Escritos Esparsos

18 de agosto de 2016

Trechos de um projeto Abortado

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Cap. 01

 Quando levantou naquele dia, mais um domingo que tinha tudo para ser igual aos outros tantos domingos do seu último ano, Fernando já estava de máscara posta.

Estava cursando o primeiro semestre de Direito na UFC. Era um garoto inteligente, bem inteligente, e aprendia tudo com facilidade. Assim, precisava estudar pouco para se destacar na turma – o que revoltava muitos de seus colegas, que se matavam de estudar.

Os seus domingos costumavam ser sempre iguais: acordava por volta das nove horas, tomava café e deitava-se numa rede na varanda de casa com um livro na mão. Lia até uma da tarde, quando almoçava com a mãe e o irmão mais velho, e depois ia para o shopping assistir a algum filme, tomar um milk-shake de Ovomaltine e, após o filme, ir para a casa de sua namorada, ou ex-namorada, as coisas continuavam muito confusas, visitá-la.

Fernando era um leitor inveterado. O gosto pela leitura começou na infância, quando, diariamente, seu pai lhe trazia uma revistinha da Turma da Mônica.¹ Depois de ter devorado todos os livros de Marcos Rey, de Pedro Bandeira, a maioria de Sidney Sheldon, Harold Hobins e Paulo Coelho, ele descobriu Machado de Assis e se perdeu no gosto da literatura chamada “clássica”. Ler era uma forma de fugir de si mesmo, do que temia em si mesmo, ainda que através da leitura o encontro consigo fosse inevitável.

Mas naquele primeiro domingo das férias de meio do ano Fernando pensava em fazer algo diferente. Cogitou ir à praia, mas ao abrir a janela e sentir o ar quente de Fortaleza circular pela varanda no seu verão eterno, desistiu, ansiou pelo ar condicionado do shopping e acabou resolvendo fazer o de sempre.

Às dez horas, já estava deitado na rede terminando de ler Cem Anos de Solidão e se impressionando com a capacidade de Gabriel Gárcia Márquez. Impressionava a capacidade do colombiano em criar situações absurdas e contá-las com tanta naturalidade, a mesma naturalidade e beleza com que encaixava os palavrões no texto.² Terminou o livro pouco antes de a mãe chamar para o almoço. Desceu e a encontrou colocando a mesa.

– O que é o almoço? – Perguntou.

– Macarronada. Vá lavar as mãos.

– Lá se vai meu regime. – Disse Ricardo entrando na cozinha.

Ricardo tinha vinte anos e um metro e oitenta de um corpo cheio de músculos moldado em horas de academia.

A mãe de Fernando e Ricardo era fã do poeta português Fernando Pessoa³ e escolheu, como nome para seu primeiro filho, dentre os heterônimos do poeta aquele que era médico, na esperança de que ele fizesse medicina, mas Ricardo, o seu Ricardo, nunca gostou muito de estudar e acabou entrando, depois da terceira tentativa, para o curso de Educação Física.

– Ei, semana que vem tem um show bom pra gente ir, lá na Órbita. – Ricardo falou enquanto sentava à mesa.

– De quem?

– Não sei, mas vai ser bom. Vamos?

– Acho que vou, faz tempo que não faço algo diferente. Vai pagar a minha?

– Cara, eu sou instrutor de academia! Ganho miséria. Mamãe vai pagar a nossa.

– Então eu também vou para esse Show! – A mãe disse.

– Vai não, mãe. – Respondeu Fernando – Show é coisa do diabo.

– Você não gosta, mãe. E é cansativo, tempo todo em pé, pessoas se esbarrando… – Completou Ricardo.

– Você sabe lá do que eu gosto! E eu já andei da Igreja Matriz até o ginásio Paulo Sarasate, aguento ficar muito tempo em pé! E andando!

– Mas era rezando, Deus te carregando.

– É, não era no meio da perdição.

– Pois também não pago nada!

Os dois começaram a rir, sabendo que, claro, ela pagaria.

Cap. 02

Depois de comprar o ingresso para o filme a que iria assistir, mais uma vez sozinho, Fernando olhou ao redor procurando onde sentar. Todo mundo em pé, cinema lotado, calor. Perto da fila para o cinema, sentada no chão, aos pés da coluna, uma única garota.

Sentindo a inevitável timidez ficou naquele “vou não vou?” de sempre. Mas como sempre, foi. Todo tímido é um ousado esperando uma oportunidade. Não que tivesse intenção de falar com ela, nem tinha reparado direito em sua aparência. Mas, para ele, sentar-se ao lado de uma garota nessas circunstâncias já era difícil. Certamente ela pensaria que ele era mais um daqueles garotos que não podiam ver uma mulher sozinha e chegavam junto, cheios de si. Fernando era rapaz bonito. Moreno, cabelos pretos e lisos cortados curtos, um metro e setenta e seis de altura, corpo de quem faz artes marciais há alguns anos. Tinha um quê de arrogância no andar. Vendo-o, ninguém imaginaria a timidez que arrasta consigo. Pensava que, se fosse feio, talvez fosse menos tímido. Tinha receio de que, ao se aproximar, as garotas o vissem como mais um engraçadinho, que o julgassem por sua aparência, que não o enxergassem realmente. Sua beleza era uma armadilha para si mesmo.

Todos esses pensamentos passaram em sua cabeça novamente enquanto percorria o caminho que o separava da coluna e da garota sentada no chão.

– Com licença. – Disse ele ao sentar.

– Pode sentar! – A garota respondeu.

Sentado, o cheiro do perfume que emanava do cabelo dela começou a envolvê-lo, mas ele evitava virar-se para ela e ficava naquele beco sem saída em que seu pensamento sempre o metia nessas situações. Pegou seu livro e começou a ler, imitando-a.

O cheiro dela o atrapalhava, mas em pouco tempo a leitura o absorveu e ele relaxou.

– Perfume bom esse que você está usando. – Ele ouviu meio sem acreditar.

– Como?

– Muito bom esse perfume. – Ela repetiu, e ele começou a rir.

– O que foi?

– Desculpa. – Ele apressou-se em dizer. – É que assim que sentei a primeira coisa que pensei sobre você foi isso, que seu cheiro era bom, mas não tive coragem de dizer.

– Por quê?

– Não sei… Acho que medo de você me interpretar errado… Não se sai por aí dizendo essas coisas a desconhecidas!

– Eu disse. – Ela falou olhando nos olhos dele, o que o deixou mais desconcertado ainda. – Você está me interpretando errado?

– Não! Desculpa, não quis dizer isso. É que eu sou sem noção mesmo. Tímido.

– Acho que a gente não deve guardar coisas boas que pensamos sobre os outros, mesmo que nos julguem errado. Você julgou erradamente que eu te julgaria errado se você falasse comigo. Que besteira, né?

Ele não acreditava que tinha sido desmontado em poucos minutos por uma garota que, olhando bem, devia ser mais nova do ele.

– Você tem razão. E eu adorei seu cheiro.

Ela sorriu e, por uma fração de segundo, ele sentiu que teria problemas. Ele sentiu que aquele cheiro, aquele olhar e aquele sorriso, juntos, fariam com que ficasse encurralado em algum lugar dentro de si mesmo, cerceado pela vontade de se deixar levar por aquele cheiro, de ser tragado por aquele olhar e ser salvo por aquele sorriso. E, sim, isso o deixava com medo.

– Obrigada! Que livro você está lendo?

– Um aprendizado ou O livro dos prazeres, da Clarice Lispector. Comecei agorinha. Conhece?

– Não. É bom?

– Nossa! É genial!

– Lê um trecho pra mim.

Sem abrir o livro, ele começou a recitar para ela.

“— Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

Ela olhava-o séria, enquanto ele lia. Quando ele acabou, ela disse:

– Apesar da sua timidez, você sentou aqui. Apesar do risco de você me interpretar errado, eu elogiei seu perfume. Lindo.

Ele não soube como responder àquilo.

– Lindo mesmo. – Concordou. – Gosta de Clarice?

– Nunca li muito. Só o que todo mundo posta no Facebook. Sempre que li, curti. Mas você não me disse que começou a ler agorinha? Como já sabe decorado?

– Isso acontece, leio algo que me interessa e basta reler umas duas ou três vezes para ficar guardado. Nem sei como consigo guardar tanta coisa aqui dentro! – Ah… Meu nome é Fernando, prazer!

– O meu é Lua, prazer!

– Lua? – Admirou-se ele.

– É, Lua! Meu pai pretendia colocar Lia, mas o escrivão acabou registrando errado, ficou Lua. Eu gosto.

– Eu também gosto! Que filme você vai ver?

– Deadpool. Estou esperando minhas amigas chegarem. E você?

– Também vou ver esse.

– Com quem?

– Sozinho.

– Assiste com a gente. Você vai adorar as meninas!

Antes que pudesse responder, as meninas chegaram. Eram duas. Bia, uma morena, cabelo preto um pouco cacheado, magra e extremamente animada, que chegou rindo alto e perguntando à Lua quem era o “boy”. E uma branquinha, cabelo liso com umas mechas californianas, rosto afilado e olhos cor de mel. Mais contida, vinha sorrindo das extravagâncias da amiga e cumprimentou Fernando com um “oi”.

– O boy é o Fernando, amiga. – Respondeu Lua – Convidei pra ver o filme com a gente.

– Não, não quero atrapalhar o programa de vocês!

– Ah, querido, não vai atrapalhar não! Vamos com a gente! Né, Vi?

– É, sim, claro que não atrapalha. – Respondeu Vitória, a branquinha contida.

– Então vamos para a fila que já estão todos entrando. – Concordou Fernando.

Fernando descobriu, após o filme, que Bia estava no primeiro semestre de Estilismo e Moda, Vitória no de Arquitetura e que Lua por pouco não entrou para o curso de Direito e se tornou sua colega. Assim, ela estava fazendo extensivo e pertencia àquele grupo de alunos caracterizado por algum tipo de desespero, conhecidos como pré-universitários. Claro, nem todos os pré-universitários são facilmente identificados pelo desespero próprio da categoria, só aqueles que: a) se cobram demais e se entregam desesperadamente aos estudos, sendo bons alunos, mas nunca estando satisfeitos consigo mesmos; b) são intensamente cobrados pelos pais e se entregam desesperadamente aos estudos, sendo bons alunos, satisfeitos consigo mesmos, mas nunca satisfazendo aos pais; c) se cobram razoavelmente, são razoavelmente cobrados pelos pais, se entregam razoavelmente a algumas horas de estudo e, nas demais horas, carregam desesperadamente o fardo da culpa por não se esforçarem mais.*4

Lua ostentava o desespero do tipo “b” e, assim que terminaram de comer, ela disse que precisava ir embora, que o pai já estava vindo para buscá-la. Bia e Vitória iriam pegar carona com ela, então ele pegou número do telefone de todas e passou o seu a elas.

Depois que elas se foram, Fernando ficou pensando em como, até ali, o domingo foi muito melhor do que podia imaginar quando acordou. Conheceu três garotas lindas e, cada uma a seu modo, muito interessantes.

A vida é um susto. – Pensou. Gostou do que pensou e resolveu mandar para as três por Whatsapp, sabendo que elas ainda estavam juntas.

Fernando: “A vida é um susto. Adorei conhecer vcs!”

Bia: “Ow, querido, que fofo! Foi mara te conhecer tb!”

Vitória: “Que lindo! Tb adoramos!”

Lua: “Que fofo! Depois vc me diz de quem é essa frase! Ou é sua mesmo?”

Fernando: “kkkk… essa é minha mesmo! Acho q leio tanto q às vezes as coisas se misturam aqui dentro e saem organizadas de forma diferente.”

Lua: “Ainda é poeta! Tô chegando em casa.  Dps vc me mostra algumas coisas suas, vou adorar ler! Bj!”

Fernando: “kkk… Ok! Bj!”

Steller de Paula

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