Escritos Esparsos

6 de maio de 2013

O Eterno Retorno

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 3:56
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Alexander Jansson 01

Recentemente, meus dias têm sido de paz. Tirando um ou outro susto aqui e ali, uma ou outra grata surpresa aqui e ali, ando mergulhado numa rotina tranquila: trabalho, faculdade, leituras, estudos… uma vida morna. Mas a verdade é que a rotina inquieta. E a gente fica esperando que algo aconteça, que algo surpreenda, que algo deslumbre, que algo chacoalhe os dias, bagunce as horas do dia.

Enquanto isso não acontece, frequentemente me pego a olhar para trás, a dar mergulhos no passado como que tentando buscar algum frescor, alguma inspiração. Meus últimos textos foram colhidos aí, detrás do muro da rotina presente.

No livro A gaia ciência, Nietzsche reflete e nos faz refletir sobre a existência que levamos e que queremos levar ao propor a ideia do eterno retorno:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência- e do mesmo modo essa aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!” Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!””

Ficou a pergunta pairando, exigindo uma resposta: seria um demônio o portador de tal notícia, ou seria um anjo?

Lembrei minha infância na cidade 2000, os jogos de bila, as corridas de bicicleta, os cuidados do seu Jósa e da dona Toinha, vizinhos que cuidavam de mim enquanto meus pais trabalhavam. Lembrei os mimos e os castigos dados e impostos pela Kaká e por minha vó, duas mães que a vida me deu de brinde, já não bastasse a minha que sempre foi A mãe.  Lembrei os primeiros amigos, hoje já distantes, tragados pela areia movediça do tempo e da distância. Lembrei as primeiras brigas na rua, no colégio, os jogos de bafo, com figurinhas de automóveis e de jogadores de futebol. Lembrei a primeira surra que tomei do meu pai, aos três anos, por ter repetido um palavrão ouvido não sei onde, lembrei seus ensinamentos, sua moral, seus exemplos.

Lembrei a separação dos meus pais, que não fez mal, a meu irmão e a mim, pelo contrário, trouxe paz para dentro de casa. Lembrei meu gosto de brincar com fogo, que resultou numa bomba fracassada, o rosto todo queimado, a vergonha de ir para a escola com o cabelo queimado, a sobrancelha queimada…

Lembrei as noites dormidas na fazenda em Horizonte, os banhos de açude, os passeios a cavalo, o mais belo animal que a natureza já criou, depois da mulher, que é a mais bela criatura de toda a criação universal.

Lembrei as viagens para Morro Branco, para Caponga, lembrei os carnavais da vida, sempre com os primos e os amigos, as bagunças, os jogos de futebol, as paqueras, as confusões, as peças pregadas uns aos outros.

Lembrei, lembrei, lembrei…

Lembrei escolhas certas e erradas, momentos bons e momentos ruins, quedas, rasteiras, aprendizados. Lembrei pessoas a quem ajudei, pessoas a quem magoei. Lembrei aproximações e afastamentos. Lembrei os desentendimentos com meu irmão, com meu pai, as pazes feitas e novamente desfeitas, pois tanto quanto nos parecemos, nos diferenciamos.

Lembrei as decepções causadas a minha mãe, os conselhos não ouvidos.

Lembrei os colegas de profissão, os amigos de faculdade, as mulheres que amei.

E, lembrando, percebi que, sim, eu viveria esta vida novamente, do mesmo jeitinho, se não houvesse como fazê-la melhor.

Claro, havendo chance, muita coisa eu faria diferente, eu tentaria consertar. Claro que me arrependo. Mas, diante da ideia do eterno retorno proposta por Nietzsche, eu me orgulho da vida que tive, me orgulho das relações que construí, me orgulho de tudo o que aprendi, me orgulho da pessoa que me tornei. Eu tive do bom e do ruim, eu ganhei e eu perdi, eu amei e fui amado, sofri e fiz sofrer, mas o saldo até aqui foi sempre positivo, tudo valeu a pena.

Mas eu penso que, mais do que nos fazer refletir sobre o passado, o que Nietzsche queria com essa ideia era no fazer pensar no futuro. Que vida você levaria, sabendo que essa vida seria repetida e repetida e repetida, existência após existência? Quem você quer ser, que caminhos quer seguir, que laços quer criar, quem quer manter perto de si?

Mais do que nos fazer olhar para trás, Nietzsche nos força a olhar para o agora, pois é agora que construímos o amanhã. E, no fim de tudo, o que nos restará são lembranças, lembranças que nós precisamos construir hoje. Uma vida que será repetida na memória, dias após dia, quando não tivermos mais forças para vivê-la.

É preciso que façamos que os dias valham a pena, que a vida valha a pena, que nossas lembranças nos encham de nostalgia e de orgulho por uma vida, apesar de tudo e por tudo, bem vivida e digna de ser lembrada.

Steller de Paula

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