Escritos Esparsos

28 de julho de 2010

De amizades que se perdem e permanecem

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 6:30
Tags:

Pintura de Héctor Becerini

Bem disse que o próximo texto ia ser sobre reencontro com ex-namorada. Mas por esses dias estava correndo com o mp3 no ouvido quando escuto bem longe, quase no meio da canção, meu nome sendo chamado. Parei, tirei os fones e ouvi novamente. Ao me virar, levei alguns segundos para reconhecer quem me chamava. E era minha infância que gritava por mim, na figura do meu primeiro grande amigo, Isaac.

Isaac e eu começamos a estudar juntos no pré-escolar. Morávamos perto um do outro e quando eu não estava na casa dele, brincávamos na minha.

Éramos realmente bons amigos. E estar diante dele ali, depois de tanto tempo, no mesmo bairro onde nascemos e de onde me mudei aos oitos anos, voltando há pouco mais de dois, me trouxe uma boa parte da infância às retinas.

Nos encaramos, apertamos as mãos e, depois dos “Como vai?”, “Tudo bem!”, ficamos meio sem ter o que dizer. Nos despedimos, coloquei meus fones nos ouvidos e voltei a correr, pensando que esse reencontro foi injusto com a antiga amizade.

Não foi a primeira vez que me vi em uma situação dessas: perceber que a distância e a falta de esforço, principalmente a falta de esforço, transformou uma amizade bonita em meras imagens que busco na memória vez ou outra quando brinco com o passado como quem brinca com pecinhas de lego.

Enquanto corria, não lembrei onde a amizade se perdeu. Em que momento ela ficou pelo caminho; eu caminhando rápido demais e ela sem fôlego para me acompanhar.

“Porra, eu briguei por aquele cara!” – pensei. E eu brigo pelos meus amigos. Hoje, mudei de forma que brigo mais por eles que por mim.

Foi uma lembrança que me fez sorrir. Tínhamos sete anos e fazíamos a segunda série. Havia na nossa turma um garoto que já havia repetido o ano duas vezes e, portanto, era bem maior. Certo dia, na hora do intervalo, enquanto jogava bafo, ouvi um burburinho. Apanhei minhas figurinhas e corri com meus colegas para ver o que era. Era o garoto ofendendo o Isaac, só lembro que era algo relacionado a sua cor de pele e o fato de Isaac ser negro sempre foi um detalhe que passava completamente despercebido. Não lembro se eu sabia o conceito de racismo, mas lembro que ceguei e comprei a briga. O ofendi, ele gritou de volta e eu o esmurrei até que o servente me interrompesse no que me parecia imensamente justo. Diante de certas coisas nunca aprendi o caminho do diálogo. Quando é comigo, normalmente pego o caminho do desprezo, do silêncio, do fingir que não é comigo. Quando é com amigos ou família, não penso, quero machucar. Talvez não seja correto, mas me parece justo. Amizade e família merecem meu lado ruim para os que ofendem, para os que machucam.

Briguei por causa do Isaac e foi uma briga justa, como outras que comprei mais para frente. Hoje me pergunto se briguei para manter a amizade, depois que me mudei e fui morar em outro bairro.

Amizade requer dedicação, exige esforço, sacrifício, não apenas empatia. Amizade requer presença, mesmo na ausência. Amizade é ter o que dividir, o que compartilhar. É um contínuo exercício do querer.

O amigo é um outro eu que escolhi manter por perto por não ser eu.

Quando a distância retira dos amigos o que eles têm em comum, o que eles costumam dividir, a amizade arrefece, até que não passe de lembranças. A falta de assunto mata a amizade, pois só bons amigos se entendem em silêncio. Quando não há amizade, o silêncio é constrangedor. Só amigos e amantes passeiam pelo silêncio sem notar o seu peso.

Pode a amizade superar a distância, desde que não haja distanciamento.

Eu e Isaac nos distanciamos. Ele ainda permanece sendo o grande amigo da criança que fui. E nessas linhas, de certa formas, estão escritas as brincadeiras, as idas e as voltas diárias para a escola, o cuidado de um, o companheirismo do outro. Duas pequenas crianças que começaram juntas a aprender a ser gente, a enfrentar o desafio que é crescer. E, por ser um aprendizado tão difícil, um desafio tão penoso, e que ainda não se completou, não foi vencido, preciso parar, voltar no tempo, e encontrar lá atrás um pouco do que fui, do que fui e se perdeu, do que fui e ainda se encontra em mim.

Anúncios

23 de julho de 2010

Não é o tempo que cura

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 4:38
Tags:

Tela de Hopper

Não acho que o tempo cura tudo. Dizer que o tempo cura tudo é quase uma metonímia.

Nós só precisamos do tempo para nos curarmos. Para permitir que a desistência, ou o esquecimento, ou a compreensão, ou a tolerância atuem. É um processo de auto-recuperarão. Às vezes demora muito, às vezes pouco. Algumas vezes, o orgulho ou a mágoa, não deixam que o processo se complete.

Nesse último mês pude confirmar que o esquecimento atuara em mim ao longo do tempo, que, imperceptivelmente, um processo havia se concluído.

Não sou um cara que se apaixona facilmente. Sou um cara que demora pra desapaixonar. Amizade, apego, carinho, instinto protetor: tudo isso me deixa em direção aos outros com certa facilidade. Até surpreende a cara de turrão.

O amor que vem do encanto e da paixão, esse não surge facilmente. Esconde-se dos corpos que tenho vivido. Vivências de respeito, carinho e tesão. Estar com uma mulher e não amá-la é dar ao corpo o que o corpo exige e à mente o que a mente precisa. Precisão e exigência de carinho, de contato humano, de descoberta e de esperança.

Não consigo me apaixonar com a mesma velocidade com que vejo meus conhecidos se entregando.

O que me dá duas paixões, dois amores.

E duas ex-namoradas.

Ter ex-namorada pode ser complicado, perigoso. Tentar manter contato com ex-namorada assim que termina o relacionamento é como reagir a um assalto. É instintivo e estúpido. Bater no ladrão é bom, te enche de satisfação, mas depois a gente acaba pensando “Que merda foi essa que eu fiz? Eu podia ter me lascado!” Às vezes quem reage se lasca.

É cômodo para duas pessoas que até pouco namoraram saírem juntos e transarem ocasionalmente. Na maioria dos casos o relacionamento se desgasta, mas o tesão não. Com o término, acabam as brigas, as cobranças, as promessas; e a transa até melhora, pois são dois corpos que se entendem, se conhecem, se curtindo sem compromisso.

Aí mora o perigo. O perigo habita as gotas de suor que brota na cama. Ele percorre os corpos, mas demora para ser notado.

O compromisso foi quebrado por um dos dois. E um dos dois tenta se recompor naquela transa. Para um é prazer, para o outro é esperança. Alguém sairá mais magoado ainda. Principalmente se descobrir que não é a única fonte de prazer. Já vi isso.

Os dois terminaram, passada a fase do cada um na sua (bem curta, quase sempre), veio a fase do sair para ficar. Ela tinha terminado. Ele ainda a amava. O sexo era ótimo e ele ainda tinha esperança de reconquistá-la, até que ela avisa que conheceu outra pessoa e que estava ficando sério. O perigo que habitava as gotas do suor de prazer se transfigura na mágoa das lágrimas de dor.

E é muita dor. O grito vem da pele acariciada, da boca beijada que cospe insultos.

É a dor da esperança soterrada. A dor do saber-se ingênuo, idiota.

Não, ele não podia acusá-la, dizer que ela a usou. Os dois se curtiram, se tiveram e os dois tiveram prazer, como tem que ser. O problema estava em expectativas diferentes. Para ela os sentimentos eram afeição, carinho, respeito, atração. Para ele era tudo isso e o amor. Para ela não havia amanhã, era o hoje sendo bem vivido. Para ele era uma tentativa de transformar o hoje no amanhã, reconstruindo o ontem.

O ontem vira um borrão, o hoje descolore e para o amanhã não se conhece caminho.

É nessa dor que entra o tempo. Como eu disse, o tempo não vai curar essa dor. O tempo não resgata o que ficou do ontem, não torna o hoje aprazível, não faz do amanhã o desconhecido que atrai.

Isso é responsabilidade de cada um. É um processo de reconhecer a fraqueza, aprender a viver com ela, fazê-la sua companheira e dela extrair força, sair mudado, mais forte, mais imune.

Leva tempo. E o tempo é diferente para cada um. Requer força. E cada um tem a força que cultiva.

Um término de relacionamento pode acarretar muitas coisas: trauma, barreira, desconfiança, ferida; fortalecimento, recomeço, aprendizado, evolução.

De tudo, podem ficar lembranças boas, daquelas nos comprovam que a vida vale a pena, ou ruins, daquelas que vão fundo no nervo e machucam sempre.

Eu tenho duas ex-namoradas e muitas lembranças boas.

A primeira, hoje, depois de todas as etapas cumpridas, está distante fisicamente, embora presente no que me tornei para a segunda namorada.

A segunda ex reapareceu fisicamente depois de um bom tempo. Uma ressuscitada brilhando na janelinha do MSN. Tentamos, vamos tentando, ser amigos. E a amizade é o que de mais puro se pode restar de toda a profusão de sentimentos que envolvem um relacionamento e o término dele.

Esse reencontro merece um texto só dele.

Crescido

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 0:22
Tags:

Cresci.

O que antes era expectativa,

Hoje tem o peso de uma responsabilidade.

O futuro não é mais um vago distante:

É o amanhã que se apresenta nas horas do hoje.

E o passado cobra e pressiona o presente.

13 de julho de 2010

Fenomenologia da Beleza

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 4:13
Tags:

Sim, és bela e carregas a primavera contigo.

És bela, e o prazer de te olhar

Permanece mesmo depois que te ausentas.

Mas não é tua beleza que deixa marcas.

É a vida que brinca nos teus olhos,

É o teu jeito de quem não vai crescer –

Por mais que amadureças e a infância te seja apenas lembrança -,

É o modo como danças,

Como brincas,

Como sorris,

É a molecagem que mesmo séria não consegues esconder.

A beleza, apenas, não deixa marcas

Não intriga, não confunde,

Não cultiva a saudade.

Steller de Paula

10 de julho de 2010

Que o coração siga sempre pulsando

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 6:45

Quando é tarde demais para mudar? Quando é que tudo o que podia ser já foi e o que nos espera é sempre mais do mesmo, o gosto acre e conhecido do que cultivamos inconseqüentemente? Será que há um momento, aquele momento, em que paramos, olhamos para o que está a nossa frente e sentimos que o que espera após o horizonte se tornou inalcançável? Que o futuro tem sabor de frustração ou desespero?

Espero que não, não para mim. Espero sempre e sempre e a qualquer momento poder segurar meu coração com as mãos e senti-lo pulsando. Espero ter forças para seguir outro caminho, qualquer caminho, entortar o caminho, criar um caminho, se preciso for. Espero que a cada dia que ainda me for dado, ou que eu roube, eu saiba olhar para o longe, eu continue tentando alcançar o inalcançável. Que eu tenha a luz ou a treva, o sol ou a chuva, mas que eu queira sempre mais, sempre mais.

Acabei de assisti a “Coração Louco”, filme com Jeff Bridges, e escrevo enquanto a música tema do filme toca e os créditos anunciam o fim do filme.

E enquanto escrevo, lembro de pessoas queridas que parecem ter chegado naquele momento crucial em que é preciso parar e dizer a si mesmo que chega, que basta, que, porra, é preciso seguir um outro caminho; mas que não conseguem encontrar forças nem em si nem fora de si para se enfrentarem, enfrentarem o mundo, enfrentarem a vida.

Pessoas que não conseguem tirar a máscara, trocar a pele.

Todos temos nossas fraquezas, mas é tudo tão miserável quando elas são tudo o que resta; e se segue apenas porque é o jeito, porque as pernas não têm força nem para parar.

Que eu mantenha a vontade intacta, que eu cultive a força, que eu saiba extrair de mim, do outro, do que brilha e do que ofusca, a força para suplantar minhas fraquezas.

Steller de Paula

“Este não é um lugar para os fracos

Não é um lugar para os que perdem a cabeça

Nem um lugar para ficar para trás

Levanta teu coração cansado e faz um último esforço.”

The Weary Kind – Tema de Coração Louco

8 de julho de 2010

A maioria dos dias gastos sozinho

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 2:30
Tags:

Pintura de Caspar David Friedrich

Como podia o Sol brilhar num dia como aquele? Dentro dele nada brilhava. A dor e a raiva tudo obscureciam. Muitos choravam. Os pais, o irmão, os amigos da escola… ele não chorava ainda. Mas a dor era visível nos seu rosto, no fundo dos seus olhos e ele a arrastaria no seu caminhar por muito tempo.

Ele nunca tinha ido a um enterro. Não entendia o sentido daquela cerimônia, daquele ritual, se despedir dela sem poder abraçá-la, todos chorando, rezando, padre presente e o ser que vai deixar um buraco na sua alma dentro de um caixão, inerte, sem nada da vida que alegrava a sua. No entanto, estava ali. Não rezava por descrença, não chorava por descrença. Ainda não conseguia acreditar. Ainda sentia o beijo que ela lhe deu no rosto ao se despedir dele quando ele a deixou na escola.  Mesmo atrasado para o trabalho, ele desceu do carro, a acompanhou até a porta e beijou-a despretensiosamente, com aquela despretensão típica de quem está com pressa e espera rever a pessoa beijada logo mais. Quando se virou para ir embora ela o segurou.

– Espera!

Ele voltou-se para ela impaciente e derreteu-se diante do olhar. Havia tanto carinho, tanto afeto naquele olhar!

Ela apertou sua mão e beijou-lhe o rosto.

– Te amo!

Meu deus, como um beijo no rosto podia carregar tanto amor?!

Ele a abraçou forte, disse que também a amava e foi trabalhar com um sorriso bobo no rosto, sem se estressar e praguejar no trânsito como era seu costume quando ela não estava no carro com ele.

O sorriso durou pouco. Estava almoçando, quando recebeu o telefonema do irmão dela, informando-o do acidente.

Quando chegou ao hospital ela já estava morta. E agora ele estava ali, de preto sob a chuva, sem ouvir o choro, as palavras do padre, ouvindo apenas o som dos pingos d’água batendo na tampa do caixão.

Não sabia o que pensar. Sentia o desespero chegando, querendo finalmente tomar conta dele. Meu deus ela era tão nova! Usava o nome de Deus por mero hábito idiomático e, por não acreditar que ele se importava com o que acontecia aqui embaixo, não podia nem culpá-lo. Queria tanto poder culpar alguém, por isso, por essa injustiça! O motorista fugira e tudo o que a polícia tinha eram três letras e dois números da placa, que foram as únicas que uma testemunha conseguiu anotar.

Levantou-se, foi até o carro e voltou ao enterro trazendo o violão. O padre terminava de ler algum trecho da Bíblia. Ele tirou o violão da capa, se aproximou do caixão e começou a cantar.

 I am at ease in the arms of a woman

although now most of my days are spent alone

 a thousand miles from the place I was born

But when she wakes me she takes me back home

 Now most days I spend like a child

who’s afraid of ghosts in the night

I know there ain’t nothing out there

I’m still afraid to turn on the light

I am at ease in the arms of a woman

although now most of my days are spent alone

 a thousand miles from the place I was born

but when she wakes me she takes me back home

A thousand miles from the place I was born

But when she wakes me she takes me back home

I am at ease in the arms of a woman

although now most of my days are spent alone

 a thousand miles from the place I was born

when she wakes me she takes me

Yeah, when she wake me she takes me

Yeah, when she wake me she takes me back home

When she wake me she takes me back home

Quando terminou de tocar, tocou o caixão com imensa ternura e foi embora. Os que ficaram, todos, todos choravam.

Parou diante do carro, o violão na mão esquerda, a chave na direita, a letra da música se misturando a lembranças dela, o sentimento de injustiça crescendo e o desespero finalmente se alojou. Jogou a chave no chão. Gritou como se querendo arrancar a dor do peito e deu um murro no vidro do carro. Deu outro e mais um, até o vidro cair estilhaçado. Então pegou o violão e o partiu contra o chão.

Foi para casa andando.

Entrou, tirou as roupas, deitou e chorou. Chorou até o sono, o cansaço e a tristeza o vencerem.

Acordou cansado como se não tivesse dormido e, mal abriu os olhos, tornou a chorar.

Sabendo que logo as pessoas o procurariam com pena, comiseração e cuidado, vestiu-se e foi para um motel barato que ficava perto de onde ela tinha sofrido o acidente.

Passou dois dias dentro do quarto, sem dormir direito, sem comer direito, entorpecido pela dor.

No terceiro dia, vestiu a roupa e saiu do quarto. Comeu e plantou-se na esquina onde o acidente ocorrera. Passou o dia inteiro ali, encostado em um poste, olhando os carros.

Com a noite já avançada, voltou para o quarto, para se entregar mais uma vez a sua dor.

Por três dias ele voltou à esquina e passou o dia inteiro no mesmo lugar, até que no quarto dia ele viu Vectra preto com as três letras e os dois números que, como a imagem dela, não saiam da sua cabeça. Agradeceu a lentidão da polícia, chamou um moto-táxi que estava perto e seguiu o carro. O Motorista entrou em um estacionamento, desceu do carro e, quando ia atravessar a rua, foi abordado.

– Você matou minha namorada. – Disse ele, encarando o motorista.

E por uma fração de segundo ele viu culpa naqueles olhos. Uma fração de segundo que foi mais que suficiente. Então ele o socou. Quando o motorista caiu, ele sentou em seu peito e continuou socando. E socou e socou e socou…

 Enquanto socava, sentia o desespero e o ódio o abandonando. Ficavam apenas a dor, a tristeza e a saudade, mas com estas ele sentia que podia conviver em paz.

Steller de Paula

5 de julho de 2010

A liberdade de quem é livre e de quem tem compromisso.

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 19:13

Ser solteiro é andar de caso com o imprevisto, com o imponderável. É andar de braços dados com o acaso e torcer para que desafios e tentações façam parte do cotidiano.

Ser solteiro é sair de casa esperando algo acontecer, o encanto surgir, o tesão te agarrar.

O solteiro vai pra rua esperando ser atingido por um olhar, um sorriso, uma ajeitada no cabelo que o desafia.

O comprometido, quando fiel, ao sair de casa diz na soleira da porta: “Senhor, livrai-me da tentação!”

Não é fácil ser fiel. Exige comprometimento, principalmente consigo mesmo. E, sim, é uma questão de princípios, não de vontade. E ele tenta não ver o olhar que lhe arrepia os pelos da nuca, o sorriso que lhe esquenta o ego. A ajeitada no cabelo? Foi por causa do vento.

Ser solteiro é bom demais. Sem cobranças, sem promessas, sem peso na responsabilidade. É sempre aberto ao desconhecido. Será que hoje eu encontro alguém? Será que hoje alguém me encontra? Será que hoje minha boca, meu corpo, beijará outra boca, enlaçará outro corpo? Será que hoje meu desejo se entenderá com outro desejo de uma forma simples como só os desejos se entendem? E o sou solteiro vive ligado. É na rua, na parada do ônibus, no ônibus, no sinal de trânsito, na fila para qualquer coisa… pode acontecer a qualquer momento e ele tem que estar atento para não perder o momento em que os desejos esbarram.

Quando não, o solteiro faz a sua sorte. Ele olha, procura e vê à sua frente possibilidades, desafios: é a vontade de conhecer, de se saber livre e capaz. Assim o desejo não surge de encontro a ele, ele faz aparecer.

O comprometido, no fim das contas, é uma espécie de masoquista. Roga que lhe sejam retiradas do caminho as tentações, mas anseia por elas. Seu ego precisa delas.

E disfarçadamente ele procura olhar, o sorriso, como quem venda os olhos com as mãos para não ver, mas no momento crucial abre discretamente os dedos.

Ah, é claro que ele vai sofre, sua carne vai sofrer, sua consciência vai gritar. Mas é um vício e ele pensa, comiseradamente, que sem as tentações resistidas não há valor, não há glória na fidelidade.

Diante disso é tão fácil querer ser solteiro…

No entanto, no fundo os dois conhecem uma verdade maior. O solteiro, muitas vezes em sua liberdade, finge não conhecer. O comprometido se compraz e sorri depois que a carne deixa de latejar.

A verdade é que ser solteiro é bom, que o desconhecido atrai, que resistir agonia, mas no fim do dia o comprometido tem o calor de um abraço que é mais, bem mais que puro tesão. O comprometido tem o companheirismo, tem a segurança do conhecido ainda não completamente explorado, tem o amor que o faz se sentir melhor mesmo do que ele talvez seja, melhor do que o que ele se lembra se ser quando solteiro, tem o seu pedaço de céu para onde voltar e dormir depois de resistir às tentações do inferno.

E ele se entrega ao desejo repleto de amor, uma viagem lenta e bem aproveitada a lugares conhecidos, sendo possível, assim, reparar em cada detalhe, descobrir cada pedacinho que lhe dá prazer e por mais que refaça o caminho muitas vezes, o amor misturado ao desejo faz com que cada viagem seja única.

O comprometido é livre por já ter encontrado o que buscava e poder andar desatento.

O solteiro não tem tempo para conhecer. Cada viagem tem um tempo pré-determinado para acabar e ele é como o turista que tira fotografias da janela do ônibus. Conhece, mas não conhece. E não pode sorver os detalhes.

O solteiro sai de casa livre e atento, mas, enquanto vai, ligado no que pode acontecer, muitas vezes queria voltar para os braços de alguém e ser recebido com amor, dormir de conchinha. Queria encontrar um porto conhecido onde seria acolhido como quem se depara com arco-íris.

Na verdade, ele sabe que em cada olhar onde ele vê desejo e desafio, o que ele espera realmente encontrar é o reconhecimento. Não dois desejos esbarrando, mas duas essências se tocando num explorar mútuo. Ele sabe; e às vezes com tanta força que diz para se mesmo: “Que merda! Não vou sair hoje não.” E fica em casa sozinho, tomando alguma coisa e ouvindo Mazzy Star, sem saber o que ouve, sentindo a música e sua profunda solidão.

Ah, entre esses dois sujeitos há o cafajeste, aquele que, comprometido, tenta e não resiste a tentações. Mas esse não merece figurar entre esses dois. Esse não é livre.

Steller de Paula

4 de julho de 2010

“Sorte é isto. Merecer e ter.”

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 22:53
Tags:

Era isso cinco dias por semana, essa agonia. De segunda a sexta eles pegavam o mesmo ônibus, o das dez para a seis. Todo dia ele tinha trinta minutos perto dela, e eram os 30 minutos mais aguardados do dia! Davi era um rapaz bonito, se vestia bem e chamava a atenção das garotas quando passava. Já tinha até recebido algumas cantadas no ônibus. Estranhamente, Lea parecia não notá-lo. Ele sofria. Era encantado por aquela garota!

De segunda a sexta, durante aqueles 30 minutos tão longos e tão curtos, Davi ficava a admirar a beleza de Lea, seus olhos grandes, verdes, que, às vezes, lhe pareciam azuis, os cílios negros e longos, a pele branca, rosada graças à maquiagem, os cabelos loiros e uma boca que era, definitivamente, a mais bela e sedutora que ele já tinha visto e não beijado. Ele nem sabia direito para onde olhar, se para os olhos, para a nuca, quando ela prendia o cabelo, se para a boca, aquela boca perfeita, com o lábio inferior um pouco mais carnudo que o superior. Trinta minutos por dia era pouco para admirá-la. Mas a agonia que sentia por querer falar com ela, dirigi-lhe a palavra, puxar uma conversa e convencer-lhe de que ela precisava conhecê-lo, sem conseguir deixar escapar nem um bom dia, fazia com que aqueles trinta minutos fossem os mais demorados do seu dia.

“Mas ela é só uma menina! Faz terceiro ano ainda! E você tão articulado, tão conhecedor das palavras, não consegue puxar conversa?! Deixa de ser frouxo!” pensava todo dia, enquanto se arrumava para pegar o ônibus e ir trabalhar.

Não conseguia e ia se corroendo naquela meia hora e se detestando o resto do dia, todo dia.

Até que um dia ela lhe perguntou as horas.

– Já era hora! – Disse ele.

– ahm?

– É… são seis e quarenta e cinco. O ônibus passou atrasado hoje, não foi?

– Foi.

– Você vai perder a primeira aula.

– Não, acho que dá pra chegar a tempo.

– Ah, que bom!

– Nem é tão bom assim… Aula de literatura, o professor é um chato.

– Eu adoro literatura!

 Finalmente ele destravou. Falou de seus autores preferidos, chegou a recitar alguns versos, mas ela chegou ao seu destino e precisou descer.

No dia seguinte se cumprimentaram e a conversa fluiu normalmente. Agora, sempre que ficavam pertos, conversavam, iam descobrindo um do outro. Mas ele ainda a achava um pouco distante: nunca lhe deu uma abertura para que ele a convidasse para algo, soltasse uma cantada. Quando ele entrava e o ônibus já estava lotado, com ela longe dele, tinha que se contentar com um aceno de cabeça e passava o dia de mal humor. Voltou a se agoniar.

“Eu tenho que convidá-la para sair! Mas é muito cedo ainda! Ela também não ajuda! Será que vai aceitar? Ou vou ficar parecendo um idiota? Nunca levei um fora…”

Numa sexta-feira conversaram sobre os planos para o fim de semana.

– E aí, fazer o que no fim de semana, Lea?

– Num sei. Acho que vou ao cinema.

– Ah, é? Também estava pensando em ir assistir esse filme que entrou em cartaz hoje, Avatar. – Davi implorava aos céus que ela dissesse: “Então vamos juntos!” Mas ela não disse.

– Hum… parece um bom filme.

Um pouco morto por dentro, Davi deixou a conversa morrer.

Na segunda, os dois ficaram em pé, com algumas entre eles, dentro do ônibus.

 – Foi ao cinema? – Perguntou Davi.

– Fui. E tu?

– Eu não. Você não me convidou. Se tivesse convidado seu cinema teria sido bem melhor.

– Kkkkkkkkk… Se você tivesse ido eu não teria podido te dar muita atenção.

– E por quê?

– Estava com uns amigos.

– Ah… Então foi bom não ter convidado. Mas se quiser convidar em um futuro próximo e me dar a atenção que eu mereço, pode ficar à vontade, viu.

– Kkkkkkkkkk……… Tá certo.

As pessoas em voltam riam discretamente e Lea foi ficando vermelha.

– Tá certo, eu convido; tá certo, eu vou esperar teu convite ou tá certo, vai sonhando abestado?

– Tá certo, vai sonhando abestado. Kkkkkkkkkkk……

– Eita, vai logo desiludindo o cara.

As pessoas agora já riam abertamente e até o trocador prestava atenção.

– Se eu fosse você não faria isso, faria diferente. – Continuou Davi.

– Faria como?

– O que você devia fazer era esperar meu convite, aceitar e ficar me iludindo, dando corda e depois puxando, pra eu pensar que você estava me dando um pouco de moral. Assim, você ia dispor de uma boa companhia, se divertiria, seria bem tratada, mimada e ainda estaria no controle da situação.

– Olhando assim, acho que gostei da idéia…

– Não é? Pense no assunto.

– Vou pensar. Agora preciso ir pra frente, vou já descer. Tchau!

– Tchau! Pensa mesmo, heim! Dá uma força aí, tia! – Disse ele, cutucando uma senhora que se divertia com a cena.

– É, Lea, pensa disse a senhora.

– Pensa, Lea! – Disse o trocador enquanto passava o troco para a garota, vermelha como nunca esteve.

– Tá vendo, Lea! Todo mundo acha que é uma boa idéia!

– Seu louco! Eu aceito o convite! – Gritou ela enquanto avançava e dava sinal para o ônibus parar.

Davi, quando desceu do ônibus, foi apostar na Mega Sena da virada.

2 de julho de 2010

Um Instante de beleza e deslumbramento.

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 2:27
Tags:

Eu sei que no computo geral dos dias, de todos os dias, o que fica, o que resta, são momentos, lembranças esparsas de momentos.

Os dias passam, se sucedem, e nós passamos com eles. Às vezes, nem nos damos conta de que já passaram tantos dias – e tão rápido! – nuvens arrastadas pelo vento.

A maior parte dos dias se vão sem que nos demos conta, sem que prestemos atenção naquelas horas que perdemos (ou ganhamos?) imersos na rotina, com os olhos vendados para as pequenas belezas que se escondem nos atos contínuos, insensíveis às gotas de doçura, de carinho, de deslumbramento que, por tão pequenas, não nos encharcam, mas nos refrescam a alma.

Nós queremos ser encharcados de beleza, de doçura, de carinho, de deslumbramento. São dos dias de profusão ou intensidade que nos lembraremos. São das lembranças desses dias que retiraremos a conclusão de que, no fim, valeu a pena ter vivido, de que a vida foi bem vivida, bem aproveitada, foi gasta com satisfação.

Mas sem as pequenas gotas, sem aqueles pequenos momentos espalhados pelos nossos dias comuns, estes dias seriam demasiado longos e a espera por grandes momentos, momentos marcantes, demasiadamente sofrida.

São os pequenos momentos que tornam os dias comuns vivíveis.

Hoje seria mais um dia comum; e talvez eu nem lembrasse bem dele amanhã, caso uma gota de beleza e deslumbramento não tivesse me acertado os olhos e, por eles, refrescado minha alma.

Entre trabalho e a necessidade de ter uma consulta com um ortopedista, tive uma hora de folga e resolvi gastá-la folheando livros na Saraiva do Del Paseo.

Passeando por entre mesas e estantes, uma antiga conhecida me proporcionou um instante de surpresa, de beleza, de deslumbramento que fez com que meu dia tão comum ficasse especialmente comum e me deixou mais leve para o dia de amanhã.

Ao passar a vista por alguns livros, um livrinho de capa marrom e título Episódio Humano exigiu meu olhar. Era um livro da Cecília Meireles do qual nunca havia ouvido falar, eu, que sou apaixonado por ela; eu, que tenho toda a sua poesia; eu, que a cada ano a apresento a meus alunos.

Já antevendo o prazer que sentiria, tomei o livro nas mãos e descobri que era um livro até então inédito, publicado recentemente, com uma compilação de crônicas que Cecília escreveu entre 1929 e 1930 para O Jornal, do Rio de Janeiro.

Ainda surpreso, li algumas linhas e foi quando fui tomado pela beleza e pelo deslumbramento.

Cecília, ela que tanto cantou a fugacidade da vida, a transitoriedade das coisas, lembrou-me que, sim, nós queremos, ansiamos, precisamos de momentos intensos, marcantes, mas que são os pequenos momentos escondidos sob a capa da monotonia que nos preparam a alma para vivê-los.

Sem esses pequenos momentos nos concentraríamos tanto, mas tanto, na demora, na espera de que algo grande, algo grande e bom nos acontecesse, que nos aborreceríamos, nos agunstiaríamos e talvez perdêssemos a oportunidade de viver O momento quando ele finalmente chegasse. Já aconteceu comigo. E é triste quando acontece.

Deixem que eu divida um pouco da beleza Cecília soprou levemente em mim com vocês.

“Quero comprar um belo pássaro colorido, que só saiba dizer esta palavra: “Sim”. Todos os dias lhe perguntarei, amanhecendo: “A vida é bela? Devemos seguir sorrindo? Depois das coisas que passam vêm as que para sempre permanecem?”

E ele me dirá que sim, que sim, que sim. E eu me alimentarei dessa palavra indispensável, que o meu pensamento, de tanto ter dito sem êxito, já tem medo de repetir.”

 

“O dia de amanhã está guardado entre o céu e a terra. Irei abri-lo com o Sol. Aparecerão as tristezas de hoje e de ontem, e com elas também velhas e novas esperanças. Meu espírito olhará com ternura para essas coisas que o dia traz.

Estamos sempre dizendo: “Oh! Que monotonia…” Mas, quando a noite fechar nossa vida incoerente, iremos talvez balbuciando com os lábios frios: “Oh! Se fosse possível possuir um pobre dia mais!”

 

“Amanhã vestirei meu vestido branco e prenderei flores em meu cabelo, pois quero aparecer nos caminhos com alegria porque sei que te vou encontrar.

Não sei por onde vens, nem me inquieta adivinhá-lo. Estou descuidosa quanto à hora em que chegas e ao tempo que ficas. Porque não quero nada de ti.

Não quero nada de ti. Sinto, porém, que existe alegria no meu pensamento, sabendo que vens. E desejo que o dia de hoje passe. E queria gastar minha vida mais depressa, para que desde já fosse amanhã.”

Cecília Meireles

Meu deus! – como é lindo, não é?! Eu espero o momento em que uma alma como essa cruze o meu caminho, que almas que saibam reconhecer o quanto a alma dessa mulher está repleta de beleza cruzem o meu caminho.

Mas não é uma espera dolorosa. E Cecília, hoje, me lembrou da necessidade de manter os olhos atentos e a pele sensível para as pequenas coisas, que podem se tornar grandes, para as pequenas coisas que, mesmo pequenas, nos preparam para as grandes, para as pequenas coisas que tornam um dia comum agradável e a vida gostosa de ser vivida.

Steller de Paula

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.