com ele conviver, construir, dividir, plantar o presente e colher o futuro.

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Tamanho de amor se mede?

De amor mesmo a gente pouco sabe, que nosso entendimento não alcança o lugarzinho onde o sentimento nasce, de onde ele se espalha.

Sentimento amor a gente controla? A gente governa?

Sentimento amor muita vez nasce é onde não devia de.

E cresce na adversidade, pois que a gente idealiza, e a dificuldade faz o que era abstrato ganhar corpo.

A gente quer o impossível. E nas palavras com as quais cantamos nosso amor, ele ganha peso, ganha mais vida.

A gente quer um amor figurado.

Um amor de render belos versos, um amor de canção, musicado. A poesia nasce é no peito da gente, a poesia carece do amor pra se fazer palavra. A poesia inflama o amor, quer vê-lo pegar fogo para que das cinzas recolha versos.

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Por isso, há quem diga que não crê no amor. Que inventaram o amor, que inventamos o amor. Quem diz que não crê no amor é porque tem medo. Medo de encarar o amor e não medi-lo com os olhos. Medo de abraçar o amor e não conseguir abarcá-lo com os braços. Medo de beijar o amor, querendo mais, querendo mais, e não conseguir sorver tudo de que precisa.

O medo é uma roupa com que o amor, muitas vezes, se veste.

Medo de não encontrar; medo de, encontrando, não conquistar; medo de, conquistando, perder; medo de, perdendo, não superar a perda.

O amor exige coragem e, por amor, muita coragem se faz.

Steller de Paula

16 de dezembro de 2014

A Anulação em Face do Amor

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 20:17
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Mark Rothko

Em Senhora, de José de Alencar, Aurélia Camargo é abandonada por Fernando Seixas, que noiva com outra garota. Ainda assim, Aurélia guarda seu amor por Seixas intocado, pois não se sente digna dele, pois o colocou numa altura tal, que não se sente capaz de alcançá-lo e entende que Seixas a deixe por outra, mais digna. Quando descobre que Fernando, na verdade, trocou-a não por uma mulher que amava, mas por 30 contos, Aurélia revolta-se contra o amado, pois ele, assim, se desonrou. Ao se desonrar, Seixas rebaixa-se ao plano mais rasteiro da existência, distanciando-se das alturas onde o amor de Aurélia o tinha posto. Ao se desonrar, Seixas desonra o amor de Aurélia.

As reviravoltas que o a trama traz são bem conhecidas e no fim o amor redime e o final é feliz.

Mas, agora lembrando Aurélia, lembrei histórias que já me foram contadas, ou presenciadas, de pessoas que colocavam o ser amado em tão grandes alturas, que se diminuíam perante ele, que se anulavam.

O amor nos é vendido de tal forma, nós o queremos tanto, ansiamos tanto por ele, que o idealizamos. Amamos amar, amamos o amor e o que ele desperta em nós. Precisamos, então, que alguém se encaixe na visão que construímos de uma relação amorosa, precisamos de alguém que nos desperte o intenso, que nos permita viver o amor.

Diante disso, algumas pessoas deixam-se cegar, diminuem-se, anulam-se perante o outro. Acostumam-se a fazer sacrifícios, a dar bem mais do que recebem, a serem, a estarem pedindo o que deveriam receber espontaneamente.

Os amigos alertam, a família grita, até a voz da razão, sufocada, resmunga lá dentro, mas o desejo de amar fala mais alto: é preciso acreditar no amor, é preciso lutar pelo meu amor, o amor vai fazer as coisas mudarem, melhorarem e tudo vai acabar bem como num livro de José de Alencar!

Sim, é preciso acreditar no amor, é preciso lutar pelo amor, vivê-lo em sua integridade. Mas, nunca, a despeito de nós próprios, nunca pisando em quem nós somos, abrindo mão de nossa individualidade, de nossos sonhos, de nossas necessidades.

Amor é soma, não é subtração. É troca, não doação unilateral.

Drummond, num belíssimo poema, diz que “amor é dado de graça e com amor não se paga”, mas isso é bonito em verso, em cinema, em romance, é bonito naquele amor platônico, à distância, não naquele amor do dia a dia, não no amor que divide projetos pro futuros, que faz planos, que dorme junto na mesma cama.

Um amor que só te tira, que só te exige, que nada te dá além da vontade de cultivá-lo, vai te deixar vazio, repleto apenas de frustrações, ilusões, mentiras e lágrimas.

Steller de Paula

29 de setembro de 2014

Oásis de Livros

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 2:46
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Saraiva

Não é por acaso que fiz de livrarias em shopping meus escritórios de trabalho, minhas salas de leitura. Uma conjunção de fatores me levou a isso.
Primeiro, eu sou leitor, leio em qualquer lugar, com ou sem movimento, com ou sem barulho, em pé ou sentado ou balançando em pé no ônibus eu me fecho no livro. Desde criança assim. Hoje mais fácil ainda, com a música ajudando a me isolar através dos fones de ouvido. Também contribui eu ser preguiçoso: em casa não me concentro, pois me chama a cama, me chama a internet, me chama a tv… e não me concentro para ler ou trabalhar.
Mais ainda, amo livros, sou viciado em comprar livro, compro mais do que sou capaz de ler, adoro folheá-los, cheirá-los (quem, como eu, ama os livros sabe que não é estranho parar numa livraria, pegar um livro, e folheá-lo junto ao nariz).
E, por fim, gosto do movimento ao meu redor enquanto eu me fecho. Gosto de poder parar e ver a vida que corre fora de mim, as pessoas conversando, namorando, passeando entre os livros. Gosto de ver os velhinhos, no café, lendo. Gosto de ver as crianças pedindo livros aos pais, os adolescentes com os olhos gulosos olhando-os.
Uma livraria, uma biblioteca, uma sala de leitura pelos mundos que encerram, pelo que despertam, pelo que proporcionam são pequenos oásis num mundo muitas vezes desértico.
E há dois lugares em que uma bela mulher, desconhecida e vista de longe, se torna incrivelmente charmosa e tem seu poder de atração intensificado: numa pista de dança e entre prateleiras de livros.
Levantar os olhos do livro e, susto, ver uma bela garota folheando os livros com interesse é sair de um mundo e mergulhar em outro. É imaginar o mundo que ela esconde, é tentar enxergar por trás da beleza, enxergar aquilo que, não sendo externo, enfeitiça. Uma mulher bonita com um bom livro na mão é sempre mais bonita, porque já parece interessante.
E imagino uma mulher que não é de se apenas admirar, mas uma mulher para se conhecer, uma mulher para se viver. Uma mulher com quem conversar, com quem se dividir gostos, interesses, curiosidades, paixões.
Caio Fernando Abreu diz que “Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Não alimento a esperança de começar um relacionamento de comédia romântica, de encontrar a minha alma especial folheando o mesmo livro que estou lendo e que nossas almas se conectem. Mas é bom imaginar que almas semelhantes e interessantes passam por ali, crianças, velhinhos e – ah, as possibilidades – belas mulheres.

Steller de Paula

12 de agosto de 2014

Pela Estrada do Prazer

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 3:28
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eros-psique

Percorrer o corpo feminino é um longo passeio pela estrada do prazer. Principalmente para ela. Para cada porção de prazer que o homem sente com o corpo da mulher, ela sente 3, 4… O corpo da mulher foi feito para o prazer dela. Engana-se o homem que pensa que foi para o seu prazer.

O prazer do homem é limitado, concentrado basicamente em seu pênis e em seus olhos. O corpo da mulher é todo o parque de diversões dela. Da massagem nos pés ao puxão no cabelo a mulher se diverte, quando bem estimulada.

O homem é muito visual, grande parte do seu prazer é estético: feche a luz e boa parte do estímulo se perde na escuridão. A beleza dela, o prazer dela estampado no rosto são o nosso Viagra. Bebemos com os olhos a excitação dela, para no excitarmos.

A mulher se excita com os detalhes, suas preliminares costumam começar bem antes de nos encontrar. O prazer da mulher já começa ao escolher a lingerie que usará para nos deslumbrar – ela sabe que despi-la acende nossos olhos e inflama nosso desejo. Ela, mais que o homem, se estimula com a conversa safada ao longo do dia, antecipando o encontro, o toque, o cheiro. Ela se excita com o poder que sua sedução exerce sobre nós, em saber o quanto estamos sedentos por ela. A mulher sabe jogar com as expectativas, sabe que elas são parte essencial do erotismo.

O desejo do homem tende a ser mais controlador, mais imediatista, é preciso uma boa dose de sacrifício para controlá-lo, para prolongá-lo. Nosso centro de prazer é mais egoísta, ele grita e pede por atenção imediata, e por vezes nos faz esquecer que a mulher funciona de uma forma diferente e que o prazer deve ser compartilhado e não exigido.

A mulher usa seu corpo para conversar durante o sexo, seu corpo nos fala mais que suas palavras. Um arfar, um olhar, uma mordida nos lábios, um tremor nas pernas… É preciso aprender a ler uma mulher durante o sexo para que possamos extrair dela tudo que ela pode dar a si mesma.

A mulher dialoga com o sublime durante o sexo. O sexo é a ponte, sua ponte para si mesma, para o que seu corpo esconde. A mulher se é quando goza. O sexo é sua ponte para o outro, para a entrega, para a confiança, para o encontro com o que lhe falta.

Para o homem, é preciso atenção, entrega e paciência durante o sexo, para que possamos extrair do prazer dela, um prazer mais prolongado para nós, para que o prazer dela seja também nosso.

Nossa grandeza é nossa incompletude. Isso nos faz buscar o que nos falta, buscar no outro e em nós mesmos. Triste de quem banaliza o sexo, triste de quem mecaniza o sexo, de quem contabiliza o sexo e exclui dele o que há de beleza, de adivinhação, de comunicação consigo e com o outro.

Steller de Paula

 

12 de junho de 2014

O Sol nasce todo dia

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 5:34
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hopperroomsea

Por esses dias lembrei um livro sobre o qual li há alguns anos. Nele, uma enfermeira que conviveu com pacientes em estados terminais nos seus últimos meses de vida relatava os cinco maiores arrependimentos que os pacientes tinham antes de morrer. São eles:

1 – Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse.

2 – Eu gostaria de não ter trabalhado tanto.

3 – Eu queria ter tido a coragem de expressar meu sentimentos.

4 – Eu gostaria de ter ficado em contato com os meus amigos.

5 – Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz.

Minhas semanas têm sido bastante cansativas, e a impressão que tenho, às vezes, é que um dia emenda no outro e que o sono não é descanso, é desmaio.

Dou 38 aulas até a quinta, pego o carro e viajo para Sobral, onde dou 12 aulas na sexta. Hoje, sábado, acordei às 4:00 da manhã para voltar para Fortaleza e dar aula até às 12:40. Acordei com sono, cansado e a revolta tomou conta de mim: “isso não é vida, estou vivendo pra trabalhar, quando não estou em sala de aula estou elaborando matéria, preciso dar um jeito nisso!”. Foram pensamentos que passaram pela minha cabeça enquanto me arrumava.

Então peguei o carro e o caminho de volta. E, vinte minutos depois, toda a raiva e todo o cansaço tinham desaparecido, pois, ali, na estrada, enquanto dirigia e ouvia John Butler, tive diante de mim um nascer nos mais belos que já tive oportunidade de ver.

O sol, nascendo por trás das montanhas, tingia o céu de rosa, de laranja, de amarelo e me banhava com uma beleza tão grande, que me trouxe de volta do cansaço e da raiva, me fez lembrar o que há muito eu luto para não esquecer: que viver é bom, a despeito de tanta coisa errada, tanta coisa ruim no mundo a nossa volta; que a beleza está ali, à mão, no sol, nas estrelas, no sorriso de um bebê, no abraço de quem a gente ama; está ali, a despeito de tanta coisa feia no mundo a nossa volta.

Dirigindo, o Sol nascendo, a música tocando, lembrei um poema do Manuel Bandeira, um poema que lembro ter lido quando estava cursando Direito, insatisfeito com a vida que levava, com o trabalho, com a faculdade:

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo,

Talvez sorria, ou diga:

– Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.”

Não tenho como descrever o que senti quando li esse poema a primeira vez, mas lembro que me perguntei “E se a morte viesse me buscar hoje, agora, eu poderia dizer que ela encontraria cada coisa em seu lugar?”. Não, não poderia.

Desde a primeira vez que li esse poema, eu resolvi que tentaria viver minha vida de modo a poder encarar a morte dessa forma, não importa se hoje, se amanhã, se daqui há 30 anos. A vida é tão curta, tão curta… o tempo que estamos aqui é tão pequeno para tudo o que o mundo nos oferece, para tudo o que a vida pode nos oferecer, que eu não admito desperdiçá-lo. Não admito desperdiçar esse pouco tempo que me foi dado a viver levando uma vida que não me traz alegria, uma vida que não é a vida que gostaria de estar vivendo, uma vida sem beleza, sem leveza, sem sorrisos. Não quero correr o risco de me deparar com a morte e percebi que não gastei minha vida como deveria, que não usufrui da minha liberdade, que dei importância às coisas erradas, que deixei de valorizar o que merecia ser valorizado. Quando a morte vier me buscar, quero o mínimo de arrependimentos. Não quero minha vida desperdiçada por causa do orgulho, do medo, da vergonha, da ganância. Quero poder olhar pra morte e dizer: “pode a noite descer. Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar.”.

Sim, por vezes nossos olhos se nublam, o cansaço chumba, nossos sorrisos começam a querer enferrujar. Mas basta um nascer do Sol. E o Sol nasce todo dia, todo dia a vida recomeça, todo dia podemos escolher o que fazer com ela.

Sartre diz que nós somos condenados a ser livres. A vida às vezes parece querer se impor, mas a vida é o que fazemos dela. Nós fazemos nossas escolhas e precisamos lidar com as consequências. Às vezes, nossas escolhas nos levam por caminhos que não podemos abandonar, caminhos que precisamos trilhar, mas cabe a nós decidir como traçaremos esse caminho: abatidos pelo cansaço, ou enxergando o Sol nascer todo dia.

Steller de Paula

 

28 de abril de 2014

Amando as mulheres certas

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 1:46
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Fabian Ciraolo 03

Antes de ser uma escola literária, o romantismo é um estado de espírito, uma espécie de paradigma de comportamento, que o Romantismo sistematizou numa linguagem específica, numa perspectiva estética no início do século XIX.

Há pessoas mais racionais, objetivas, céticas e críticas e há pessoas mais passionais, emotivas, mais idealizadoras e sonhadoras. Estas são as que se enquadram no paradigma romântico.

Claro, são os extremos. Muito de nós passeamos entre eles.

Pessoas racionais, quando apanhadas pelo Amor, deslocam-se um pouco para perto do padrão romântico e costumam idealizar o ser amado, costumam idealizar o próprio amor, tornam-se, até, menos céticas.

Todos têm o seu “ideal” de parceiro. Aquela mulher ou homem que atenderia a todas as suas expectativas, que se enquadraria na sua noção de perfeição. E seguem-se os adjetivos: bonita, inteligente, sensual, extrovertida, aventureira…

Eu já tive o meu ideal de mulher muito bem construído em minhas expectativas, mas as mulheres que amei, as mulheres que me despertaram o amor, mostraram-me como ele era uma simples receita sem sentido, pois, na prática, não há receitas, nada é previsível e o ideal não existe.

Não se pode amar o que não se conhece. Quando amamos alguém com quem não convivemos na intimidade, dividindo o dia a dia, amamos, na verdade, um ideal que construímos.

E quantas vezes nos encantamos, nos apaixonamos, passamos a amar alguém que possui determinadas características que não só passavam longe do nosso ideal, mas estavam no rol das características que colocávamos como impossíveis de aturarmos? Como disse em outro texto, não é que o amor nos cegue para os defeitos ou para as características que antes repudiávamos. Não, nós a enxergamos bem, elas ainda nos incomodam. Mas o amor nos faz querer a pessoa apesar dos defeitos. Quando conhecemos os defeitos, as manias, aquelas características que nos exasperam às vezes, mas, mesmo assim, amamos as pessoas, é por que o amor se assentou sobre uma base sólida, saiu da idealização.

Amei mulheres com características que, racionalmente, pareciam incapazes de que me despertarem o amor. Mas o amor às vezes te joga nessas ciladas e surge de onde menos se espera. O que é bom, pois nos desestabiliza, nos faz ampliar nossa capacidade de aceitação, de convivência, de entendimento do outro.

Amei uma mulher farrista e extrovertida; o que me fez me soltar mais, abandonar muito da minha timidez que tanto me exasperava.

Amei uma mulher impaciente, ambiciosa, olhando sempre pro futuro; o que me fez abandonar muito do meu imediatismo, projetar mais, querer mais.

Amei uma mulher muito religiosa, com medos e tabus; o que me fez ampliar minha paciência, meu respeito aos limites do outro, abandonar muito do meu preconceito.

Não foi fácil amá-las, foi turbulento, foi desestabilizante; mas um prazer amá-las, foi recompensador amá-las, foi engrandecedor amá-las.

Não espero mais a mulher ideal, a mulher que me complete. Espero a mulher que me faça bem, que me faça querer ser melhor, que me faça querer estar com ela, agradá-la, acompanhá-la em sua caminhada. Espero a mulher com quem queira dividir meus sorrisos, por quem queira abrir mão da minha solidão.

Claro, ainda crio minhas expectativas. É natural, é humano.

Continuo valorizando a beleza e a inteligência, juntas. Mas entendi que a grande beleza às vezes pode dar lugar a um grande charme e que há diferentes tipos de inteligência, além daquela, acadêmica, que tanto valorizo.

Hoje percebo que gosto de mulher que bebe cerveja, joga sinuca e fala um palavrão bem colocado. Uma mulher que é divertida, que tem um jeito moleque, que carrega consigo uma certa leveza, que estimula meu bom humor; mas que sabe dividir meus silêncios e ajudar a carregar minha seriedade.

Gosto de mulher que sabe dançar. Gosto de mulher atrevida, ousada, segura de si, de sua beleza, de sua feminilidade. Mulher que sabe explorar sua sensualidade. Mulher que caminham “de um jeito como se soubesse que encontraria tudo nos seus lugares certos”.

Adoro mulheres cuja beleza possui uma inocente maldade.

A vida é muito curta para que amemos as mulheres erradas. Ainda que traga dor, ainda que traga sofrimento, há mulheres que valem a pena, mulheres com quem o amor nunca é desperdiçado, mulheres por quem até as lágrimas são justificáveis. Essas são as que devemos amar.

Steller de Paula

12 de dezembro de 2013

Homem aos 30

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 4:47
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Nelson Rodrigues dizia que “Aos 18 anos, o homem não sabe nem como se diz bom dia a uma mulher. O homem devia nascer com 30 anos.”.

Hoje, lembrando meus 20 anos, lembrando minha primeira namorada, sou forçado a concordar. Não que um garoto nessa faixa etária não seja capaz de marcar positivamente a vida de uma mulher, de fazê-la crescer com a convivência, de ajudá-la no seu crescimento, de amá-la bem, enfim.

Mas quando comparo o homem que sou ao que fui aos 20, percebo a sabedoria das palavras de Nelson.

Nós homens somos seres limitados, limitados por um extremo egoísmo que vem do simples fato de ser homem. Os homens demoram a amadurecer numa série de coisas, muitas vezes amadurecem profissionalmente mas continuam infantis emocionalmente e, mesmo maduros, guardam comportamentos infantis (basta observar um grupo de homens jogando futebol ou numa mesa de bar para confirmar isso).

Não é de todo ruim essa nossa característica; ela nos alivia um pouco das responsabilidades, das cobranças, das pressões que a sociedade nos impõe e a que nós mesmos nos impomos.

Quando pensamos, porém, nas consequências dessa imaturidade típica dos 20 anos na construção de um relacionamento com uma mulher, a coisa muda de figura.

Eu sempre digo em sala de aula para as minhas alunas: “adestrem o namorado de vocês!”. O ‘adestrem’ faz parte da brincadeira, mas a ideia é por aí mesmo! Nós homens, nessa fase da vida, estamos despreparados para ser o Homem que uma mulher merece. Então, é preciso que elas, com toda a delicadeza que a natureza lhes deu, nos oriente.

Eu tive sorte. Apesar de sempre ter sido um tanto mais maduro que o normal na adolescência, apesar de minhas leituras terem me dado uma visão um pouco mais aguçada sobre esse universo misterioso que é a mulher, apesar de procurar sempre aprender com meus erros, aos 22 anos eu ainda era uma massa disforme de menino com ares de homem. Mas tive sorte de encontrar uma garota que, apesar de menina, tinha uma visão bem clara da mulher que queria ser e do que um homem tinha que ter para conquistá-la.

Tive sorte de encontrar uma garota que soube me mostrar que essa história de feminismo é, em grande parte, besteira. Que mulher quer e precisa, sim, ser bem tratada, ser mimada, ser louvada; que gentileza não é favor, é obrigação. Como diria novamente Nelson Rodrigues: “As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado.”.

Foi para aprender a deslizar, sem ferir, entre a menina que ela era e a mulher que ela queria ser, que ela viria a ser, que eu fui aprendendo a enxergá-la melhor, aprendendo a traduzir tanto seus momentos de fúria quanto seus silêncios; fui aprendendo a antecipar seus quereres; fui aprendendo a intuir a hora de incentivá-la, de provocá-la, de empurrá-la para frente, apoiá-la nos seus projetos, e a hora de protegê-la, de niná-la, de consolá-la.

Tive sorte de encontrar uma menina que me fez querer ser Homem para tê-la: para extrair o melhor dela, precisei extrair o melhor de mim. Aprendemos os dois, crescemos os dois.

Hoje ela é a mulher que aquela menina queria ser, está cada vez mais melhorando crescendo. É com uma imensa alegria que eu vejo, de longe, sua felicidade, que vibro com suas realizações.

Ela me ajudou muito a me tornar o homem que sou. E, como eu já disse outra vez, cada mulher que passou por mim me ajudou a me tornar um homem melhor para a que veio a seguir, cada uma me ensina algo, me mostra que preciso melhorar em algo.

Poucas mulheres sabem o poder que tem, mas esse poder é capaz de transformar.  Por isso eu digo sempre às minhas alunas que mostrem aos homens com quem se relacionam o que querem, o que precisam, o que merecem.  Usem suas armas, suas artimanhas, façam-nos querer ser melhores para tê-las, para merecê-las.

Se hoje sou um homem melhor, foi graças às mulheres que me amaram. Espero ter retribuído à altura tudo o que elas me deram, espero ter deixado de mim nelas tanto quanto elas deixaram em mim.

Steller de Paula

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