Escritos Esparsos

8 de maio de 2015

Talvez eu esteja falando com você

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 5:46

Lavô tá novo

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento fazer um bom trabalho. Tento ajudar meus alunos a conseguirem seus objetivos, a conquistarem seus sonhos, tento lhes ajudar a terem o conhecimento necessário para passar de ano, passar no vestibular.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento fazer com que meus alunos se apaixonem por arte, por literatura, tento fazer com que eles se abram para a Arte e deixem que pintores, cronistas, dramaturgos, romancistas e poetas façam seus pequenos milagres.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento levar meus alunos a pensarem, a refletirem, a serem críticos; tento fazer com que eles se importem com os problemas de sua cidade, de seu estado, de seu pais; tento, sobretudo, que eles se importem com os problemas humanos, tento humanizá-los, tento fazer com que encarem seus preconceitos, tento falar com eles e tocar-lhes falando sobre ética, sobre honestidade, sobre solidariedade, sobre gentilezas, virtudes tão aparentemente em falta em nosso país, no nosso dia a dia.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento não ser hipócrita, tento não posar de santo, de dono da verdade, mas tento não falhar, tento aprender com meus erros, tento combater os meus preconceitos, tento olhar para mim e me ver nas minhas palavras.

Mas como é difícil, como é difícil ser honesto no país da malandragem, como é difícil ser decente e honesto quando se lê diariamente o jornal e se vê tanta safadeza, tanta corrupção, tanta má vontade para com o outro, tanta falta de gentileza. Como é difícil ser honesto no país que valoriza a “esperteza”, no país que institucionalizou a safadeza, a malandragem, no país do “jeitinho brasileiro”, no país que parece ter a corrupção entranhada na alma.

Como, como não ser pessimista? Como olhar para o lado, para os políticos, para os juízes, para os policiais, para a imprensa, para as manifestações, para o BRASILEIRO e ter esperança, e não ser pessimista?

Mas estou cansado, muito cansado. Cansado da alienação, cansado da corrupção, cansado da imprensa defendendo sempre seus próprios interesses. Estou cansado das minhas críticas, cansado do meu discurso diário contra tudo isso, cansado de reclamar. Estou cansado de ser pessimista, de não ter fé no meu povo, no meu país. Estou cansado de estar cansado.

E no meio do meu cansaço eu me pergunto:

– Seremos todos safados?

– Seremos todos corruptos, corruptores, corruptíveis?

– Seremos todos tão preconceituosos, tão conservadores?

– Então, é isso? Os corruptos se organizaram, os vagabundos se organizaram, os idiotas ganharam força e agora gritam a plenos pulmões na internet, perseguindo, ofendendo, humilhando, calando quem não é idiota? Então não há mesmo esperança? Não adianta sonhar com uma cidade melhor, com um país melhor? Não há bons? Não há honestos? Não há cidadãos de boa vontade, com uma boa dose altruísmo para fazer frente a tanto, corrupto, a tanto vagabundo, a tanto idiota? Não há a quem pedir ajuda?

Sim, eu sei que há. Eu sei que estão por aí, cansados, indignados, fazendo a sua parte, cultivando a gentileza e a honestidade no seu universo particular, mas com sua voz abafada, com as mãos atadas, enquanto os ladrões, os assassinos, os corruptos e os idiotas gritam a plenos pulmões e percorrem as ruas, os tribunais, as jurisdições, as repartições, as assembleias livremente, sem serem incomodados, estão por aí rosnando na internet, fazendo panelaços, torcendo por um partido como um torcedor doente torce pelo seu time, ofende pelo seu time, agride pelo seu time.

Mas enquanto os ladrões, os assassinos, os corruptos e os idiotas andam em bando, aprenderam a se organizar, os bons andam sozinhos, são desorganizados, estão sonhando um mundo que cada vez mais parece uma utopia.

Eu cansei de estar cansado, eu quero uma cidade melhor, eu quero não ser roubado pelos corruptos, ameaçado pelos idiotas, calado pelos preconceituosos.

Eu quero ser cobrado por minhas palavras, por minhas ideias expostas em sala de aula. Eu quero ser cobrado pelos meus sonhos, pelas minhas esperanças, mas quero ser cobrado por outros que sonham e esperam uma sociedade melhor.

Eu quero ser cobrado por aqueles que se indignam, mas que lutam diariamente para não se afundar no lodo da mentira, da hipocrisia, da esperteza. Quero ser cobrado por aqueles que procuram fazer a sua parte, que não mentem para si mesmos, procurando justificativas para agir como os corruptos, como os safados.

Quero ser cobrado por aqueles que se cobram não cair na tentação, que se cobram resistir ao jeitinho brasileiro. Não, não quero ser cobrado por santos, não sou santo, mas quero encontrar aqueles que cultivam suas virtudes, que combatem seus defeitos, suas falhas.

Mas quero ser cobrado por todos eles juntos, organizados.

Enquanto os bons não se organizarem, enquanto aqueles que cultivam a honestidade e a decência não se mobilizarem, enquanto não forem capazes de se identificarem, de se encontrarem, de planejarem uma ação, enquanto os bons não forem capazes de expandir seus sonhos e esperanças para além de suas mentes e de seus universos particulares, continuarão à mercê da maioria (maioria?) corrupta, safada e idiota.

Com quem eu falo?

Eu falo com quem apoia os direitos dos homossexuais.

Eu falo com quem reconhece que vive num país preconceituoso contra o negro, contra a mulher. Um país que mata os seus negros e suas mulheres.

Eu falo com quem acha que o aborto precisa ser discutido, como uma questão de saúde pública.

Eu falo com quem não grita pela redução da maioridade penal e não encara o problema da violência praticada pelo menor como um problema complexo que é.

Eu falo com quem está disposto a sair de sua zona de conforto, a se mobilizar, não para ir gritar na rua pedindo intervenção militar, batendo panela para a tv, mas com quem quer olhar para a sua cidade, para nossa cidade, com mais cuidado, com mais carinho, com mais vigilância.

Eu falo com quem quer se organizar, discutir, debater e agir para o bem.

Estou falando sozinho talvez. Talvez seja apenas mais um desabafo. Talvez eu esteja fazendo papel de ridículo e amanhã seja ridicularizado por isso.

Mas, apesar do cansaço, continuarei gritando e tentando fazer minha parte.

São 02h36min da madrugada. Tenho sono e amanhã pela manhã estarei mais uma vez em sala de aula.

Talvez ninguém se dê ao trabalho de ler esse texto até aqui.

Mas talvez eu esteja falando com você.

Steller de Paula

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