Escritos Esparsos

28 de setembro de 2012

Decifra-me ou Te Devoro

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 1:03

Eu não gostaria de ter nascido mulher. Em um Brasil machista como o nosso, muito menos. Porém, não é apenas pelas dificuldades que as mulheres enfrentam no dia a dia em suas relações sociais que prefiro ser homem. É que sendo homem posso amá-las, posso maravilhar-me constantemente diante de suas idiossincrasias, de seus encantos, percebendo como, sendo tão parecidas, cada uma é uma constelação.

E de tanto conviver com elas, de tanto me cercar delas, de buscar entendê-las, respeitá-las, adorá-las até em seus conflitos, seus dramas, suas crises, eu aprendo e sinto que vou assimilando algumas boas coisas.

Gilberto Gil, em belíssimos versos, entendeu:

“Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver”

Entre homens sou mais facilmente grosseiro, falo muito palavrões, sou competitivo.

Entre homens fico mais facilmente agressivo, menos paciente. Ser homem pra mim, como pra maioria, é ser forte, é ser resistente, é enfrentar os medos, é partir para a briga quando necessário. E, irracionalmente, muitas vezes quero ser provocado além do meu limite, quero brigar, quero bater, quero machucar.

Mas conviver com muitas mulheres expandiu os limites da minha paciência. Com elas, aprendi a ser mais sereno, a respirar mais, e há nove anos não me meto em confusão.

Com as mulheres eu treinei meu olhar, aprendi dar importância a pequenas coisas, a reparar nos detalhes – e como elas se comunicam com a gente através dos detalhes!

A cor do esmalte, o tipo de brinco, o tamanho do salto, um certo bulir de mãos, uma mordida no lábio inferior, tudo passa um recado. Até a hora em que ela resolve lavar o banheiro é uma mensagem cifrada.

Em um pequeno gesto, num pequeno detalhe, pode estar escondido um convite ou um pedido de socorro. E triste do homem que não enxerga a mulher com quem convive e que não aprendeu que até o silêncio comunica.

Mulher nenhuma faz um relatório de seus desejos, de seus gostos, de seus medos. Ela quer ser decifrada, ela quer ser adivinhada.

Decifra-me, ou te devoro! – diz o esmalte, o brinco, o salto, olhar, a mão, a mordida no lábio, o banheiro sendo lavado.

Uma mulher é uma seita secreta em cujos mistérios precisamos nos iniciar para que realmente possamos vivê-la como ela merece, religiosamente.

Steller de Paula

19 de setembro de 2012

Beleza em Vários Tons

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 2:04

Beleza em Vários Tons

15 de setembro de 2012

Ontem reencontrei uma amiga. Depois de um tempo sem nos encontrarmos, passamos a tarde juntos no shopping e o sábado ficou leve. Muita conversa para por em dia, resolvemos a boa música da Zug para esticar a noite. Pouco antes de sair, uma agradável surpresa: minha ex de há muito tempo estava perto, apareceu para dar um oi. Ficamos os três conversando das 21h30 às 01h30 da manhã. Duas mulheres lindas, diferentes em suas belezas, agradáveis de olhar, de modo que por vezes me pegava calado observando-as conversar.  E apesar de ser noite, uma luz irradiava delas, de seus sorrisos, de suas vozes animadas.

Quatro horas, quatro horas sentados, conversando. Não é qualquer mulher que prende minha atenção por quatro horas. E não há beleza que sustente a falta de um bom papo por muito tempo.

As mulheres são encantadas. Encantam-me mais que o mar, encantam-me mais que o luar. Nada me maravilha mais que vê-las, conhecê-las, vivê-las. Ir, aos poucos, descobrindo suas particularidades, seus mistérios. É o modo como sorri, como ajeita o cabelo, como se maqueia as pressas no espelhinho do carro. É o modo como anda, como dança, como se despe, tirando peça por peça, mas deixando os brincos. O modo como se excita, como sua pele arrepia, como sua respiração ofega. É o modo como chora, como em seu peito reverberam os sentimentos, como as lágrimas inundam seus olhos, às vezes lentamente, brotando de sua alma como uma pequena nascente brota do interior da terra, às vezes de súbito, como o inesperado som do trovão.

Sim, como disse o poetinha, beleza é fundamental. Mas beleza não conquista. E quando se conhece uma mulher, se ama uma mulher, se vive uma mulher e se tem o azar de perdê-la, não é da beleza que se sente falta. É do companheirismo, do bom humor, das pequenas idiossincrasias.

A beleza não sacia a sede de reconhecimento, de paixão, de amor que tem por uma mulher. A beleza aumenta a sede, deixa a boca seca, desperta a vontade de se saber o gosto dela. Mas o que, realmente, sacia nossa sede é perceber que a mulher é agradável e sensual tanto vestida quanto em sua mais completa nudez; que ela te deixa com a boca entreaberta de admiração não só quando anda, quando dança, quando faz amor, mas quando pensa, quando fala, quando se impõe pelo que tem a dizer. Uma mulher inteligente não só sacia como intensifica sua sede dela, pois de uma mulher assim não se cansa.

A marca e o encanto que a beleza, sozinha, deixa é efêmera. Ficar quatro horas conversando comigo e me deixar à vontade, me deixar leve, é ser dona de uma beleza que vai além do que pode ser visto com os olhos.  Obrigado, meninas, por uma noite agradável, de beleza e bom humor; de beleza e inteligência; de beleza em muitos tons.

Steller de Paula

11 de setembro de 2012

No Castanho dos teus olhos

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 0:24

*Ainda achando fragmentos de textos.

No castanho dos teus olhos que me inundam de doçura, eu vejo a tranqüilidade e o encanto de uma manhã de sol no parque, a acalentar aflições e cansaços. Envolvido no calor do teu abraço eu sinto renascer em mim a fé no homem, constantemente, diariamente, perdida no combate corpo a corpo com a falsidade e a hipocrisia, a mesquinhez; fé perdida e sempre reconquistada no calor do teu abraço. No aconchego da tua voz falando lentamente do teu dia, das tuas alegrias, eu ouço o som do amor que caminha sobre a face da terra desde tempos imemoriais. O amor fala comigo através das carícias da tua voz.

Steller de Paula

10 de setembro de 2012

Quando Você Vier

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 1:22

Quando você vier, chega como a luz do dia nascendo: acordando, aquecendo, mas leve, imperceptível à razão.

Quando você vier, costura meu olhar no teu sorriso, que a tua alegria irá clarear os meus dias e fazer brilhar os meus olhos.

Quando você vier, amarra meu sono ao teu, para que sonhemos juntos: assim, cada dia será uma semente plantada para o futuro.

Quando você vier, faz dos teus cabelos o meu ninho, meu aconchego, que o meu abraço será teu lugar de descanso: meu peito é largo para te acolher; meus braços longos para te envolver, proteger. Faz de mim teu repouso, da minha força teu escudo, do meu otimismo alimenta tua confiança.

Quando você vier, fica bem junto de mim, para que nossas sombras se confundam, nossas peles se misturem, nosso sangue corra junto por um só coração. Fica bem junto de mim, mesmo longe, mesmo distante no espaço, que a presença não é ao lado, é dentro. Estar presente não é estar perto, é se fazer constante, é se fazer sentida no vento, é ser vista por dentro das pálpebras, é ficar gravada na retina.

Quando você vier, desorganiza minha agenda, embaralha as horas do meu dia, enlouquece minha rotina. E, quando a noite cair e a lua cantar no céu uma cantiga de amor, passarei as horas desejando me perder na curva do teu pescoço, enrodilhado em tuas coxas. Quando o sol trouxer uma moleza ao dia, sonharei com um gramado em volta de um lago, ou uma rede numa varanda diante do mar e teus beijos a me refrescar.

Quando você vier, seja do sal do mar, da quintura do deserto, do minério da terra, do mistério da noite, vem pra ficar; pois quando você vier será o fim de duas esperas, de duas procuras, e o início de uma só jornada por um caminho pontilhado de beleza, por um vale repleto de amor.

Steller de Paula

8 de setembro de 2012

Que viver-te seja intenso

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 5:08

*Numa tentativa frustrada de organizar o porta luvas do meu carro, encontrei um papel com esse texto, escrito há muitos meses. Lembro que o guardei para terminá-lo depois. Não o fiz nem o farei. Vai como saiu.

“Se viver-te será curto, que viver-te seja intenso.” João Cabral de Melo Neto

Após as refeições, abro a torneira e deixo a água escorrer, enquanto ainda estou escovando os dentes. Me dou conta do desperdício e fecho a torneira, só para abri-la em seguida, por ter, enfim, terminado.

Sou ansioso. Falo rápido, penso muitas coisas ao mesmo tempo, tento antecipar o pensamento e, às vezes, me pego dizendo aos meus alunos coisas como “Pois semana passada a gente continua a matéria.”. A letra é feia, impaciente. Lenta, a mão não acompanha o pensamento.

Sou ansioso como a folha a espera da brisa, como a árvore a espera do Sol, como a terra a espera da chuva.

Diante disso, sempre lutei para não perder o momento, não antecipar o momento, para manter, reter, entre os dedos, sob as pálpebras, sobre a pele, alguns momentos.

E eu, professor que sou, aprendi com você a tecer lentamente o tapete da paciência, a fazer da compreensão um exercício diário e a não antecipar o fruto na semente.

Um ano, meu amor, um ano de você presente na minha vida, nos meus dias, nas minhas noites, nos meus pensamentos.

Sem você, sem seu sorriso, seu cheiro, seu beijo, seu corpo, seu carinho, sem seus medos, sem nossas limitações e problemas, sem o risco e o perigo, esse ano perderia muita, muita graça e beleza, perderia vida. Você é isso na minha vida, é graça, é beleza, é vida.

Primeiro eu te desejei, depois fui te conhecendo, te admirando, me viciando no teu cheiro, no teu beijo. As festas, sem você, foram ficando mais insossas, fui desejando cada vez mais sua companhia, para um cinema, para um jantar, um café, para ficar no carro conversando.  Hoje, a maioria dos planos que faço tem você, seus gostos, suas vontades, norteando-os, mesmo sendo tão difícil que você possa realizá-los comigo.

Primeiro eu te desejei, depois te conheci e aprendi a te admirar, então passei a te amar e a te desejar mais ainda.

Eu te amo; amo pela tua alegria, pela tua beleza, pelo jeito como danças. Eu te amo pelo modo como você sorri, riso solto, que tão fácil completa minha alegria. Te amo pela forma como você chora, de manso, leves lágrimas rolando dos teus olhos rumo à minha dor.

Eu te amo pelo jeito como me provocas, como me excitas, como acendes meu corpo tão facilmente.

Eu te amo pela tua doçura, pelo teu jeito de entender e perdoar.

Eu te amo apesar dos teus medos e das tuas contradições.

Em um ano te vivi. O que vivemos, vamos vivendo, é bonito, é intenso, é marcante.

Eu já te carrego comigo, já te levo no meu jeito de sorrir.

Esse ano perdurará.

Com amor,

Steller de Paula

O Olhar do Outro

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 1:15

Em Ensaio sobre a cegueira,  José Saramago cria um mundo de cegos e, então, o ser humano, privado do olhar vigilante do outro, revela sua essência, pois “só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são”.

Mas nós ansiamos pelo olhar dos outros, nós queremos ser vistos. E essa ânsia por reconhecimento, muitas vezes, acaba nos moldando. Essa ânsia pode fazer com que nos percamos diante de nós mesmos.

Num mundo hiperconectado, de comunidades virtuais, nós estamos sempre nos expondo, sempre desejando uma “curtida”, uma “retwitada”, sempre espelhando que o olhar do outro seja um espelho refletindo nossa beleza, ou nossa inteligência, ou nossa rebeldia… refletindo aquilo que é a imagem que queremos passar sobre nós mesmos. Porém, até que ponto essa imagem é uma fachada, um escudo, um esconderijo? Quantas vezes paramos e nos perguntamos quem somos de verdade, como estamos nos construindo?

Poucas pessoas que conheço valorizam a solidão, pois estar só é estar em um diálogo consigo e nem sempre a conversa é agradável, o que vem à tona é bom. Então o outro é um refúgio, e escapamos para bate-papos na esperança de que alguém nos salve de nós mesmos.

Saint Exupéry disse que “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”. Mas os olhos constroem; e vamos tentando nos fazer o que os outros querem que sejamos, vamos tentando nos moldar à imagem que olhos dos outros querem ver: pais, amigos, namorados, líderes religiosos, todos tentam nos moldar. E quando nos olhamos com nosso coração percebemos que essa imagem é distorcida: “não, eu não sou tão inteligente, tão seguro, tão crente… eu tenho medos, dúvidas, fraquezas…”.

Como consequência, fingimos, fingimos para pais, amigos, igrejas, para nós mesmos, porque é muito, muito difícil se impor ante o olhar dos outros. Seguimos, então, fazendo tipo, mentindo, sublimando desejos e sufocando a possibilidade de sermos um pouco mais sinceros, um pouco mais nós mesmos.

Que meu coração seja meu espelho, que o olhar do outro não me seja moldura, pois já é muito complicado ser eu, e não desejo ser uma imagem desbotada de mim, vacilante entre o que quero ser e o que os outros esperam que eu seja.

Steller de Paula

4 de setembro de 2012

Conhecer o medo

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 3:21

Há uns dois meses, talvez, tive o seguinte diálogo com uma amiga, que, sabendo do fim do meu relacionamento, perguntou:

– Como tá seu coração?

– Sinto uma saudade da porra dela. – respondi – Em alguns momentos mais que em outros. Mas sei que uma hora passa e vou tentando abstrair. Espero que passe logo, porque é chato pra caramba e incomoda. Às vezes é como um espinho entre a unha e carne, entende? Principalmente à noite. É assim.

– Imaginei que estivesse assim.

– Mas eu não quero fugir das lembranças. Elas me dão mais força pra deixar o que a gente viveu como um sonho… um intervalo de cor nessa vida que às vezes é tão descolorida… Só quero que a saudade eu não sinta como um nervo inflamado.

Hoje uma aluna minha leu uma frase que publiquei no blog – Sabe por que no domingo a vida costuma doer mais? Porque você o passou sem um amor, que um amor colore até um fim de domingo.” – e veio conversar comigo no facebook. Triste que estava, queria dividir comigo sua tristeza e confessar que desde que terminou seu namoro os domingos estavam, efetivamente, mais tristes.

Durante a conversa, ela falou do medo que tinha de que aquele vazio não passasse, de que todos os domingos porvir fossem tão descoloridos quanto os últimos. Falou do medo de não esquecer o ex, de não superá-lo, de não conseguir amar outra pessoa como o amou.

Sem saber, essa garota, uma menina ainda, repetiu uma fala tantas vezes falada na história do amor. Sem saber, ela sentia os mesmos medos que senti anos e anos atrás, quando meu primeiro namoro chegou ao fim.

A dor que vem com o fim do primeiro amor é sempre mais dorida, pois é desconhecida, amplificada pelo medo.

Também eu terminei um relacionamento há pouco, perdi um amor, disse a ela. E eu sei que o vazio diminui, que você aprende a conviver com a ausência e que, ainda não esqueça, deixa de doer. Sei que um dia aparece outra pessoa pra completar o vazio, que não era mais de uma pessoa específica, aquela que ficou na lembrança, mas vazio de amar, que a gente ama o amor.

Hoje a saudade não dói tanto, e as lembranças não me visitam com tanta constância. Muitas vezes só aparecem quando convidadas, por mim, a entrar. E eu, viciado que sou em sentir, vez ou outra as convido.

Porque a vida se impõe. E mesmo no começo do fim – e como é triste o começo do fim: lembrar a beleza, os sorrisos, os carinhos, todo aquele amor que tanto empolgou, tanto confortou, tanto pareceu que era eterno -, mesmo em meio do sofrimento, ao vazio, à solidão, eu sabia que tudo ia passar. Mesmo sofrendo ao lembrar a grandeza do que sentia, mesmo sabendo que ela era o que por muitos anos procurara, mesmo a lamentar a vinda de um futuro sem ela, o abandono de tantos planos e esperanças, eu sabia que a vida se impõe e que logo eu estaria criando outra rotina sem ela, estaria a trabalhar, a estudar, a conhecer pessoas, provar novos beijos, viver novos corpos e a distanciar-me dela cada vez mais, cada vez mais.

É um conhecimento que alenta e ao mesmo tempo entristece; que assusta, na mesma medida em que ajuda a suportar o peso da dor.

Por que é triste e assustador saber que aquela pessoa que até uns dias atrás era tão importante na minha vida, com quem eu dividia felicidades e tristezas, sorrisos e lágrimas, medos e esperanças, sonhos e projetos, uma pessoa cuja pele se misturava à minha pele, cujo sabor, cujo cheiro, cujo toque eram minhas sensações preferidas, que essa pessoa sobre quem eu sabia tanto, de quem eu conhecia a rotina, os horários, mergulhou no desconhecido, saiu da minha órbita.

Mas é um alento saber que é exatamente esse desconhecimento, esse afastamento, que me fará seguir.

Felizmente a vida ensina a lidar inclusive com a dor. E a gente se constrói com base nas experiências passadas. O medo é natural, mas nem o medo, nem o vazio, nem a saudade podem nos impedir de sorrir, de buscar o encanto, de reencontrar o amor numa esquina qualquer.
Steller de Paula

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