Escritos Esparsos

10 de maio de 2015

Amor de Mãe

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 23:21
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Haroldo - Mãe

Renato Russo, na música Pais e Filhos, imortalizou de maneira extremamente bela uma percepção que muitos filhos têm quando amadurecem:

Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo.

São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer.

Para crescer, é preciso bater de frente com os pais muitas vezes. Pais de verdade, daqueles que não se limitam a por no mundo e sustentar, que não se veem apenas como provedores, preocupam-se com os filhos, sofrem com as dores dos filhos, não dormem enquanto os filhos estão na rua e esperam poder guiar os filhos pelo bom caminho, esperam ser capazes de fazer com que eles evitem os erros clássicos da adolescência, temem que seus filhos cometam os mesmo erros que eles cometeram no passado.

Por isso cobram, por isso impõem, por isso, muitas vezes, sufocam. É o amor, que traz o medo, falando. É a experiência, que traz o conhecimento, falando.

Mas é de nós não aprendermos com a experiência do outro, não sermos capazes de aprender senão através de nossos próprios erros. Precisamos teimar, bater de frente, seguir nosso próprio caminho, cair, quebrar a cara e levantar mais forte, mais maduro.

Feliz do filho que recebe dos pais bons conselhos, que faz suas escolhas bem orientado e que, quando teima e erra, tem os pais por perto, não para dizer “eu avisei”, mas para consolá-lo, para ajudá-lo a se reerguer, a enxergar seus defeitos com sabedoria e lhe dar, novamente, bons conselhos.

Feliz dos pais que têm sabedoria para enxergar que criam seus filhos não para si, mas para a vida, que não esperam fazer dos seus filhos uma versão mais bem acabada de si, que não depositam em seus filhos suas frustações, que sabem reconhecer as individualidades daqueles a quem deram a vida.

Feliz dos pais que reconhecem seu papel de educar, de orientar, de vigiar, de punir, mas que sabem equilibrá-lo com a dose de liberdade que todos precisamos para descobrir quem somos e o que queremos, para poder fazer nossas escolhas e encararmos as consequências delas, para que aprendamos com nossos erros e sejamos capazes de andarmos com nossas próprias pernas.

Hoje é dia das mães. E um pai, por mais pai que seja, não pode conceber o que é ser mãe, o que é ver crescer dentro de si o fruto do seu amor, o que é sentir a sua carne e seu sangue gerando vida, o que é sentir um coração pulsando dentro do seu corpo, o que é, antes mesmo de ter o filho entre os braços, pedir aos céus que o protejam, querer ser capaz de sofrer em sua própria carne todas as violências que a vida tiver reservado para seu filho.

Por nove meses, minha mãe me carregou em seu ventre. Por nove meses, cresci protegido pelo seu corpo e embalado pelo seu amor por mim, por seus sonhos para mim, por seus medos por mim.

Não sou capaz de imaginar quão forte é esse amor, quão poderosa é essa ligação. Não sou capaz supor o peso da responsabilidade de se sentir tão responsável por mim, por minha segurança, por minha felicidade.

Quantas vezes não terá sofrido por não poder me dar o que eu pedia?

Quantas vezes não abdicou do seu conforto, do seu orgulho, dos seus sonhos para me dar o que eu precisava?

Quantas vezes não terá se perguntado se falhou ao me ver seguindo um caminho errado?

Quantas vezes não terá chorado ao me ver doente e não ser capaz de me curar com seus abraços?

Quantas noites insone, pedindo a Deus, que me protegesse e me fizesse capaz de atingir meus objetivos?

Mãe, você fez um excelente trabalho. Nada que não tive me faltou. Tudo que me era necessário eu tive. Você sempre esteve comigo quando precisei, quando adoeci, quando sofri por amor, quando cai por consequência de minhas más escolhas. Você sempre me deu a mão e ajudou a levantar, sempre me empurrou para a frente, sempre teve fé em mim e por mim..

Mãe, eu sou forte, eu sou duro. Minha fortaleza é o teu amor por mim. Minha confiança, teu abraço me deu.

Mãe, eu sou um lutador. As lágrimas que choraste por mim forjaram minha resistência. Minha coragem, teu exemplo me deu.

Mãe, eu acredito em mim, acredito que por mais que tudo esteja dando errado, eu posso consertar, que tudo vai dar certo. Minha coragem para o trabalho, teu exemplo me deu. Meu otimismo é o fruto da tua luta por mim. Minha fé em mim, teu incentivo me deu.

Mãe, eu sei ser só, eu aprecio o encontro comigo mesmo. Foi de ti, de tua independência, de tua abnegação, que herdei o gosto pela solidão.

Não consigo imaginar meus dias sem tua presença, sem tua preocupação, sem teu cuidado, sem teu amor se fazendo presença, preocupação e cuidado.

– Teté, tu me ama? – Tu me perguntaste hoje. Eu, mais uma vez respondi com silêncio e te oferecendo o rosto para beijares.

Amo mãe. Nem consigo mensurar quanto. Até me acovardo diante desse amor.

Nunca quis permitir que esse amor se tornasse dependência emocional, psicológica, sempre procurei me defender. Mas tu nem imaginas o quanto esse amor me moldou.

Não sou presente na tua rotina como gostarias, não durmo mais abraçado a ti na tua cama. Mas quando eu durmo, sinto teu amor me embalando e tuas rezas me protegendo. Por isso eu durmo sempre tão bem.

Feliz Dia das Mães!

Steller de Paula

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8 de maio de 2015

Talvez eu esteja falando com você

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 5:46

Lavô tá novo

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento fazer um bom trabalho. Tento ajudar meus alunos a conseguirem seus objetivos, a conquistarem seus sonhos, tento lhes ajudar a terem o conhecimento necessário para passar de ano, passar no vestibular.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento fazer com que meus alunos se apaixonem por arte, por literatura, tento fazer com que eles se abram para a Arte e deixem que pintores, cronistas, dramaturgos, romancistas e poetas façam seus pequenos milagres.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento levar meus alunos a pensarem, a refletirem, a serem críticos; tento fazer com que eles se importem com os problemas de sua cidade, de seu estado, de seu pais; tento, sobretudo, que eles se importem com os problemas humanos, tento humanizá-los, tento fazer com que encarem seus preconceitos, tento falar com eles e tocar-lhes falando sobre ética, sobre honestidade, sobre solidariedade, sobre gentilezas, virtudes tão aparentemente em falta em nosso país, no nosso dia a dia.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento não ser hipócrita, tento não posar de santo, de dono da verdade, mas tento não falhar, tento aprender com meus erros, tento combater os meus preconceitos, tento olhar para mim e me ver nas minhas palavras.

Mas como é difícil, como é difícil ser honesto no país da malandragem, como é difícil ser decente e honesto quando se lê diariamente o jornal e se vê tanta safadeza, tanta corrupção, tanta má vontade para com o outro, tanta falta de gentileza. Como é difícil ser honesto no país que valoriza a “esperteza”, no país que institucionalizou a safadeza, a malandragem, no país do “jeitinho brasileiro”, no país que parece ter a corrupção entranhada na alma.

Como, como não ser pessimista? Como olhar para o lado, para os políticos, para os juízes, para os policiais, para a imprensa, para as manifestações, para o BRASILEIRO e ter esperança, e não ser pessimista?

Mas estou cansado, muito cansado. Cansado da alienação, cansado da corrupção, cansado da imprensa defendendo sempre seus próprios interesses. Estou cansado das minhas críticas, cansado do meu discurso diário contra tudo isso, cansado de reclamar. Estou cansado de ser pessimista, de não ter fé no meu povo, no meu país. Estou cansado de estar cansado.

E no meio do meu cansaço eu me pergunto:

– Seremos todos safados?

– Seremos todos corruptos, corruptores, corruptíveis?

– Seremos todos tão preconceituosos, tão conservadores?

– Então, é isso? Os corruptos se organizaram, os vagabundos se organizaram, os idiotas ganharam força e agora gritam a plenos pulmões na internet, perseguindo, ofendendo, humilhando, calando quem não é idiota? Então não há mesmo esperança? Não adianta sonhar com uma cidade melhor, com um país melhor? Não há bons? Não há honestos? Não há cidadãos de boa vontade, com uma boa dose altruísmo para fazer frente a tanto, corrupto, a tanto vagabundo, a tanto idiota? Não há a quem pedir ajuda?

Sim, eu sei que há. Eu sei que estão por aí, cansados, indignados, fazendo a sua parte, cultivando a gentileza e a honestidade no seu universo particular, mas com sua voz abafada, com as mãos atadas, enquanto os ladrões, os assassinos, os corruptos e os idiotas gritam a plenos pulmões e percorrem as ruas, os tribunais, as jurisdições, as repartições, as assembleias livremente, sem serem incomodados, estão por aí rosnando na internet, fazendo panelaços, torcendo por um partido como um torcedor doente torce pelo seu time, ofende pelo seu time, agride pelo seu time.

Mas enquanto os ladrões, os assassinos, os corruptos e os idiotas andam em bando, aprenderam a se organizar, os bons andam sozinhos, são desorganizados, estão sonhando um mundo que cada vez mais parece uma utopia.

Eu cansei de estar cansado, eu quero uma cidade melhor, eu quero não ser roubado pelos corruptos, ameaçado pelos idiotas, calado pelos preconceituosos.

Eu quero ser cobrado por minhas palavras, por minhas ideias expostas em sala de aula. Eu quero ser cobrado pelos meus sonhos, pelas minhas esperanças, mas quero ser cobrado por outros que sonham e esperam uma sociedade melhor.

Eu quero ser cobrado por aqueles que se indignam, mas que lutam diariamente para não se afundar no lodo da mentira, da hipocrisia, da esperteza. Quero ser cobrado por aqueles que procuram fazer a sua parte, que não mentem para si mesmos, procurando justificativas para agir como os corruptos, como os safados.

Quero ser cobrado por aqueles que se cobram não cair na tentação, que se cobram resistir ao jeitinho brasileiro. Não, não quero ser cobrado por santos, não sou santo, mas quero encontrar aqueles que cultivam suas virtudes, que combatem seus defeitos, suas falhas.

Mas quero ser cobrado por todos eles juntos, organizados.

Enquanto os bons não se organizarem, enquanto aqueles que cultivam a honestidade e a decência não se mobilizarem, enquanto não forem capazes de se identificarem, de se encontrarem, de planejarem uma ação, enquanto os bons não forem capazes de expandir seus sonhos e esperanças para além de suas mentes e de seus universos particulares, continuarão à mercê da maioria (maioria?) corrupta, safada e idiota.

Com quem eu falo?

Eu falo com quem apoia os direitos dos homossexuais.

Eu falo com quem reconhece que vive num país preconceituoso contra o negro, contra a mulher. Um país que mata os seus negros e suas mulheres.

Eu falo com quem acha que o aborto precisa ser discutido, como uma questão de saúde pública.

Eu falo com quem não grita pela redução da maioridade penal e não encara o problema da violência praticada pelo menor como um problema complexo que é.

Eu falo com quem está disposto a sair de sua zona de conforto, a se mobilizar, não para ir gritar na rua pedindo intervenção militar, batendo panela para a tv, mas com quem quer olhar para a sua cidade, para nossa cidade, com mais cuidado, com mais carinho, com mais vigilância.

Eu falo com quem quer se organizar, discutir, debater e agir para o bem.

Estou falando sozinho talvez. Talvez seja apenas mais um desabafo. Talvez eu esteja fazendo papel de ridículo e amanhã seja ridicularizado por isso.

Mas, apesar do cansaço, continuarei gritando e tentando fazer minha parte.

São 02h36min da madrugada. Tenho sono e amanhã pela manhã estarei mais uma vez em sala de aula.

Talvez ninguém se dê ao trabalho de ler esse texto até aqui.

Mas talvez eu esteja falando com você.

Steller de Paula

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