Escritos Esparsos

12 de junho de 2014

O Sol nasce todo dia

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 5:34
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hopperroomsea

Por esses dias lembrei um livro sobre o qual li há alguns anos. Nele, uma enfermeira que conviveu com pacientes em estados terminais nos seus últimos meses de vida relatava os cinco maiores arrependimentos que os pacientes tinham antes de morrer. São eles:

1 – Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse.

2 – Eu gostaria de não ter trabalhado tanto.

3 – Eu queria ter tido a coragem de expressar meu sentimentos.

4 – Eu gostaria de ter ficado em contato com os meus amigos.

5 – Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz.

Minhas semanas têm sido bastante cansativas, e a impressão que tenho, às vezes, é que um dia emenda no outro e que o sono não é descanso, é desmaio.

Dou 38 aulas até a quinta, pego o carro e viajo para Sobral, onde dou 12 aulas na sexta. Hoje, sábado, acordei às 4:00 da manhã para voltar para Fortaleza e dar aula até às 12:40. Acordei com sono, cansado e a revolta tomou conta de mim: “isso não é vida, estou vivendo pra trabalhar, quando não estou em sala de aula estou elaborando matéria, preciso dar um jeito nisso!”. Foram pensamentos que passaram pela minha cabeça enquanto me arrumava.

Então peguei o carro e o caminho de volta. E, vinte minutos depois, toda a raiva e todo o cansaço tinham desaparecido, pois, ali, na estrada, enquanto dirigia e ouvia John Butler, tive diante de mim um nascer nos mais belos que já tive oportunidade de ver.

O sol, nascendo por trás das montanhas, tingia o céu de rosa, de laranja, de amarelo e me banhava com uma beleza tão grande, que me trouxe de volta do cansaço e da raiva, me fez lembrar o que há muito eu luto para não esquecer: que viver é bom, a despeito de tanta coisa errada, tanta coisa ruim no mundo a nossa volta; que a beleza está ali, à mão, no sol, nas estrelas, no sorriso de um bebê, no abraço de quem a gente ama; está ali, a despeito de tanta coisa feia no mundo a nossa volta.

Dirigindo, o Sol nascendo, a música tocando, lembrei um poema do Manuel Bandeira, um poema que lembro ter lido quando estava cursando Direito, insatisfeito com a vida que levava, com o trabalho, com a faculdade:

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo,

Talvez sorria, ou diga:

– Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.”

Não tenho como descrever o que senti quando li esse poema a primeira vez, mas lembro que me perguntei “E se a morte viesse me buscar hoje, agora, eu poderia dizer que ela encontraria cada coisa em seu lugar?”. Não, não poderia.

Desde a primeira vez que li esse poema, eu resolvi que tentaria viver minha vida de modo a poder encarar a morte dessa forma, não importa se hoje, se amanhã, se daqui há 30 anos. A vida é tão curta, tão curta… o tempo que estamos aqui é tão pequeno para tudo o que o mundo nos oferece, para tudo o que a vida pode nos oferecer, que eu não admito desperdiçá-lo. Não admito desperdiçar esse pouco tempo que me foi dado a viver levando uma vida que não me traz alegria, uma vida que não é a vida que gostaria de estar vivendo, uma vida sem beleza, sem leveza, sem sorrisos. Não quero correr o risco de me deparar com a morte e percebi que não gastei minha vida como deveria, que não usufrui da minha liberdade, que dei importância às coisas erradas, que deixei de valorizar o que merecia ser valorizado. Quando a morte vier me buscar, quero o mínimo de arrependimentos. Não quero minha vida desperdiçada por causa do orgulho, do medo, da vergonha, da ganância. Quero poder olhar pra morte e dizer: “pode a noite descer. Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar.”.

Sim, por vezes nossos olhos se nublam, o cansaço chumba, nossos sorrisos começam a querer enferrujar. Mas basta um nascer do Sol. E o Sol nasce todo dia, todo dia a vida recomeça, todo dia podemos escolher o que fazer com ela.

Sartre diz que nós somos condenados a ser livres. A vida às vezes parece querer se impor, mas a vida é o que fazemos dela. Nós fazemos nossas escolhas e precisamos lidar com as consequências. Às vezes, nossas escolhas nos levam por caminhos que não podemos abandonar, caminhos que precisamos trilhar, mas cabe a nós decidir como traçaremos esse caminho: abatidos pelo cansaço, ou enxergando o Sol nascer todo dia.

Steller de Paula

 

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