Escritos Esparsos

24 de abril de 2013

Mulheres que não se deixam esquecer

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 17:42
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Chagall 01

Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.”

Pablo Neruda

Era para haver uma data no calendário, um dia especial, para que nós homens pudéssemos beber à lembrança das mulheres que nos esqueceram e as quais nós, nunca, as podemos esquecer.

Gabriel Gárcia Márquez, com a sabedoria de quem muito viveu, diz que “A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como recorda para contá-la”.

Pois um longo fio da minha memória segue o caminho que tracei através de mulheres que viveram em meus pensamentos, me encantando, me assombrando, me sufocando com seus beijos ou com a falta deles, com suas vozes ou com seus silêncios, com suas presenças ou com suas ausências.

Estando esse dia oficializado, eu beberia à lembrança da Mel, a primeira mulher cuja beleza queimou meus olhos e me fez querer ser melhor para estar à sua altura. Fazíamos a alfabetização, no saudoso Instituto Infantil Tia Neuma. Loirinha, cabelos muito cacheados, inteligente, me fez estudar para ser o primeiro da turma, empatado com ela. Naquele tempo eu ainda não sabia, mas foi o primeiro caso a comprovar o quão grande incentivo é a necessidade de impressionar uma garota. (Já a procurei no facebook e não encontrei)

Beberia à lembrança das gêmeas que estudaram comigo no ensino fundamental do colégio Erotides Melo Lima, duas garotas desinibidas e voluptuosas (naquele tempo não conhecia esse sinônimo elegante para “gostosa”), que povoaram meus desejos adolescentes.

Beberia à Jennifer, minha colega de ensino médio no Geo, pele branca, cabelo preto e olhos que era vê-los e meu dia se tingia de azul. Um azul que me intimidava mais que tudo, e foi outro platonismo.

Platonismo e timidez no fundamental, no ensino médio e, como não podia deixar de ser, na faculdade: beberia à Mariana, amiga que tantas vezes ouvi querendo beijar, que consolei querendo curar com meus carinhos.

Ah, como eu beberia à lembrança da Bia, minha primeira namorada, meu primeiro amor, por quem emagreci cinco kg em três dias, depois de a ter perdido por conta do carinho e do desejo sem tamanho por outra mulher que não esqueço.

Beberia à Carol, mas nesse dia especial, beberia sozinho e não na companhia dela como recentemente tenho feito.  Beberia a ela que me ensinou novamente a amar e a perder, que me fez aprender que o amanhã é quase tão importante quanto o hoje, embora ela às vezes se esqueça de que o hoje é mais importante que o amanhã, pois a vida é o agora. Beberia a ela que fez amá-la a distancia por seis meses, convivendo cotidianamente com a saudade e com a insegurança. Só a lembrança da sua presença, da vida que ela irradiava me fez persistir. Beberia a suas cobranças que tanto me exasperavam, mas que tanto me melhoravam Beberia à sua carência, á seu carinho, à sua fragilidade, à sua precisão de mim naquele momento .  Beberia a ela que, como diz Vinícius, quando nos separamos, não foi: partiu.

Beberia à Raissa, japinha linda, tão guardada no meu carinho, que ajudou a curar meu coração ferido, que só falava comigo sem o auxílio das palavras e que por conta desse muro de silêncio eu não aprendi a amar.

Beberia a uma menina-poeta, a quem chamei de tentação, a quem feri sem saber numa confusão de amores entrecortados e cujos olhos inda hoje me lembram doçura e desejo, inocência e malícia.

Beberia à Lari, cujos beijos faziam exuberâncias em mim, cujo abraço era uma “dulcíssima prisão”. Beberia a ela, que me ensinou o mais amplo sentido das palavras paciência e compreensão. Lari, por quem tanto lutei, mas a quem perdi; pois o medo às vezes tem mais força que o cuidado, o carinho, o amor. Beberia à sua lembrança, que no meio de tudo, apesar de tudo e por tudo, ainda me desperta uma vontade de sorrir e ainda me enche de poesia.

Neste dia, eu beberia às mulheres que tive e às que não tive. Àquelas que povoaram minhas fantasias, meus sonhos e minha realidade e, hoje, ainda povoam minha memória. Beberia pelo que me deram e pelo que me tiraram. Beberia às mulheres que amei e às que não pude amar. Nós homens, mais que elas, merecemos esse dia. Um dia para lembrar e homenagear, agradecer e pedir desculpas, reconhecer os erros e os acertos. Pois, no fim do dia, a gente percebe que tudo é por elas.

Steller de Paula

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