Escritos Esparsos

15 de janeiro de 2011

Sobre Literatura, tragédia no RJ e Ronaldinho Gaúcho

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 22:56

Eu sou professor. Como professor, acredito que dentre as minhas responsabilidades está o dever de incentivar meu aluno a ler, a se informar sobre o que acontece no mundo, no país, na sua cidade, a refletir sobre a natureza humana, sobre si mesmo, sobre seu papel social.

Como ser que ler, que se informa, que pensa, que reflete, tenho, cada vez mais, pensado que, talvez, seja melhor não ler, não se informar, não pensar; porque quanto mais reflito sobre a vida, sobre a existência humana, sobre nossa natureza, mais vejo como o ser humano pode ser desprezível, miserável, como nossa existência pode ser sem sentido, como “viver é perigoso”. Porque quanto mais leio, quanto mais me informo sobre o que acontece no Brasil e no Mundo, mais me decepciono, mais me entristeço, mais fico puto com os caminhos que são tomados, com as prioridades das pessoas, em geral, e dos políticos e empresários, em particular.

Ensino Literatura e a pergunta mais freqüente, além da “pra que serve a Literatura?”, é “porque os escritores falam tanto de coisas ruins, de tristezas?”. Porra! Porque nós somos assim: ruins, tristes! Porque nossa vida vai ser fugir de uma tristeza após a outra! Porque é função da Literatura jogar tudo isso na nossa cara e nos fazer enxergar, com a ideia de que, enxergando, nós consigamos mudar, ou melhorar, ou entender e sofrer menos.

Mas a maioria não quer enxergar, não quer entender; a maioria prefere fugir e ir levando.

E daí?! Eu me pergunto. Talvez não seja melhor assim? De que me adianta enxergar, entender, se, sozinho, sou impotente? Não posso mudar a natureza humana, não posso melhorar o ser humano, não posso fazer nada contra a corrupção, contra a safadeza dos políticos, melhor viver minha vidinha da melhor forma possível, pensar o mínimo possível, curtir o máximo possível e que cada um faça o melhor que pode com o que tem.

Meu deus, mas eu posso fazer alguma coisa! Verdade, não posso sozinho. Mas se os brasileiros não fossemos tão egoístas, tão individualistas, tão apolíticos, tão alienados, poderíamos, sim, mudar e melhorar muita coisa! Se nós lêssemos mais, nos informássemos mais, nos cobrássemos mais e fôssemos mais ativos politicamente, não teríamos que engolir tanta merda!

607 pessoas já morreram no Rio de Janeiro por causa das chuvas. Por causa das chuvas?! Por causa das chuvas?! Você se surpreendeu? Eu não me surpreendi nenhum pouquinho, nadinha. Ano passado foi a mesma coisa, não lembram?

Agora o importante é: e o que vai acontecer depois que as chuvas pararem? Os políticos vão se lamentar, vão se desculpar, vão dizer que o que podia ter sido feito foi feito e que vão fazer o necessário para que isso não se repita ano que vem. E o que os cariocas vão fazer? Vão cobrar? Será que milhares, atingidos ou não pela tragédia, vão fazer passeatas em frente à Prefeitura, em frente à Assembléia Legislativa cobrando, fiscalizando? Não, cada um que perdeu tudo vai reconstruir sua vida como puder (o brasileiro é guerreiro), alguns farão doações, outros ficarão putos e escrever textos, como eu. E ano que vem eu não me surpreenderei quando tudo se repetir.

Sim, porque o brasileiro, em geral, é idiota. E nós nem enxergamos nossa própria idiotice.

Na mesma semana da tragédia, Ronaldinho Gaúcho voltou para o Brasil. Vai jogar pelo time para o qual torço, o Flamengo. A presidente Patrícia cogitou fazer uma carreata pelas ruas do Rio, porque a nação flamenguista queria ver o ídolo. 20 mil pessoas foram à Gávea para a apresentação do jogador. Quantos cariocas vão as ruas cobrar o governador, deputados e vereadores pelo que está acontecendo nesse exato momento? Porque a nação flamenguista, vascaína, botafoguense, tricolor, não vai sai à rua em protesto ao descaso dos políticos? Porque é mais fácil ir ao estádio, é mais divertido.

Não, minhas crianças, não leiam, não estudem, não se informem. Literatura, Filosofia, Sociologia não servem para nada. Vocês serão advogados, médicos, engenheiros, serão doutores! Vão ganhar dinheiro, viajar, ir ao estádio, à shows, vão lidar com as perdas do jeito que puderem e vão reclamar dos políticos no conforto dos seus lares, nas mesas dos barzinhos, sempre que uma tragédia acontecer, que um escândalo de corrupção estourar. E muitos vão colocar a culpa nos pobres, nos analfabetos, que não sabem votar, como os sulistas colocam a culpa nos nordestinos ignorantes. Afinal, você, sozinho, não pode fazer nada. Pode lavar as mãos.

 Flamenguistas vão receber Ronaldinho

Ah, crônica de uma tragédia anunciada:

 

15/01/2011 – 03h30

Rio foi alertado em 2008 sobre risco de desastre em região serrana

Um estudo encomendado pelo próprio Estado do Rio de Janeiro já alertava, desde novembro de 2008, sobre o risco de uma tragédia na região serrana fluminense –como a que ocorreu na última segunda-feira e que já deixou ao menos 547 mortos–, informa a reportagem de Evandro Spinelli publicada na edição deste sábado da Folha.

A situação mais grave, segundo o relatório, era exatamente em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, os municípios mais devastados pelas chuvas e que registram o maior número de mortes. Essas cidades tiveram, historicamente, o maior número de deslizamentos de terra.

O estudo apontou a necessidade do mapeamento de áreas de risco e sugeriu medidas como a recuperação da vegetação, principalmente em Nova Friburgo, que tem maior extensão de florestas.

Quanto a Petrópolis e Teresópolis, o estudo informou que as cidades convivem com vários fatores de risco diferentes –boa parte da área urbana em montanhas e planícies fluviais– e podem ser atingidas por desastres “capazes de gerar efeitos de grande magnitude”.

Sobre Nova Friburgo, o documento relata que boa parte de sua população vive em áreas de risco. A cidade registra um dos maiores volumes de chuva do Estado do Rio.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/861010-rio-foi-alertado-em-2008-sobre-risco-de-desastre-em-regiao-serrana.shtml

1 de janeiro de 2011

Sim, é preciso amor.

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 23:06

* Não gostei, mas taí…

Sim, é preciso amor

 

Sim, é preciso amor.

É preciso amor para dançar num campo de flores

Para dançar a música do vento, do mar, das estrelas

Para dançar a música que ecoa na eternidade

Que só é audível, visível, palpável a quem se conecta através do amor.

 

Sim, é preciso amor.

É preciso amor para saber plantar alegria

Para saber colher afeto

Para saber retirar das entranhas da terra

A capacidade de viver uma vida plena e alegria e afeto.

 

Sim, é preciso amor.

É preciso amor para conhecer o encanto no brilho nos olhos

Para conhecer a quentura no calor de um sorriso

Para conhecer o poder de um abraço

Que diz mais que palavras, porque envolve com braços, olhos, sorrisos.

 

Sim, é preciso amor.

É preciso amor para se defender da força do tempo

Para resistir ao raio da morte

Para escapar do medo, da loucura e da vontade de desistir

Que nos espreitam a espera da chance de nos atingir pelas frestas de nossa fraqueza.

 

Sim, é preciso amor.

É preciso amor para se defender da queda no abismo da solidão

Para valorizar o mergulho nas águas calmas da solidão

Para entender que companhia por medo da solidão não passa de uma dependência

Que esvazia o que deveria ser abundante, visto que é somado, multiplicado e compartilhado.

 

Sim, é preciso amor.

É preciso amor para unir os fragmentos do que fica após uma perda

Para tentar dar ordem ao caos da vida

Para encontrar sentido nesse universo de desencontros e tristezas e decepções

Que por vezes nos fazem querer odiar, até percebermos que ainda há a capacidade de amar.

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