Escritos Esparsos

29 de agosto de 2010

O desejo é a pele do Amor.

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Pintura de Oskar Kokoschka

 

Os chineses antigos tinham belas metáforas para tudo o que envolvia o sexo. Chamavam, por exemplo, o ato sexual de “As nuvens e a Chuva” – o que representaria os céus e a terra a fazerem amor – e o orgasmo de “O Estouro das Nuvens”. 

E para que as nuvens estourem não é preciso amor, principalmente para os homens. 

A grande maioria dos homens separa muito bem amor e desejo. 

Há, sim, como desejar, e muito, sem amar. 

Sexo é prazer. Ponto. Sexo sem carinho é prazer. Sexo com carinho é muito prazer. Sexo com amor é quase uma experiência mística. 

Talvez por isso as mulheres (grande parte) não conseguem separar, como os homens, sexo e amor. 

Parece que as mulheres sentem o prazer sexual de uma forma diferente, uma espécie de prazer psicológico muito forte, na consciência do desejo. O que não quer dizer que elas devem abrir mão do prazer físico. 

É lindo ver uma mulher durante o orgasmo. 

É lindo ver o êxtase, o torpor, o abandono a que elas se entregam. 

A mulher, quando atinge o orgasmo, sente a terra se mover. 

A mulher, quando goza, tem sua alma expandida; seu corpo inteiro é sensação. Por isso, de alma expandida, com o corpo inteiro sentindo a si mesma, ao homem, a terra e ao céu, é tão fácil para a mulher o recomeço, a continuidade. 

O homem, quando goza, é triste. 

É triste porque é término. 

É triste porque ele não pode se abandonar a si mesmo, pois se cobra o recomeço. E o recomeço não é tão imediato. 

O homem separa muito bem amor e desejo. 

Mas o homem, por ser triste o orgasmo masculino, por ser vazio comparado ao da mulher, precisa bem mais do carinho, do amor. 

É no carinho, ou no amor, refletidos no abraço, no aconchego após o orgasmo, que o homem pode completar seu caminho para as nuvens. 

Sem carinho, sem amor, depois que goza, o homem fica no limbo. Nem toca a terra, nem atinge o céu. 

E é o carinho, ou o amor, que tornam, para o homem, mais fácil o renascer do desejo. 

O amor é lascivo, se excita com a lembrança, com o pensamento, com o cheiro. O amor antecipa o toque. 

O desejo mora na ponta dos dedos, e o amor no abraço dos olhos. 

O amor abraça, acolhe, conforta e aquece com o olhar. O olhar do amor percorre a espinha e arrepia, desnuda o desejo e excita. 

O amor não veste roupa e vai embora. Ele deita e deixa o corpo secar na quintura do outro corpo. 

Mas não é fácil conciliar amor e desejo. 

Quando se tem carinho por quem se tem desejo, já é uma conquista. 

Mas o fato é que o amor intensifica o desejo. 

O amor é o desejo que contraria o desejo de não desejar. 

O homem nunca vai abrir mão do desejo, com ou sem carinho, com ou sem amor. 

A mulher não deve abrir mão do desejo, mesmo com carinho, mesmo com amor. 

Nem sempre se acha o amor, ao esbarrar com o desejo. 

Mas o desejo vem de carona com o amor. 

O desejo é a pele do amor. 

Steller de Paula

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27 de agosto de 2010

Eu Não Me Despeço

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 0:09
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Eu sei que somos frágeis. Eu sei que somos fracos. Mas eu não me conformo.

Desde pequeno eu tento racionalizar a morte, entender a morte, aceitar a morte.

Desde pequeno eu procuro me preparar para a minha partida. Mas como aceitar, entender, racionalizar a morte de quem amamos? Como lidar com a perda?

Meu primo morreu. O Fabiano morreu. O preto morreu. Difícil acreditar até agora. Como aceitar, diante da incompreensão?

Não foi só o Preto que morreu. Morreu um pouco da alegria da família. Dos encontros de domingo, uma das luzes que iluminava o nosso jogo de baralho se apagou. E sombra que fica vai doer sempre. Essa sombra vai ocupar o espaço de muitos sorrisos, muitas piadas, muitas brincadeiras.

Meus primos são meus amigos. Meus primos são minha fuga para a infância. A infância que eu não quero perder, a molecagem que eu quero manter.

Não há como falar sério com meus primos.

Não adianta tentar, não adianta insistir. A piada vai aparecer, a gozação sempre vem. Quem tenta falar sério faz papel de palhaço, e acaba rindo de si mesmo.

Para conviver com meus primos, é necessário saber rir de si mesmo, rir de tudo, encarar a vida com leveza.

E o Pretinho virava a seriedade pelo avesso. O preto fazia cócegas na vida, nos problemas, nos defeitos. E sempre se ria com o Preto. O Preto era o sorriso, a molecagem. Tão dele, tão nossa.

O Preto era o que trabalhava, o que dançava, o que brincava, o que brigava, sempre com um sorriso, à mostra ou escondido. O Preto se ria por dentro.

O Preto era o pai, era o filho, era o irmão, era o primo, era o amigo, que estava sempre ali, frescando, fazendo hora, tirando do sério, mas estava.

O Preto era tão menino quanto eu, quanto cada um dos meus primos. Juntos, somos sempre crianças.

E hoje um pouco da minha infância morreu. Um pouco da meninice de cada um de nós morreu. E eu não me conformo.

Não me conformo porque nada, absolutamente nada, nenhum lugar é melhor para o Preto do que aqui, junto da gente, junto da família, junto da mulher e do filho, junto do filho que parece ter herdado a molecagem do pai.

Não me conformo porque sei que não há lugar melhor. E somos nós que temos que continuar sem ele. Somos nós que precisamos continuar a brincar, a frescar, a rir sem ele. E não é fácil.

Nós vamos conseguir. Uns mais cedo, uns mais tarde, mas vamos conseguir.

No entanto, será triste. Cada sorriso que dermos juntos, no baralho domingo, no racha de terça, nas festas e comemorações, cada sorriso será um pouco triste.

A tristeza vai se esconder no canto da boca.

Eu não vou ao enterro. Não vou ao enterro porque não me conformo e não quero me despedir. Eu não vou me despedir porque tudo o que o Fabiano era ele ainda é.

Eu não vou me despedir porque eu sei que ele sempre vai estar presente na minha molecagem, na molecagem do Tefon, do Alan, do Raul, do Antomário, de todos nós.

Eu não vou me despedir porque eu sei que ele está presente na molecagem do Guilherme. Na dor da tia Lica, dor que eu não consigo imaginar; no amor da tia Lica, amor que eu não consigo mensurar.

Eu não me conformo porque não é justo. Eu não me conformo porque dói e não é justo.

Eu não vou me despedir porque eu não me conformo.

Eu não vou me despedir porque nós o perdemos, mas cada um de nós é um pouco ele.

Eu não vou me despedir porque nós o perdemos, mas cada um de nós o traz no riso que ri, no abraço que abraça.

Eu não vou me despedir porque cada um de nós o traz no sangue.

E as lágrimas são apenas saudade.

O Fabiano é sorriso. E o sorriso vai voltar ao meu rosto quando eu lembrar dele.

24 de agosto de 2010

Grito de Amor

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 15:56
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Pintura de Frida Kahlo

Dia 19/08 foi o aniversário da minha mãe. Eu não dei os parabéns. Lembrei que também não a parabenizei no dia das mães. Mesmo comprando presente, não dei parabéns, não fiz um cartão, não falei nem escrevi as palavras bonitas que sou capaz de pensar e dizer e que ela há muito espera ouvir.

Não consigo dizer à minha mãe que a amo.

Não lembro se criança eu dizia. Sei que cresci e não consigo dizer. E ela também não sabe como isso me dói, dói em mim não dizer, como dói nela não escutar.

Minha mãe abarca todos os estereótipos de mãe. Ela pega todos eles e os funde, resultando em um amor pelos filhos que chega a anular o amor por si.

Minha mãe educa, ensina, aconselha. Mas minha mãe vai junto se pegamos o caminho errado, apesar de tudo.

Ela sabe o caminho, ela aponta o caminho. E ela estará no início, se pegarmos o caminho errado e voltarmos, pronta a nos consolar e orientar. Ela estará no final, se pegarmos o caminho mais longo e montanhoso, para nos acolher, nos confortar, no fortalecer.

Mas o mais importante é que ela nos deixa escolher o caminho (quase todos), não faz a escolha por nós.

Minha mãe apóia não concordando.

Minha mãe entende não apoiando.

Minha mãe concorda não entendendo.

Ela deixa, mas que deixa, ela espera que aprendamos com nossos erros.

Minha mãe caminhou, e até hoje caminha, por nós, quando, por alguma fraqueza – medo, insegurança, orgulho, vaidade – nós somos incapazes de percorrer o caminho necessário.

Por nós, minha mãe não tem medo, orgulho, vaidade. E se tem, por nós, ela vence a todos.

Minha mãe é o sacrifício. É a abnegação. É a doação.

Minha mãe parece imortal. Mesmo com todas as suas fraquezas, com todas as doenças, minha mãe parece imortal, parece que vai resistir a mim, a nós.

Mas algo lá no fundo me grita que não, me grita que não, me grita que não.

E eu, que tão bem lido com a morte, com a perda, me assusto diante desse grito.

E não única vez em que a mortalidade dela se mostrou de forma mais cortante, eu chorei. Chorei um choro que não soube explicar.

É grande demais o amor de minha mãe. É grande, é corpóreo, é onipresente.

Talvez seja grande demais para eu carregar, grande demais para eu retribuir.

Talvez eu precise lutar contra seu peso, para suportá-lo, para não sumir sob ele.

Talvez tudo isso, a grandeza desse amor, a intensidade desse amor, a minha pequenez diante desse amor, a necessidade de não me anular perante esse amor e a consciência da mortalidade de minha mãe, sufoque as palavras, reprima as demonstrações de afeto e carinho. Ainda que o sufocar e o reprimir me tornem mais pequeno.

E eu espero ter metade dessa capacidade de amar para dar aos meus filhos.

Certamente ela não lerá esse texto, mas, mãe, esse é meu grito de amor. É o eu te amo que eu não sei dizer, é o abraço que eu não consigo dar.

Parabéns! Parabéns por mais um ano carregando e extravasando tanto amor!

 Steller de Paula

23 de agosto de 2010

O Amor Teima em Não Acabar

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 0:38
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Pintura de William-Adolphe Bouguereau

Quando um relacionamento termina, quando o vazio toma conta do peito e o pensamento transborda de confusão, poucas situações nos assustam tanto quanto reencontrar a ex.

Saber que vamos permanecer vivendo na mesma cidade que a ex nos causa transtornos, graves transtornos dissociativos. Surgem em nós o masoquista, o egoísta, o abnegado, o confiante e o inseguro. Eles nos tomam assim que colocamos o pé para fora da soleira da porta. Diante da possibilidade de esbarrar com a ex a qualquer momento, sofremos de múltipla personalidade. E cada personalidade tem seu plano, fica imaginando como vai agir caso o temido e esperado encontro aconteça.

Não, não quero vê-la. Não me importa se ela está bem, se está mal.

Quero, quero vê-la. Saber como ela está reagindo.

Tomara que ela esteja mal, abatida, com olheiras. Então eu vou consolá-la, abraçá-la.

Tomara que ela esteja mal, abatida, com olheiras. Então eu estamparei meu ar mais vitorioso.

Espero que ela esteja bem, apesar de tudo. E que ela não perceba que me dói.

Espero que ela esteja bem, apesar de tudo. E que ela perceba que eu sofro por nós dois.

É bom que ela esteja sozinha. O constrangimento é menor…

É bom que ela esteja acompanhada. Assim, tudo se encerra de uma vez.

Não, é bom que eu esteja acompanhado. Meu deus, preciso de uma companhia!

A confusão dá o tom. E não sabemos o que queremos. Sabemos o que não queríamos. Não queríamos que tivesse chegado até aquele ponto. Que o amor não tivesse sido gasto, que não tivesse acabado. Que a companhia dela ainda fosse nossa pele.

Mas o amor acaba. E precisamos enfrentar o fato que de que, de um dia para o outro, não sabemos o que mais importa sobre aquela que durante muito tempo era o sorriso estampado em nossa face. E precisamos lutar contra o orgulhoso em nós, contra o egoísta em nós, contra o inseguro em nós. Para que o que era amor não se transforme numa onda de esquecimento e ingratidão. O amor pode acabar, mas não pode nos abandonar.

Recentemente reencontrei minha última ex-namorada. Não foi o Acaso, o Fortuito, o responsável pelo encontro. Não sei quem foi.

Sei que, após meses e meses sem notícias, vejo a janelinha do MSN com o nome dela piscando em minha tela.

Não dizia “oi”, não queria saber como eu estava. Dizia que precisava de um conselho. Um conselho sobre homens, sobre relacionamento, fez questão de frisar.

Lembrei de uma frase que mandei quando ela começou a aprender francês:

 “L’amour est un sentiment égoïste. Je veux vous à moi non pas parce que Je t’aime, mais parce que j’ai l’amour de vous. J’ai vraiment l’amour est de le laisser partir. Aller.”

 Foi uma conversa longa e de vários conselhos.

Na semana seguinte, o telefone toca e ela me convida para comer algo. A conversa precisa da presença.

Minutos depois, estávamos ambos sentados frente a frente, conversando, como tantas vezes num tempo que pareceu tão remoto e tão ontem. Nós tão os mesmos e tão outros.

Quando a vi, não senti um frio percorrendo minha espinha e arrepiando os pelos da minha nuca, como aconteceu na primeira vez que nos vimos depois do término. Minha cabeça um turbilhão que o corpo escondia, que o sorriso disfarçava.

Ela falou do trabalho, das conquistas recentes e mirou no futuro como sempre. Falou dos meus textos, perguntou das minhas novas tatuagens e elogiou o modo como eu estava vestido. Na verdade, ela se gabou pelo modo como eu estava vestido. E ela pode se gabar. Eu sinto que existe um pouco dos seus olhos nos meus olhos.

Existe um pouco dela no meu jeito de andar, de trabalhar, de querer da vida.

Existe muito dela no meu jeito de me pensar, de amar, de querer de mim.

Olhando para ela ali, rindo enquanto ela se gabava, eu percebi que o amor não acaba.

Verdade que eu não amava mais aquela garota de 23 anos, linda e metida, sentada a minha frente. Mas eu ainda amo aquela garota de 20 anos, linda e metida, com quem eu namorei e que anda comigo quando eu ando, que escolhe roupas comigo quando eu escolho, que ama comigo quando eu amo e que quer da vida e de mim o que eu quero.

Amo o que ficou dela em mim. Não senti ciúmes, nem desejo. Aquela garota foi minha, é minha, está guardada, e ninguém a teve, nem terá, como eu a tive. Suas qualidades e defeitos. Seus rompantes de alegria e de raiva. Seus planos e seus medos. E tudo isso atuou em mim, como nela. Tudo fez parte de mim, como dela.

Indo embora, depois do encontro, lembrei da minha primeira namorada. Lembrei de como também tenho a agradecer a ela. De como tenho a agradecer a cada mulher que amei e que me amou, a cada mulher que dividiu comigo mais que seus beijos.

Cada namorada que tive me tornou um homem melhor para a mulher que encontrou depois.

Cada mulher que passou por mim, por minha vida, me deu e deixou em mim muito do que eu tenho de bom. E espero ter retribuído em carinho, em afeto, em honestidade, em delicadeza. Espero ter construído, mais que destruído. Espero estar nelas, tanto quanto elas estão em mim. Porque o amor não acaba. Ele fica guardado na lembrança, fica por baixo da pele, fica estampado no sorriso, extravasa nas lágrimas e no suor. Cada amor é um amor, mas o amar é um só. Amor não acaba, não se esquece, não se supera. Amor se guarda, acumula, cresce e se aperfeiçoa.

21 de agosto de 2010

Por trás da porta

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 23:28
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Pintura de Üzeyir Lokman Çayci

Já passara três meses desde que ela o deixara, desde que fechara aquela porta. E agora ele estava ali, sorrindo, conversando, o centro das atenções como sempre fora, e tão lindo e charmoso como há seis meses.

Porque vê-lo a abalou tanto? Não, não esperava vê-lo, não o via desde aquele dia em que juntara suas coisas e deixara o apartamento dele, terminando o namoro. Sim, foi uma decisão sua, porque estava tão abalada?

Não parara para pensar, realmente pensar nele, desde aquele dia. Terminara o namoro por não sentir mais tanta confiança no amor que sentia por ele, por querer uma vida diferente da que levava com ele. Começara a se atrair por outras coisas, outras pessoas, os convites para sair com os amigos eram cada vez mais constantes e irresistíveis, a vontade de fazer coisas sem ele crescia.

E por três meses vivera a vida que quis. Uma festa, outra festa, mais uma. Ficou com alguns carinhas, nada sério. Três meses em que ela se deixou levar, em que ela viveu, não pensou na vida. Não se deu tempo para pensar.

E agora estava pensando, agora, com ele ali, só a algumas mesas depois da sua, rodeado de amigos e amigas, algumas são bem atraentes, ela pensou nele, nela, na vida que levavam juntos, na vida que levava agora. Lembrou do seu carinho, de sua proteção, de sua atenção. Lembrou de seu vigor durante o sexo, do quanto era bom ficar abraçado depois, até adormecer. Lembrou do beijo e percebeu que em nenhuma outra boca que beijou a sua se reconheceu tanto. Será que suas bocas ainda se reconheceriam? Que seus corpos se entenderiam como antes? Que confusão era essa que estava sentindo? Por que o coração batendo tão rápido, as mãos suando, os pelos da nuca arrepiados?

E ele a viu. Num relance ele a viu e parou. Parou o que dizia, a encarou e sorriu. Os que estavam com ele na mesa nada perceberam. Ele terminou o que dizia, pediu licença, levantou-se e foi até ela.

Ela queria sumir. E não queria estar em nenhum outro lugar do mundo, senão ali, imóvel, com ele vindo até ela. E quanta segurança nesses passos! Suas pernas tremiam embaixo da mesa.

– Olá, moça! Quanto tempo! – Disse ao pé da mesa dela.

As amigas dela o encaravam, depois de medi-lo dos pés à cabeça.

– Olá, moço! Realmente. Que surpresa boa!

Nunca levantar de uma cadeira foi tão difícil, e pareceu tão natural.

Ele se apresentou às amigas dela.

– Oi, boa noite. Vou roubar a atenção dela só uns minutos. Sou um amigo distante.

E conversaram um pouco. “O que você tem feito? Como anda? Eu estou bem, e você?”. Conversa banal. Conversa que todos têm ao reencontrar alguém de quem foi um tanto quanto íntimo.

As imagens iam e vinha na cabeça dela. Aquele sorriso, os dois fazendo compras para o apartamento dele, sentados lado a lado nas cadeiras do cinema. Há quanto tempo não ia ao cinema? Gostava tanto. O corpo dele nu ao sair do banho, o cabelo molhado. Ele chorando no último dia.

– Bem, moça, preciso ir. Não vou tomar mais seu tempo.

– Mas já?

– Meus amigos estão esperando. Já tínhamos pedido a conta.

– Então é melhor ir. (vai não…, vai não…)

– Aparece, moça. Manda notícias! Muito bom te rever.

– Apareço, sim. Também achei.

– Até!

– Até!

E de repente, nenhuma imagem, nenhum pensamento, nada. Uma explosão de silêncio.

Mas que sensação é essa, que a toma lentamente? Sensação que invade o corpo, que ocupa os espaços. O que é isso, é vazio, é saudade, é tristeza? É completude, é presença, é alegria? É reconhecimento? De quem? De si? É alívio? Arrependimento? Meu deus…

As amigas não entendem o olhar perdido. Querem saber quem era, ela não quer explicar. Não quer estar ali, não sabe mais o que quer.

Ela levanta, deixa o dinheiro na mesa e sai. Ela anda, ah, ela anda muito. Ela volta andando para casa. E deixa os pensamentos virem enquanto anda, deixa a confusão tomar corpo. Ela lembra, ela pensa, ela sente, ela analisa, ela não sabe o que acontece consigo. Não entende, não entende nada. Como? Onde estava tudo isso? Onde estava escondido? Como não se perdeu depois de tanto tempo, depois de tanta coisa?

Ela parou diante da porta de sua casa, colocou a chave na fechadura, olhou ao redor, entrou e fechou a porta.

Ela se sentia muito viva, mas já não se sentia tão livre. Sua liberdade a aprisionava.

 Steller de Paula

17 de agosto de 2010

O Som da Porta Fechando

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 2:25
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* Na ausência de tempo para textos novos, posto um bem antigo.

Artista: Hopper

Ela despertou com ele abrançando-a com força enquanto chorava; não que ela tivesse dormido, mas depois da conversa na noite anterior ela mergulhou em um estado de torpor do qual ele agora a tirava, fazendo com que toda a culpa, dor e angústia voltassem. E ela também chorou novamente. Choraram por um bom tempo e nenhum dos dois jamais haviam imaginado que tinham tantas lágrimas. Mal sabiam que muitas outras rolariam ainda hoje e por muito tempo.

Quando conseguiu se conter, ele a olhou e disse:

 – Eu te amo.

Nunca ouvir isso de alguém tinha doído tanto e por alguns segundos, para ambos, longos demais, ela ficou sem saber o que dizer. Pensou na dor que sentia, pensou que também o amava, mas não como antes, e que se dissesse o que ele esperava que ela dissesse, o que disse naturalmente por tanto tempo que ele não cogitava que um dia ela poderia não dizer, se afirmasse que também o amava não estaria mentindo, não para si, mas esse amor já não era o mesmo e ela temia que em um futuro próximo algum ato seu fosse de encontro a esse. “eu também te amo” que ele esperava ouvir tão ansiosamente. Ela temia que soasse falso depois de tudo o que dissera ontem e temia mais ainda que ele não notasse a diferença do amor de hoje para o amor de antes e depois se decepcionasse ainda mais e achasse que ela mentiu para ele ao dizer. Não disse.

E por não dizer teve que escutar:

– Você está me deixando, não é? – Falou ele.

Mas ela também não teve forças para confirmar, ou para mentir, nem para si nem para ele, pois no fundo já decidira, só faltava decidir.

Ele a beijou, levantou-se, banhou-se, vestiu-se e saiu para o trabalho.

Ela ficou deitada por mais quarenta e sete minutos, chorando.

Dizem que as lágrimas afloram quando o corpo transborda, sejam de alegrias, sejam de tristezas. Ela transbordava de culpa, sensação de perda, de insegurança, de amor e de dor.

Levantou-se e começou a arrumar o apartamento dele, onde ela se sentia tão à vontade como em sua própria casa. Lavou e enxugou as louças, espanou os móveis, varreu e organizou o guarda-roupa. E chorou, chorou muito. Chorou enquanto lavava, enxugava e varria. Mas chorou mais ainda enquanto organizava o guarda-roupa dele e ia separando as suas próprias roupas que estavam ali.

Vários planos e sonhos estavam sendo abandonados naquele momento.

Como uma paixão tão grande pode acabar assim? O que exatamente me fez começar a desejar outras pessoas? A querer estar sozinha, a querer me sentir livre? A partir de quando não mais me senti livre? Não sei… Não sabia.

Juntou suas coisas, banhou-se e se deitou nua na cama, abraçada aos lençóis. E sentiu medo, sentiu insegurança.

Como vou ficar sem seu cheiro, sem seu toque, sem seu beijo? Como me acostumar a não tê-lo mais escovando meus cabelos depois do banho, a não tê-lo mangando de mim por eu me acabar de chorar assistindo a um filme, brigando comigo por eu ter feito alguma besteira, mas depois me abraçando e me ajudando a consertar tudo, correndo as mãos pelo meu corpo nu enquanto conversamos ou simplesmente ficamos abraçados depois do amor?

Algum dia encontrarei outra pessoa que me ame tanto assim, que me conheça tanto?

Só que não posso me contentar somente em ser amada. É claro, que o amo e o amo muito, mas como um grande amigo com quem dividi os momentos mais felizes da minha vida, com quem aprendi que não se precisa ser sempre tão certinha em tudo, que muitas vezes dar é bem mais prazeroso que receber, que pedir desculpas e engolir seu orgulho pode valer a pena e não ser tão difícil e que me mostrou que o amor pode ser bom, prazeroso e divertido e não somente dolorido.

Mas não posso ficar ao seu lado desejando outras pessoas, querendo, por vezes, estar com outras pessoas e correr o risco de um desgaste maior, arriscando nossa amizade. Não posso…

Enxugou suas lágrimas no lençol dele e o cheirou por um bom tempo, levantou-se, vestiu-se, pegou suas coisas e foi embora. E nunca esqueceu aquele cheiro, nem o som daquela porta fechando.

Steller de Paula

7 de agosto de 2010

Ainda Jovem

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 23:01
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Ainda jovem

Aprendi a receber da vida

O que ela me dá.

Ainda jovem

Aprendi a recolher do dia

A satisfação para querer estar aqui à noite.

Ainda jovem

Aprendi a extrair do hoje

O importante para construir o amanhã.

Receber

Recolher

Extrair

A serenidade necessária para conciliar

O agora e o depois

O hoje e o amanhã

O dia e a noite.

1 de agosto de 2010

Da difícil Arte de Namorar Mulher Bonita

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 19:27
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* Tela de Francesco del Cossa

Namorar uma mulher muito bonita não é fácil. É desafiador e trabalhoso.

Uma mulher bonita exige um homem seguro e confiante, para que a atração não se torne desejo de posse e o amor, prisão.

Uma mulher, nenhuma mulher, merece ser vigiada, ter sua liberdade cerceada em um relacionamento. Se não há confiança, não há como a relação ser saudável.

Rolar ciúme é normal, para ambos. Quando a mulher é muito bonita há de ser ter cuidado para que o ciúme não vire paranóia, para que o ciúme não morda a cada olhar de outros homens na rua, a cada indireta dada pelos que a cercam, para que o ciúme não grite cada vez que o telefone tocar.

Uma mulher cuja beleza se destaca exige um tipo diferenciado de compreensão, pois ela pode cultivar admiradores onde quer que vá e ainda assim ser a mais fiel das namoradas. Seu ego se nutre dos elogios que ela cultiva, dos olhares que ela arranca quando passa. Isso não quer dizer que ela seja infiel.

Então que seja o namorado seu maior admirador. A mulher bonita exige sempre um brilho nos olhos e um suspiro nos lábios daquele que a namora. Deve-se estar sempre surpreso perante sua beleza, que se renova com os elogios.

Não basta ela se sentir amada, se saber admirada. Ele quer ser cantada. Ela precisa ouvir. A poesia tem que brotar dos seus olhos diante dela.

Toda mulher exige que o homem seja observador. A mulher bonita exige que ele seja meticuloso. Há de se ter que notar o brinco novo, o esmalte novo, o volume maior dos cabelos por causa do novo shampoo. É o mínimo que se pode fazer. É o reconhecimento por todo o esforço que ela faz para estar sempre linda para você (mesmo que ela se embeleze muito mais para si mesma).

O homem tem que ter vários olhares para a mulher bonita. Tem que ter o olhar que se ilumina quando ela surge; o olhar que despe, que rasga a roupa, que a faz se sentir desejada; o olhar que acolhe, que abraça e que diz “és minha”. E cada um tem seu momento, e descobrir o momento certo de cada um é quase uma arte.

A mulher bonita quer ser vista. A rua é uma passarela e ela sempre quer estar pronta para o desfile. Não é fácil para o homem entender isso. Perceber que o muito tempo gasto se vestindo para ir fazer compras é importante. Dificilmente uma mulher veste “qualquer coisa”. Uma mulher bonita então…

E eu aprendi, a golpes de olhares decepcionados, que o namorado da mulher bonita não pode ser dar ao luxo de vestir qualquer coisa.

Lembro de um desses olhares em especial, lançado pela minha última namorada. Cheguei em sua casa numa quinta à noite, depois de dar dez aulas, e só queria tomar um banho, colocar um short e deitar abraçado a ela. Ela me esperava para sair. Diante do meu desânimo e falta de coragem ela fez uma concessão: “Pois vamos só comer um cachorro quente aqui na Virgílio Távora.” Era só descer e andar dois quarteirões, então o acordo foi fechado. Ela foi tomar banho. Eu, de banho já tomado, me vesti enquanto ela estava no banheiro e fui para a sala assistir alguma coisa.

Fui me entregando ao cansaço, e ela tomando banho, o cansaço foi me envolvendo, e ela se arrumando. Quase cochilei, e ela se arrumando…

Quando enfim ela termina e surge na minha frente linda e perfumada, como quem vai a uma festa. Nossos olhares se cruzam e ali morreu nossa noite. Eu a olho surpreso pela produção toda para ir comer cachorro quente a dois quarteirões de casa. Ela me olha decepcionada por eu estar de bermuda, camiseta e havaianas para sair com ela. Não nos entendemos. E não houve jeito de consertar o desentendimento na hora. Nem minha incompreensão, a decepção dela permitiram. Depois, percebi que o errado era eu. Meu desleixo machucou sua beleza.

Hoje deixo a dica: se sua namorada quer sair, a acompanhe. Vista-se de forma que ela sinta orgulho de estar ao seu lado. E caso sua namorada seja bonita, amigo, esforce-se para estar a altura dela. Porque mulher bonita quer, e merece, ser admirada, contemplada. Às vezes ela quer, inclusive, ser invejada. E na cabecinha dela pode ser que você faça parte disso, pode ser que ela te veja como algo que acrescenta. Ela quer, e precisa, ter orgulho de você. Segurar a sua mão como quem diz “É meu. Eu conquistei”. Sim, você é o prêmio. Sua presença a engrandecendo ainda mais. Para uma bela mulher, o namorado é como o coadjuvante perfeito: não rouba a atenção que deve ser dedicada a ela, mas também não estraga a cena.

De todas as formas de arte, amar bem a mulher que você ama é a que requer mais especialização, cuidado e sensibilidade.

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