Escritos Esparsos

12 de dezembro de 2013

Homem aos 30

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 4:47
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Nelson Rodrigues dizia que “Aos 18 anos, o homem não sabe nem como se diz bom dia a uma mulher. O homem devia nascer com 30 anos.”.

Hoje, lembrando meus 20 anos, lembrando minha primeira namorada, sou forçado a concordar. Não que um garoto nessa faixa etária não seja capaz de marcar positivamente a vida de uma mulher, de fazê-la crescer com a convivência, de ajudá-la no seu crescimento, de amá-la bem, enfim.

Mas quando comparo o homem que sou ao que fui aos 20, percebo a sabedoria das palavras de Nelson.

Nós homens somos seres limitados, limitados por um extremo egoísmo que vem do simples fato de ser homem. Os homens demoram a amadurecer numa série de coisas, muitas vezes amadurecem profissionalmente mas continuam infantis emocionalmente e, mesmo maduros, guardam comportamentos infantis (basta observar um grupo de homens jogando futebol ou numa mesa de bar para confirmar isso).

Não é de todo ruim essa nossa característica; ela nos alivia um pouco das responsabilidades, das cobranças, das pressões que a sociedade nos impõe e a que nós mesmos nos impomos.

Quando pensamos, porém, nas consequências dessa imaturidade típica dos 20 anos na construção de um relacionamento com uma mulher, a coisa muda de figura.

Eu sempre digo em sala de aula para as minhas alunas: “adestrem o namorado de vocês!”. O ‘adestrem’ faz parte da brincadeira, mas a ideia é por aí mesmo! Nós homens, nessa fase da vida, estamos despreparados para ser o Homem que uma mulher merece. Então, é preciso que elas, com toda a delicadeza que a natureza lhes deu, nos oriente.

Eu tive sorte. Apesar de sempre ter sido um tanto mais maduro que o normal na adolescência, apesar de minhas leituras terem me dado uma visão um pouco mais aguçada sobre esse universo misterioso que é a mulher, apesar de procurar sempre aprender com meus erros, aos 22 anos eu ainda era uma massa disforme de menino com ares de homem. Mas tive sorte de encontrar uma garota que, apesar de menina, tinha uma visão bem clara da mulher que queria ser e do que um homem tinha que ter para conquistá-la.

Tive sorte de encontrar uma garota que soube me mostrar que essa história de feminismo é, em grande parte, besteira. Que mulher quer e precisa, sim, ser bem tratada, ser mimada, ser louvada; que gentileza não é favor, é obrigação. Como diria novamente Nelson Rodrigues: “As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado.”.

Foi para aprender a deslizar, sem ferir, entre a menina que ela era e a mulher que ela queria ser, que ela viria a ser, que eu fui aprendendo a enxergá-la melhor, aprendendo a traduzir tanto seus momentos de fúria quanto seus silêncios; fui aprendendo a antecipar seus quereres; fui aprendendo a intuir a hora de incentivá-la, de provocá-la, de empurrá-la para frente, apoiá-la nos seus projetos, e a hora de protegê-la, de niná-la, de consolá-la.

Tive sorte de encontrar uma menina que me fez querer ser Homem para tê-la: para extrair o melhor dela, precisei extrair o melhor de mim. Aprendemos os dois, crescemos os dois.

Hoje ela é a mulher que aquela menina queria ser, está cada vez mais melhorando crescendo. É com uma imensa alegria que eu vejo, de longe, sua felicidade, que vibro com suas realizações.

Ela me ajudou muito a me tornar o homem que sou. E, como eu já disse outra vez, cada mulher que passou por mim me ajudou a me tornar um homem melhor para a que veio a seguir, cada uma me ensina algo, me mostra que preciso melhorar em algo.

Poucas mulheres sabem o poder que tem, mas esse poder é capaz de transformar.  Por isso eu digo sempre às minhas alunas que mostrem aos homens com quem se relacionam o que querem, o que precisam, o que merecem.  Usem suas armas, suas artimanhas, façam-nos querer ser melhores para tê-las, para merecê-las.

Se hoje sou um homem melhor, foi graças às mulheres que me amaram. Espero ter retribuído à altura tudo o que elas me deram, espero ter deixado de mim nelas tanto quanto elas deixaram em mim.

Steller de Paula

8 de dezembro de 2013

Amizades à deriva

Filed under: Crônica,Não categorizado — stellerdepaula @ 17:35
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The storyteller

No livro a máquina de fazer espanhóis, de Walter hugo mãe, um olhar profundo e lírico sobre a velhice, o senhor Silva perde a esposa Laura depois de meio século de casados e é colocado pela filha num lar para a terceira idade. Lá, convive com a dor pela perda da mulher que amou, com a raiva pelo tratamento que lhe deram os filhos e com a constatação de que foi posto lá para esperar a morte ir buscá-lo, vendo seu corpo e sua mente desmoronarem lentamente sem que ele nada possa fazer.
Mas, lá, o senhor Silva conhece outros idosos, com histórias diferentes da dele, mas, no fim, unidos num mesmo resto de destino. E no meio da raiva e da dor, o senhor Silva, que sempre vivera em função da família, para a família, fechado no circulo estreito da família, descobre a amizade:

“nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. não era nada esperada aquela constatação de que família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas…”

E, com essa “terrível prenda”, ganha mais um lote de dores, pois precisa assistir à morte de alguns dessa sua nova família, antes que venha a sua.

“precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia.”

É um belo livro, um livro triste, que nos mostra verdades ácidas sobre o ser humano, a vida, a velhice, a morte.
Um livro que li em parcelas, pois cada capítulo exige do leitor uma longa parada, um mergulho em si mesmo.
Sentado na Saraiva, interrompo a leitura e reflito novamente sobre a amizade. Fecho o livro, olho um pouco para trás, para meu passado recente, e recordo algumas pessoas com as quais o convívio me dava grande prazer, dava mais graça às horas do dia. Hoje não mais.

E, quando me questiono sobe o que teria acontecido para que tenhamos nos afastado, percebo que o afastamento não veio por uma ação de um ou de outro. Veio por omissão, veio por inércia. Uma “falta de tempo aqui”, uma “preguiça” ali, um esquecimento pontual, mais outro… e a distância se alargou ao ponto de a voz não ser mais ouvida. O silêncio se instalou.

A vida corre, nos leva aos repuxões, às vezes nos atropela. É preciso que tenhamos atenção para que ela não nos afaste daquilo que vale a pena preservar. É preciso zelo, cuidado com os carinhos que nos cercam. É preciso fazer com que os carinhos, os cuidados, as amizades que recebemos voltem em boa medida a quem nos devotou carinho, cuidado, amizade.

Por que essa incapacidade de conservarmos todos os carinhos? Essa incapacidade de guardar com a gente todos os afetos que nos fizeram bem? Por que precisamos nos afastar de uns para que outros surjam? Não cabe tudo num só coração?
Num determinado momento, o senhor Silva diz: “histórias bonitas aconteciam por acaso, e eu acabara de aprender que a vida tem de ser mais à deriva, mais ao acaso, porque quem se guarda de tudo foge de tudo.”

Concordo, o acaso nos traz pessoas que deixam marcas em nós, que encantam e dão mais sentido à nossa trajetória, amigos, amores sem os quais muitos dias teriam sido completamente vazios e a vida insuportável.

Mas depois de tê-los em nossa vida, por que deixá-los à deriva, distanciando-se de nós cada vez mais? Os amigos são a boia a qual nos agarramos para não nos afogarmos no tédio, no marasmo, na solidão. São eles que nos ajudam a levantar quando a vida nos derruba, que nos ajudam a clarear a visão quando as decepções nos obscurece a vista.

É triste que não saibamos preservá-los todos, que permitamos que a saudade ocupe seus lugares em nossa vida e que nos contentemos com as lembranças do antigo convívio.

Quantas saudades vieram aos seus olhos enquanto você lia? Quantas boas amizades hoje são lembranças? E o que faremos?

Steller de Paula

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