Escritos Esparsos

30 de dezembro de 2012

Entre Ser e Estar

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 16:14

christophe gilbert

Na cidade de Irkutsk, na Sibéria, que fica às margens do Lago Baikal – o maior de água doce da Ásia,  há um antigo ritual: a pessoa entra numa sauna e depois mergulha no lago, que tem temperatura perto do zero grau.

Terminar um namoro é meio assim. É sair do vapor e da quintura do amor, do conforto de um relacionamento, da segurança da rotina construída a dois, para um mergulho na solidão, na saudade, na ausência. Seu sorriso já não é mais seu, é do vazio que ela deixou.

Hoje, meses depois do meu último mergulho, só lembro o choque térmico, não o sinto mais.

Sempre que saí de um namoro, passei um bom tempo levando a ex comigo, levando-a na dor, depois naquela saudade dolorosa, depois na nostalgia de sentir falta de um tempo bom que se sabe: não vai voltar. Mário Quintana tem uns belos versinhos sobre isso:

“Eu, agora – que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?”

Acho importante passar por essas etapas todas. Refletir sobre o relacionamento que terminou, avaliar meus erros, meus defeitos; procurar entendê-los para evitar repeti-los, melhorar. Não caio no erro de colocar toda a culpa na ex, de me fazer de vítima. Se havia amor e terminou, ambos têm alguma culpa, ambos falharam, ambos são vítimas. O fim do amor nunca deixa apenas um ferido.

Assim sendo, não consigo me envolver seriamente com alguém logo depois do fim. Nem acho saudável. Não consigo, como alguns, engatar um namoro no outro. Preciso desse tempo para mim, para me pensar, para curtir minhas dores, para curá-las e ser capaz de me doar plenamente de novo.

Mas isso não quer dizer que eu não vá me envolver com ninguém. Beijar na boca é bom, carinho é bom, ter desejo é bom; e as mulheres são as melhores companhias.  Como não ser carinhoso, atencioso, delicado quando se está com uma mulher? A mulher é um ser para mimar.

E quem sabe quando o amor vai voltar a nos visitar? Como saber de antemão em que sorriso ele se esconde?

Diante disso, há um perigo que sempre temo: magoar alguém por quem tenho imenso carinho, não saber reconhecer que as expectativas de alguma garota, ao se envolver comigo, são diferentes das minhas. Carinho, amizade, atenção, gentileza, desejo… não é pouco a oferecer. Mas quando uma mulher espera amor, isso tudo pode parecer ilusão.

Qualquer amizade é mais valiosa que a satisfação de um desejo. Por isso luto para não mentir, para fazer da sinceridade uma companhia constante, luto para não ser cafajeste.  No máximo um canalha.

Segundo Carpinejar, que parece entender bem do assunto, há diferenças fundamentais entre o canalha e o cafajeste. O canalha faz bem às mulheres, as faz se sentirem vivas, gostosas, desejadas, melhora a autoestima delas. São, para ele, as características de um canalha:

– Deixa claro, desde o começo, que não presta;
– Liga no dia seguinte para diminuir a tensão da espera;
– Mas não liga mais vezes para manter o mistério e o suspense do reencontro;
– Não conta suas transas aos amigos; apenas sugere;
– Sabe usar todos os recursos linguísticos para a conquista: poesia, conversa de botequim;

– Solta um palavrão sem deixar de ser refinado; sabe ser cafona;

– Seduz a mulher sendo atencioso, sensível, romântico; faz com que a mulher se apaixone por si mesma;

– Ele nunca termina um relacionamento. Canalha não é ex, é amante.

Toda mulher, em algum momento da vida, precisa de um canalha perto de si. Se você é mulher e acabou de sair de um relacionamento, cujo fim foi doloroso e desgastante, um canalha pode ser muito saudável, pode ajudar a trazê-la à vida após o período de luto.

E o homem, quando não é cafajeste, não É canalha: ESTÁ canalha. A mulher certa, de repente, faz o canalha deixar de ser.

Steller de Paula

6 de dezembro de 2012

Cada Lugar um Sentimento Meu

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 4:57

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Li em algum lugar que a casa da gente é onde está quem a gente ama. Não sou muito viajado, bem menos do que gostaria: Natal, Recife, São Paulo, Campinas, Campos do Jordão, Rio de Janeiro, algumas cidades do Chile… basicamente, são os lugares por onde passei. Mas sempre voltar para Fortaleza foi natural para mim, foi sem sofrimento, foi agradável.

Minha fortaleza de sol, de mar, de brisa e calor. Fortaleza de gente alegre e receptiva, bem-humorada e mal educada. Fortaleza repleta de belezas naturais e carente de espaços públicos de lazer, poucas praças, poucos parques.

Fortaleza é minha casa. É para lá que sempre quero voltar quando viajo. É lá que estão as pessoas que amo, minha família, meus amigos, meus alunos, meus fantasmas.

Lá em casa nunca vou estar sozinho, nunca me sentirei estrangeiro. Estarei sempre a uma ligação de um abraço, de uma boa conversa, de um café ou uma cerveja. Estarei sempre a um encontro casual com um ex-aluno, alguém que foi um dia uma das minhas crianças e que cresceu, mostrando-me o quanto o tempo passou para mim e, consequentemente, como já vivi muita coisa.

Fortaleza é meu reino da memória, e muitos lugares falam comigo ao andar por suas ruas. Andar por Fortaleza é estar sempre passeando pelos becos de minhas lembranças, revisitando pessoas e sentimentos.

Fortaleza é o Jóquei e meu primeiro amor. É voltar à loucura da Bia, sua espontaneidade, sua intensidade, sua comunhão a mim no gosto pela aventura.

É passar pela Dom Luís, ver a carrocinha de cachorro quente e estar ali novamente com a Carol, com sua vontade de sorver a vida de um gole só, sua pressa em viver tudo de uma vez só, sua beleza branca de luz irradiando energia, encantando, envolvendo. É lembrar seus bilhetinhos deixados entre as páginas dos meus livros, pequenas doses de carinho surpreendidas em meio ao trabalho.

Fortaleza é cruzar a perimetral para ir visitar minhas tias e ter como companhia a Raissa, seu corpo pequeno, sua beleza encantadora, seu carinho feito de distâncias e silêncios, mas de uma paixão que umedecia minha pele.

Fortaleza é correr pelo cocó carregando a lembrança do sorriso tão doce da Lari, sua paixão contida, represada, seu coração que será sempre de uma meiga menina. É correr por entre o verde das árvores e o castanho dos olhos dela. É lembrar que quando a gente beijava era imensamente nós.

Fortaleza é caminhar pela beira-mar minha companheira de solidão, dos meus momentos de tristeza, momentos de fuga, o mar extenso, o céu infinito, o coração pequenino, chorando dentro do peito.

Fortaleza é a cidade 2000 de eu criança, da primeira surra do pai, da primeira briga na rua, do primeiro grande amigo. É o conjunto dos bancários da adolescência, de jogar futebol até de madrugada, do convívio constante com os primos, de bater em ladrão, de aprender que a droga está sempre à mão, mas que é muito fácil evitá-la. São meus irmãos mais novos, cujo nascimento me ensinou o medo, medo de perdê-los.

Fortaleza é minha infância, é minha família, é meu trabalho, são as mulheres que amei.

Fortaleza é sentimento meu.

Mas sendo honesto, como esse Rio de Janeiro que se estende agora à minha frente enquanto escrevo conhece meu nome e chama por mim…

Steller de Paula

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