Escritos Esparsos

9 de junho de 2013

Falta gentileza, falta solidariedade; sobra egoísmo e revolta.

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 23:40

Moro numa cidade em que frequentemente escuto as pessoas se queixarem da falta de educação de nosso povo, em que é comum ouvir alguém dizer, após voltar de uma viagem ao exterior, que sente falta da educação do povo, com o outro, com sua cidade.

Mas olho para o lado e não vejo na maioria delas uma pratica cotidiana de cordialidade com o outro. E não estou falando de pessoa com baixa escolaridade, que têm que se preocupar com o que por à mesa para dar de comer aos filhos. Falo de pessoas cultas, com boa condição de vida, que aproveitam o que o mundo do consumo tem a oferecer, como viagens ao exterior.

Comportamentos simples como dar “bom dia”, pedir “por favor”, agradecer por um serviço que lhe foi prestado. Segurar a porta para alguém passar, ajudar a carregar pacotes ou embrulhos até o carro de alguém, ceder o lugar aos idosos, respeitar a fila, jogar o papel no lixo… Você, quando vai ao shopping, ao hospital particular, ao restaurante caro, ao barzinho, vê essas ações com frequência? Eu vejo muito menos do que gostaria.

Fazer isso não é ser, simplesmente, educado: é ser cortês. Mais do que educação sinto falta de gentileza entre as pessoas. Ser gentil com os parentes, com os amigos, com aqueles que nos prestam um serviço, com pessoas desconhecidas com quem cruzamos na rua.

Ser gentil não é gostar de todo mundo, não é rir para todo mundo. Ser gentil não é ser extrovertido. Nem todos são assim, e todos têm lá os seus dias ruins. Ser gentil é saber tirar o olho do próprio umbigo, é tratar bem as pessoas, é saber conviver e tornar os espaços em que convivemos mais harmônicos.

Gentileza tem a ver com educação; educação tem a ver com solidariedade; solidariedade tem a ver com gentileza. E a falta de tudo isso tem a ver com egoísmo.

José Saramago disse em um dos seus livros que “ainda está para nascer o primeiro homem desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, muito mais dura que a primeira, que a tudo sangra”.

Não deixo de concordar. Não é fácil lutar contra meu egoísmo, contra minha preguiça. Não é fácil sair da minha zona de conforto, abrir mão do meu tempo de lazer e de descanso para procurar me preocupar com os problemas dos outros. Não é fácil, eu sei. Eu luto e nem sempre venço.

Mas muitos dos problemas dos outros são meus.

Fortaleza hoje organiza a marcha “Fortaleza Apavorada”. Vejo as pessoas revoltadas com a insegurança, postando mensagens de apoio no facebook, curtindo as fotos e colocando a culpa no Governo e tentando se organizar para cobrar medidas contra a violência.

Sentimentalismo Burguês

É fácil colocar a culpa no Governo.

Mas violência tem a ver com desigualdade social, e desigualdade social tem a ver com educação pública de qualidade.

Muitos que hoje clamam por segurança e organizam a passeata contra a violência são críticos mordazes dos programas de distribuição de renda do Governo. E quantos dão apoio aos professores das escolas públicas quando eles fazem greve lutando por melhores condições? E quantos já fizeram algum tipo de trabalho voluntário ou social?

É fácil criticar o Governo e ficar esperando que alguém resolva os problemas que afetam a todos. É fácil compartilhar fotos de esfomeados na África e posar de revoltado. É fácil ligar ara o “Criança Esperança” uma vez por ano doando R$ 30,00 ou contribuir com o dízimo na Igreja e achar que fez sua parte.

Difícil, como eu disse, é sair da nossa zona de conforto, é ser menos egoísta, mais solidário, mais gentil.  É ser mais político, pois ser político não é apenas votar, esquecer em quem votou, e ficar clamando contra o Governo esperando que ele resolva todos os problemas.

O filósofo Alexis de Tocqueville, em seu livro sobre a Democracia americana, previu, em 1835, um mundo assim:

“vejo uma multidão inumerável de homens semelhantes e iguais, que sem descanso se voltam sobre si mesmos, à procura de pequenos e vulgares prazeres, com os quais enchem a alma. Cada um deles, afastado dos demais, é como que estranho ao destino de todos os outros: seus filhos e seus amigos particulares para ele constituem toda a espécie humana; quanto ao restante dos seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-os e não os sente; existe apenas em si e para si mesmo, e, se ainda lhe resta uma família, pode-se ao menos dizer que não mais têm pátria.”

 

Você também percebeu alguma semelhança com esse nosso mundo?

E você já se perguntou o que pode, realmente, fazer, além de clamar contra o Governo?

Estou me perguntando agora…

Steller de Paula

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