Escritos Esparsos

25 de dezembro de 2014

O amor e suas dores. O amor e seus ardores.

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 1:10
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Ao que a gente nasce para o amor.

Quando crianças, dormimos o sono profundo do desconhecimento, embalados pela tranquilidade de não conhecer o poder devastador do amor.

Um dia, já adolescentes, vamos caminhando nossos dias daquele jeito leve e descompromissado; e o amor nos vê passar, sem peso, sem medo, sem ansiedade.

Imperceptivelmente, então, ele se aproxima, arrepia nossa pele com seu toque e nos deixa sua marca.

Daí em diante, do amor não nos livramos mais, pois que o perseguiremos ou seremos por ele perseguidos, e o amor terá um altar em cada esquina por onde passemos.

O amor e suas dores. O amor e seus ardores.

Do amor, às vezes, a gente foge por covardia, por incompreensão, por falta de atenção.

Mas vida mexe com a gente, leva para um lado, leva para outro e, no caminho, consciente ou não, o que a gente procura é uma coisa só: esbarrar no amor, se afeiçoar a outro alguém de modo a querer com ele conviver, construir, dividir, plantar o presente e colher o futuro.

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Tamanho de amor se mede?

De amor mesmo a gente pouco sabe, que nosso entendimento não alcança o lugarzinho onde o sentimento nasce, de onde ele se espalha.

Sentimento amor a gente controla? A gente governa?

Sentimento amor muita vez nasce é onde não devia de.

E cresce na adversidade, pois que a gente idealiza, e a dificuldade faz o que era abstrato ganhar corpo.

A gente quer o impossível. E nas palavras com as quais cantamos nosso amor, ele ganha peso, ganha mais vida.

A gente quer um amor figurado.

Um amor de render belos versos, um amor de canção, musicado. A poesia nasce é no peito da gente, a poesia carece do amor pra se fazer palavra. A poesia inflama o amor, quer vê-lo pegar fogo para que das cinzas recolha versos.

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Por isso, há quem diga que não crê no amor. Que inventaram o amor, que inventamos o amor. Quem diz que não crê no amor é porque tem medo. Medo de encarar o amor e não medi-lo com os olhos. Medo de abraçar o amor e não conseguir abarcá-lo com os braços. Medo de beijar o amor, querendo mais, querendo mais, e não conseguir sorver tudo de que precisa.

O medo é uma roupa com que o amor, muitas vezes, se veste.

Medo de não encontrar; medo de, encontrando, não conquistar; medo de, conquistando, perder; medo de, perdendo, não superar a perda.

O amor exige coragem e, por amor, muita coragem se faz.

Steller de Paula

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16 de dezembro de 2014

A Anulação em Face do Amor

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 20:17
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Mark Rothko

Em Senhora, de José de Alencar, Aurélia Camargo é abandonada por Fernando Seixas, que noiva com outra garota. Ainda assim, Aurélia guarda seu amor por Seixas intocado, pois não se sente digna dele, pois o colocou numa altura tal, que não se sente capaz de alcançá-lo e entende que Seixas a deixe por outra, mais digna. Quando descobre que Fernando, na verdade, trocou-a não por uma mulher que amava, mas por 30 contos, Aurélia revolta-se contra o amado, pois ele, assim, se desonrou. Ao se desonrar, Seixas rebaixa-se ao plano mais rasteiro da existência, distanciando-se das alturas onde o amor de Aurélia o tinha posto. Ao se desonrar, Seixas desonra o amor de Aurélia.

As reviravoltas que o a trama traz são bem conhecidas e no fim o amor redime e o final é feliz.

Mas, agora lembrando Aurélia, lembrei histórias que já me foram contadas, ou presenciadas, de pessoas que colocavam o ser amado em tão grandes alturas, que se diminuíam perante ele, que se anulavam.

O amor nos é vendido de tal forma, nós o queremos tanto, ansiamos tanto por ele, que o idealizamos. Amamos amar, amamos o amor e o que ele desperta em nós. Precisamos, então, que alguém se encaixe na visão que construímos de uma relação amorosa, precisamos de alguém que nos desperte o intenso, que nos permita viver o amor.

Diante disso, algumas pessoas deixam-se cegar, diminuem-se, anulam-se perante o outro. Acostumam-se a fazer sacrifícios, a dar bem mais do que recebem, a serem, a estarem pedindo o que deveriam receber espontaneamente.

Os amigos alertam, a família grita, até a voz da razão, sufocada, resmunga lá dentro, mas o desejo de amar fala mais alto: é preciso acreditar no amor, é preciso lutar pelo meu amor, o amor vai fazer as coisas mudarem, melhorarem e tudo vai acabar bem como num livro de José de Alencar!

Sim, é preciso acreditar no amor, é preciso lutar pelo amor, vivê-lo em sua integridade. Mas, nunca, a despeito de nós próprios, nunca pisando em quem nós somos, abrindo mão de nossa individualidade, de nossos sonhos, de nossas necessidades.

Amor é soma, não é subtração. É troca, não doação unilateral.

Drummond, num belíssimo poema, diz que “amor é dado de graça e com amor não se paga”, mas isso é bonito em verso, em cinema, em romance, é bonito naquele amor platônico, à distância, não naquele amor do dia a dia, não no amor que divide projetos pro futuros, que faz planos, que dorme junto na mesma cama.

Um amor que só te tira, que só te exige, que nada te dá além da vontade de cultivá-lo, vai te deixar vazio, repleto apenas de frustrações, ilusões, mentiras e lágrimas.

Steller de Paula

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