Escritos Esparsos

3 de outubro de 2012

Um risco por onde o amor passou

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 0:49

*Escrito há algum tempo, sob a influência de Eva Cassidy , vinho e de uma lua absurda.

“Agora eu penso que não pode haver amor
Sem retribuição, que a paga é certa
De uma forma ou de outra.
(Amei certa pessoa ardentemente
e meu amor não foi correspondido,
mas foi daí que tirei estes cantos.)”

walt whitman

 Ah, meu amor, que falta você me faz!

Amar-te era ver a alegria entrando pela janela e iluminando todos cômodos do meu ser, era ver minha vida renovada a cada dia.

Já não acordo abraçado pelo sol que era a certeza de te ter, de te ver, de te amar. Antes, todas as horas do meu dia corriam ao teu encontro. Hoje elas escorrem lentas, espessas, rumo a uma espera que nunca termina, a uma ligação que nunca é feita, a um encontro que nunca se faz.

Não, a vida não para. A vida se impõe. Muita coisa já vivi nesse tempo sem ti: viajei, conheci lugares novos, revisitei lugares antigos, li livros incríveis, conheci pessoas interessantes. Mas se você não está comigo é como se as coisas não se realizassem por completo, porque não posso dividi-las contigo.

Que falta eu sinto da tua boca, amor meu. Flores de mil cores rendilham teus lábios. No teu sorriso cabem todos os sonhos do mundo. Teu beijo me fazia sentir sabores desconhecidos, sensações indescritíveis, arrepios no céu da boca. Era mais que um beijo, era algo etéreo; era a paixão se fazendo toque, o amor se fazendo carne, lábios, saliva.

Hoje não tenho mais o teu gosto, o teu cheiro, o teu calor. E eu fico esperando que alguém me restitua a mim, me traga de volta meu sorriso mais sincero, me devolva aquele brilho no olhar que me vinha de te olhar. Mas é uma expectativa injusta, injusta comigo, injusta com as outras mulheres; pois nenhuma mulher, hoje, tem o poder da tua imensa fragilidade, que me fazia querer ser teu, teu apoio, teu escape, teu escudo, que me fazia querer ser a leveza no teu dia, a novidade na tua rotina, o descanso nas tuas fadigas.

E a quem recorrer quando o vazio tomar conta, quando a tristeza golpear, quando a dor for grande demais para se sentir sozinho, se era para os teus braços que eu corria quando a vida me pisava, se era na canção do teu sorriso que eu embalava meu sono, se era – minha cabeça no teu seio – o som do teu coração pulsando que acalentava minhas angústias?

Sem ti, amor, sinto uma falta absurda de mim mesmo, pois de todos os homens que sou aquele de quem mais gosto é daquele que era quando estava contigo.

Eu sei que ficou um pouco de mim em você. No entanto, a verdade é que o nós é passado, é que agora só existe o eu e o você, é que a cada dia nos distanciamos mais. A verdade é que minha ausência vai se tornando cotidiana na tua vida e que um dia a lembrança do que vivemos, ainda que não se apague, será apenas um risco por onde o amor passou.

Mas, hoje, ficou um pouco de você em tudo que eu vejo. E a falta que você me faz é incomunicável, pois é só minha.

Steller de Paula

“É falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?”

Carlos Drummond de Andrade

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2 de outubro de 2012

Pessoa Encantada

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 3:51

Guimarães Rosa disse: “O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Mas como lidar com o fato de que o que nos mantém vivos não passa de um fiapo prestes a se romper a qualquer momento? Que nós saímos diariamente de casa, estudamos, trabalhamos, namoramos, vivemos tão imersos em nós mesmos, sem poder prever qual o movimento que romperá este fiapo, sem saber o que nos aguarda na próxima curva, na próxima esquina?

Vivemos “todos voltados para a vida Absortos na vida Confiantes na vida” e a morte que nos aparece pelos jornais é fria e distante. É só quando ocorre perto de nós, quando nos atinge, levando uma pessoa amada e a ferida é em nós que é aberta, que toda a fragilidade da vida pesa sobre nós como pesam a solidão e o vazio.

E quando perdemos alguém próximos a nós, alguém tão jovem, tão alegre, tão querida por tantos, começando a descobrir a vida, a beleza da vida, só conseguimos pensar em como a vida é frágil, como pode ser injusta. E o que nos atinge é uma sensação de absurdo.

Não conhecia a menina Tânia intimamente, mas me lembro claramente da sua presença em sala, perguntando, participando, lembro-me de seus sorrisos e suas conversas com os amigos pelos corredores da escola. Não era intimo da Tânia, mas conheço e quero muito bem a pessoas que a conheciam e que a queriam muito. Sinto-me invadido de tristeza por ver uma luz como a dela se apagar tão cedo, deixando tanta saudade. Imagino a dor que os amigos delas estão sentindo. Não sou capaz de imaginar o que estão sentindo os pais delas, mas sei que pai nenhum devia passar por isso. Penso em meus irmãos, meus primos, meus amigos e espero ter a sorte de vivê-los por muito tempo ainda.

Eu não rezo, mas peço para que todos tenham bons pensamentos por ela, mas sobretudo pelos que amavam e que agora vão ter que aprender a viver sem ela, peço que rezem, que orem, que inundem a família dela, os pais dela, de carinho, de força, de amizade, para que eles possas lidar com esse vazio tão grande, tão grande que vai ficar e que nunca nada nem ninguém vai preencher.

E que todos que conviveram com a Tânia e a amaram a guardem na lembrança, num sorriso, num lugar cheio de luz e carinho dentro do peito. Pois como disse Vinícius: “o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.”.

Steller

1 de outubro de 2012

Entre Escombros

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 0:04

*Diante de seguidas dúvidas e perguntas, vou esclarecer: sim, minhas crônicas são bem pessoais, até como é um tanto do gênero. Mas esse texto aqui é um conto, por tanto ficção. Só optei por não nomear os personagens.

De que me adianta a noção de que não me deixo enganar, se o que mais queria era estar sendo enganado? Se, mesmo ciente, me deixo usar, permito que tu me uses, abuses e desfaças de mim. É a consciência que repugna que humilha que fere, é ser consciente e não alcançar ser livre e estar sempre e sempre permitindo que me enredes nessa trama imunda, trama que faz com que eu me sinta sujo e fraco, fraco e covarde. E quanto mais sujo, mais fraco, mais covarde, mais te espero e te espero porque no fundo eu espero que um dia tu me enxergues de um modo diferente do que eu me enxergo, do que fazes com que eu me enxergue, eu te espero porque em algum lugar escondido, escondido porque me envergonha essa esperança, eu espero que me enxergues desse modo que eu não consigo e que me banhe com tuas lágrimas com teu suor com tua saliva, que me livre de toda a sujeira com que tu mesma me fizeste cobrir. Mas não você vem; você desaparece por dias e semanas e só me fica a nódoa na alma e a consciência a arder e a queimar e meu corpo autômato a andar daqui pra lá, a trabalhar, a dormir, a sair pra dançar, a sujar outros corpos com a sujeira que me fizeste cultivar, como quem cuida de um pequeno cacto em um apartamento mal iluminado, e a esperar, esperar até que o tédio ou quem sabe a fome de algo que não consigo definir tome conta de ti para que surjas como se não tivesses se ausentado, como se estar ali me usando para iludir teu tédio ou saciar tua fome fosse como pegar o mesmo ônibus diariamente. Então sem avisar você vem e me olha sem me olhar, sem perceber sequer qual a cor dos meus olhos, silenciosamente exige minha presença minha companhia meu carinho meu desejo, meu corpo te deseja, te quer, te segue cegamente, a consciência gritando, enxergando eu me enredar novamente na mesma trama que só me deixa sujo, só me deixa fraco, mas da qual não consigo me livrar, a consciência gritando, pedindo socorro, desejando ser tão cega quanto o corpo, quanto o desejo, quanto a paixão, quanto o que quer que seja que me faz assim tão submisso que isso não pode ser amor, não pode ser amor, só pode ser doença. Tu te aproveitas, te aproveitas da confusão e quando percebo estamos num quarto qualquer onde tu sem me olhar diretamente nos olhos me enfeitiças, quando tu dizes “me come” eu já não me pertenço, tu me dominas, e é com violência que eu possuído arranco tuas roupas e te possuo enquanto tuas unhas tiram sangue das minhas costas, meu ventre contra teu ventre, tua boca que morde meu ombro, eu ainda me movendo dentro de ti afasto meu tronco do teu, teu rosto vermelho, afogueado, os cabelos negros espalhados no lençol branco, minha mão no teu seio, meu olhar procura o teu e por um segundo não consegues fugir, meus olhos encontram os teus e naquele momento, naquele momento em que não consegues desviar teus olhos dos meus, eu sei, tu sabes, eu sei que tu sabes e algo novamente se parte dentro de mim, a raiva me invade, eu aumento o ritmo enquanto o cinismo e a satisfação brilham agora nos teus olhos misturando-se ao desejo, o som dos teus gritos ecoando fundo no meu desespero, eu gozo, você goza, juntos gozamos e enquanto você se abandona, o peito arfando, as pernas tremendo, o olhar perdido, o vazio vai ocupando o espaço deixado pelo desejo que imediatamente definha enquanto meu gozo se mistura ao teu gozo. Sento-me na borda da cama e fico olhando o assoalho gasto, engasgado, sem conseguir juntar os fragmentos de tudo o que sinto e formar um pensamento coerente, sem conseguir pronunciar uma frase, uma palavra, um som sequer, simplesmente arfando em silêncio, silêncio que não te pesa, tão abandonada ao próprio corpo, aos próprios pensamentos estás. Nem meu silêncio grita aos teus ouvidos. Tu levantas, vais ao banheiro e de lá voltas limpa e recomposta. Assim como vieste, tu vais. Eu fico ainda sentindo tuas unhas nas minhas costas, teus dentes no meu ombro, teus gritos no meu desespero. Meu corpo marcado, meu orgulho marcado, minha consciência suja, lúcida, enxergando todas as marcas e nódoas.

Steller de Paula

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