Escritos Esparsos

16 de abril de 2017

O que é e o que pode ser

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Rotko

– Steller, tu já chegou naquele momento que tu acha que tua vida tá realmente acabando? Viver é difícil pra cacete. Eu estou exausta, acabada e ainda estou aguentando. Isso é horrível.
17 anos. Li isso de uma garota de 17 anos. Bonita, saudável, estudando numa boa escola, família com boa condição financeira. Apesar disso, às 2 horas da manhã, abro o Facebook e percebo que ela acabara de me escrever que estava exausta com a vida.
Não foi uma conversa fácil. Como responder a uma pergunta dessas? Como ajudar? Que palavras dizer? Como ter certeza de que estou ajudando? Não sei. Nunca sei. Mas escuto, vou tateando, vou tentando fazer um bom uso dessa confiança que foi depositada em mim e, no íntimo, torcendo, torcendo, torcendo para estar no caminho certo.
Depois dessa conversa com ela, pare e numa conversa hipotética, mais comigo mesmo, escrevi isso:
Moça, viver é, sim, difícil pra cacete. Riobaldo diz e repete: Viver é muito perigoso. Fácil é desistir quando cansaço bate, quando nada parece fazer sentido, quando o mundo se mostra hostil, quando o tesão pela vida acaba.
Não, eu não cheguei nesse momento. Eu gosto muito da vida, na verdade. Gosto de saber que há tantas possibilidades: tantos caminhos a percorrer, tanta gente para conhecer, tantos lugares para visitar, tantos sabores para provar…
Mas, às vezes, é um desafio fazer a vida valer a pena. Às vezes, passamos por momentos em que não encontramos um sentido para tudo que exigem de nós, para todo o tempo gasto estudando, trabalhando, comprando coisas, pagando as contas, vivendo uma vida que, de certo modo, foi imposta a nós e da qual é difícil fugir.
A gente cresce, estuda, trabalha, paga as contas, alimenta ambições e sonha, sonha e sonha, pois é o sonho que nos projeta para o futuro.
E nessa correria, a maioria tenta ser feliz. Ser feliz estudando, trabalhando, comprando coisas, fazendo o que precisamos fazer.
Eu não tento ser feliz. Eu tento ser alegre, eu tento viver de modo que tudo o que eu faça valha a pena, apesar das dificuldades, apesar das cobranças, apesar das pressões, apesar da insegurança… que valha a pena estudar, que valha a pena trabalhar, que valha a pena amar, que valha a pena conviver. Que valha a pena acordar todo dia para tudo isso.
Porque a verdadeira corrida, não é uma corrida pela felicidade, que está sempre, sempre, mais adiante e é efêmera. É uma corrida por ser alegre na maior parte dos dias. A alegria é o combustível para se continuar correndo atrás de ser feliz, mesmo sem ter certeza de estar fazendo o certo. E quando somos alegres as coisas têm mais sentido, o trabalho tem sentido, o caminho tem sentido, as horas tem um porquê.
Então, quando o cansaço bater, quando der vontade de desistir da vida que se leva, é hora de fugir. Às vezes, basta fugir um pouco: para um café e a companhia de um bom livro, para um pote de sorvete e uma boa série, para uma bebida e um papo com os amigos, para o abraço da mãe…
Às vezes, é preciso uma fuga maior: faltar o colégio ou o trabalho, juntar uns trocados e passar uns dias longe de casa, numa rede perto da praia, um lugar com muito verde e canto de pássaros.
Se o cansaço for grande e fugir não for uma opção, é hora de brigar com a realidade e mudar de vida, de romper com o quê ou quem te fere, de se afastar de tudo o que te faz mal.
Se você se olhar e não gostar do que vê, é hora de lutar consigo mesmo, de enfrentar o que há de ruim em ti, de se reinventar, de trocar de pele.
Não é fácil. Mas quem disse que tem que ser fácil?
Então que você tenha a força e a determinação necessárias para não sucumbir a desânimo e à tristeza. Que você tenha a sabedoria necessária para reconhecer que tem fraquezas, que elas fazem parte de você e que elas podem ser o ponto de partida para que você se fortaleça. Que você tenha a humildade necessária para perceber que não pode e não precisa enfrentar todas as barras, todos os problemas, todos os seus dramas sozinha, que você pode estender a mão e pedir ajuda, pedir um abraço. Que você tenha coragem para mudar no meio do caminho, pegar outra rota, planejar outro destino, mas que você tenha coragem para continuar caminhando. E que você tenha a sensibilidade para reparar na beleza da vida, que sempre e sempre seja capaz de encontrar as coisas que ainda te emocionam, um pôr do Sol, um bom livro, um cheiro no pescoço, uma tarde chuvosa, beira mar, uma nova amizade… Porque a vida é o que é, mas é, também, tudo o que pode ser.

Steller de Paula

18 de agosto de 2016

Trechos de um projeto Abortado

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Cap. 01

 Quando levantou naquele dia, mais um domingo que tinha tudo para ser igual aos outros tantos domingos do seu último ano, Fernando já estava de máscara posta.

Estava cursando o primeiro semestre de Direito na UFC. Era um garoto inteligente, bem inteligente, e aprendia tudo com facilidade. Assim, precisava estudar pouco para se destacar na turma – o que revoltava muitos de seus colegas, que se matavam de estudar.

Os seus domingos costumavam ser sempre iguais: acordava por volta das nove horas, tomava café e deitava-se numa rede na varanda de casa com um livro na mão. Lia até uma da tarde, quando almoçava com a mãe e o irmão mais velho, e depois ia para o shopping assistir a algum filme, tomar um milk-shake de Ovomaltine e, após o filme, ir para a casa de sua namorada, ou ex-namorada, as coisas continuavam muito confusas, visitá-la.

Fernando era um leitor inveterado. O gosto pela leitura começou na infância, quando, diariamente, seu pai lhe trazia uma revistinha da Turma da Mônica.¹ Depois de ter devorado todos os livros de Marcos Rey, de Pedro Bandeira, a maioria de Sidney Sheldon, Harold Hobins e Paulo Coelho, ele descobriu Machado de Assis e se perdeu no gosto da literatura chamada “clássica”. Ler era uma forma de fugir de si mesmo, do que temia em si mesmo, ainda que através da leitura o encontro consigo fosse inevitável.

Mas naquele primeiro domingo das férias de meio do ano Fernando pensava em fazer algo diferente. Cogitou ir à praia, mas ao abrir a janela e sentir o ar quente de Fortaleza circular pela varanda no seu verão eterno, desistiu, ansiou pelo ar condicionado do shopping e acabou resolvendo fazer o de sempre.

Às dez horas, já estava deitado na rede terminando de ler Cem Anos de Solidão e se impressionando com a capacidade de Gabriel Gárcia Márquez. Impressionava a capacidade do colombiano em criar situações absurdas e contá-las com tanta naturalidade, a mesma naturalidade e beleza com que encaixava os palavrões no texto.² Terminou o livro pouco antes de a mãe chamar para o almoço. Desceu e a encontrou colocando a mesa.

– O que é o almoço? – Perguntou.

– Macarronada. Vá lavar as mãos.

– Lá se vai meu regime. – Disse Ricardo entrando na cozinha.

Ricardo tinha vinte anos e um metro e oitenta de um corpo cheio de músculos moldado em horas de academia.

A mãe de Fernando e Ricardo era fã do poeta português Fernando Pessoa³ e escolheu, como nome para seu primeiro filho, dentre os heterônimos do poeta aquele que era médico, na esperança de que ele fizesse medicina, mas Ricardo, o seu Ricardo, nunca gostou muito de estudar e acabou entrando, depois da terceira tentativa, para o curso de Educação Física.

– Ei, semana que vem tem um show bom pra gente ir, lá na Órbita. – Ricardo falou enquanto sentava à mesa.

– De quem?

– Não sei, mas vai ser bom. Vamos?

– Acho que vou, faz tempo que não faço algo diferente. Vai pagar a minha?

– Cara, eu sou instrutor de academia! Ganho miséria. Mamãe vai pagar a nossa.

– Então eu também vou para esse Show! – A mãe disse.

– Vai não, mãe. – Respondeu Fernando – Show é coisa do diabo.

– Você não gosta, mãe. E é cansativo, tempo todo em pé, pessoas se esbarrando… – Completou Ricardo.

– Você sabe lá do que eu gosto! E eu já andei da Igreja Matriz até o ginásio Paulo Sarasate, aguento ficar muito tempo em pé! E andando!

– Mas era rezando, Deus te carregando.

– É, não era no meio da perdição.

– Pois também não pago nada!

Os dois começaram a rir, sabendo que, claro, ela pagaria.

Cap. 02

Depois de comprar o ingresso para o filme a que iria assistir, mais uma vez sozinho, Fernando olhou ao redor procurando onde sentar. Todo mundo em pé, cinema lotado, calor. Perto da fila para o cinema, sentada no chão, aos pés da coluna, uma única garota.

Sentindo a inevitável timidez ficou naquele “vou não vou?” de sempre. Mas como sempre, foi. Todo tímido é um ousado esperando uma oportunidade. Não que tivesse intenção de falar com ela, nem tinha reparado direito em sua aparência. Mas, para ele, sentar-se ao lado de uma garota nessas circunstâncias já era difícil. Certamente ela pensaria que ele era mais um daqueles garotos que não podiam ver uma mulher sozinha e chegavam junto, cheios de si. Fernando era rapaz bonito. Moreno, cabelos pretos e lisos cortados curtos, um metro e setenta e seis de altura, corpo de quem faz artes marciais há alguns anos. Tinha um quê de arrogância no andar. Vendo-o, ninguém imaginaria a timidez que arrasta consigo. Pensava que, se fosse feio, talvez fosse menos tímido. Tinha receio de que, ao se aproximar, as garotas o vissem como mais um engraçadinho, que o julgassem por sua aparência, que não o enxergassem realmente. Sua beleza era uma armadilha para si mesmo.

Todos esses pensamentos passaram em sua cabeça novamente enquanto percorria o caminho que o separava da coluna e da garota sentada no chão.

– Com licença. – Disse ele ao sentar.

– Pode sentar! – A garota respondeu.

Sentado, o cheiro do perfume que emanava do cabelo dela começou a envolvê-lo, mas ele evitava virar-se para ela e ficava naquele beco sem saída em que seu pensamento sempre o metia nessas situações. Pegou seu livro e começou a ler, imitando-a.

O cheiro dela o atrapalhava, mas em pouco tempo a leitura o absorveu e ele relaxou.

– Perfume bom esse que você está usando. – Ele ouviu meio sem acreditar.

– Como?

– Muito bom esse perfume. – Ela repetiu, e ele começou a rir.

– O que foi?

– Desculpa. – Ele apressou-se em dizer. – É que assim que sentei a primeira coisa que pensei sobre você foi isso, que seu cheiro era bom, mas não tive coragem de dizer.

– Por quê?

– Não sei… Acho que medo de você me interpretar errado… Não se sai por aí dizendo essas coisas a desconhecidas!

– Eu disse. – Ela falou olhando nos olhos dele, o que o deixou mais desconcertado ainda. – Você está me interpretando errado?

– Não! Desculpa, não quis dizer isso. É que eu sou sem noção mesmo. Tímido.

– Acho que a gente não deve guardar coisas boas que pensamos sobre os outros, mesmo que nos julguem errado. Você julgou erradamente que eu te julgaria errado se você falasse comigo. Que besteira, né?

Ele não acreditava que tinha sido desmontado em poucos minutos por uma garota que, olhando bem, devia ser mais nova do ele.

– Você tem razão. E eu adorei seu cheiro.

Ela sorriu e, por uma fração de segundo, ele sentiu que teria problemas. Ele sentiu que aquele cheiro, aquele olhar e aquele sorriso, juntos, fariam com que ficasse encurralado em algum lugar dentro de si mesmo, cerceado pela vontade de se deixar levar por aquele cheiro, de ser tragado por aquele olhar e ser salvo por aquele sorriso. E, sim, isso o deixava com medo.

– Obrigada! Que livro você está lendo?

– Um aprendizado ou O livro dos prazeres, da Clarice Lispector. Comecei agorinha. Conhece?

– Não. É bom?

– Nossa! É genial!

– Lê um trecho pra mim.

Sem abrir o livro, ele começou a recitar para ela.

“— Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”

Ela olhava-o séria, enquanto ele lia. Quando ele acabou, ela disse:

– Apesar da sua timidez, você sentou aqui. Apesar do risco de você me interpretar errado, eu elogiei seu perfume. Lindo.

Ele não soube como responder àquilo.

– Lindo mesmo. – Concordou. – Gosta de Clarice?

– Nunca li muito. Só o que todo mundo posta no Facebook. Sempre que li, curti. Mas você não me disse que começou a ler agorinha? Como já sabe decorado?

– Isso acontece, leio algo que me interessa e basta reler umas duas ou três vezes para ficar guardado. Nem sei como consigo guardar tanta coisa aqui dentro! – Ah… Meu nome é Fernando, prazer!

– O meu é Lua, prazer!

– Lua? – Admirou-se ele.

– É, Lua! Meu pai pretendia colocar Lia, mas o escrivão acabou registrando errado, ficou Lua. Eu gosto.

– Eu também gosto! Que filme você vai ver?

– Deadpool. Estou esperando minhas amigas chegarem. E você?

– Também vou ver esse.

– Com quem?

– Sozinho.

– Assiste com a gente. Você vai adorar as meninas!

Antes que pudesse responder, as meninas chegaram. Eram duas. Bia, uma morena, cabelo preto um pouco cacheado, magra e extremamente animada, que chegou rindo alto e perguntando à Lua quem era o “boy”. E uma branquinha, cabelo liso com umas mechas californianas, rosto afilado e olhos cor de mel. Mais contida, vinha sorrindo das extravagâncias da amiga e cumprimentou Fernando com um “oi”.

– O boy é o Fernando, amiga. – Respondeu Lua – Convidei pra ver o filme com a gente.

– Não, não quero atrapalhar o programa de vocês!

– Ah, querido, não vai atrapalhar não! Vamos com a gente! Né, Vi?

– É, sim, claro que não atrapalha. – Respondeu Vitória, a branquinha contida.

– Então vamos para a fila que já estão todos entrando. – Concordou Fernando.

Fernando descobriu, após o filme, que Bia estava no primeiro semestre de Estilismo e Moda, Vitória no de Arquitetura e que Lua por pouco não entrou para o curso de Direito e se tornou sua colega. Assim, ela estava fazendo extensivo e pertencia àquele grupo de alunos caracterizado por algum tipo de desespero, conhecidos como pré-universitários. Claro, nem todos os pré-universitários são facilmente identificados pelo desespero próprio da categoria, só aqueles que: a) se cobram demais e se entregam desesperadamente aos estudos, sendo bons alunos, mas nunca estando satisfeitos consigo mesmos; b) são intensamente cobrados pelos pais e se entregam desesperadamente aos estudos, sendo bons alunos, satisfeitos consigo mesmos, mas nunca satisfazendo aos pais; c) se cobram razoavelmente, são razoavelmente cobrados pelos pais, se entregam razoavelmente a algumas horas de estudo e, nas demais horas, carregam desesperadamente o fardo da culpa por não se esforçarem mais.*4

Lua ostentava o desespero do tipo “b” e, assim que terminaram de comer, ela disse que precisava ir embora, que o pai já estava vindo para buscá-la. Bia e Vitória iriam pegar carona com ela, então ele pegou número do telefone de todas e passou o seu a elas.

Depois que elas se foram, Fernando ficou pensando em como, até ali, o domingo foi muito melhor do que podia imaginar quando acordou. Conheceu três garotas lindas e, cada uma a seu modo, muito interessantes.

A vida é um susto. – Pensou. Gostou do que pensou e resolveu mandar para as três por Whatsapp, sabendo que elas ainda estavam juntas.

Fernando: “A vida é um susto. Adorei conhecer vcs!”

Bia: “Ow, querido, que fofo! Foi mara te conhecer tb!”

Vitória: “Que lindo! Tb adoramos!”

Lua: “Que fofo! Depois vc me diz de quem é essa frase! Ou é sua mesmo?”

Fernando: “kkkk… essa é minha mesmo! Acho q leio tanto q às vezes as coisas se misturam aqui dentro e saem organizadas de forma diferente.”

Lua: “Ainda é poeta! Tô chegando em casa.  Dps vc me mostra algumas coisas suas, vou adorar ler! Bj!”

Fernando: “kkk… Ok! Bj!”

Steller de Paula

8 de maio de 2015

Talvez eu esteja falando com você

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 5:46

Lavô tá novo

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento fazer um bom trabalho. Tento ajudar meus alunos a conseguirem seus objetivos, a conquistarem seus sonhos, tento lhes ajudar a terem o conhecimento necessário para passar de ano, passar no vestibular.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento fazer com que meus alunos se apaixonem por arte, por literatura, tento fazer com que eles se abram para a Arte e deixem que pintores, cronistas, dramaturgos, romancistas e poetas façam seus pequenos milagres.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento levar meus alunos a pensarem, a refletirem, a serem críticos; tento fazer com que eles se importem com os problemas de sua cidade, de seu estado, de seu pais; tento, sobretudo, que eles se importem com os problemas humanos, tento humanizá-los, tento fazer com que encarem seus preconceitos, tento falar com eles e tocar-lhes falando sobre ética, sobre honestidade, sobre solidariedade, sobre gentilezas, virtudes tão aparentemente em falta em nosso país, no nosso dia a dia.

Há dez anos eu entro diariamente em sala de aula e tento não ser hipócrita, tento não posar de santo, de dono da verdade, mas tento não falhar, tento aprender com meus erros, tento combater os meus preconceitos, tento olhar para mim e me ver nas minhas palavras.

Mas como é difícil, como é difícil ser honesto no país da malandragem, como é difícil ser decente e honesto quando se lê diariamente o jornal e se vê tanta safadeza, tanta corrupção, tanta má vontade para com o outro, tanta falta de gentileza. Como é difícil ser honesto no país que valoriza a “esperteza”, no país que institucionalizou a safadeza, a malandragem, no país do “jeitinho brasileiro”, no país que parece ter a corrupção entranhada na alma.

Como, como não ser pessimista? Como olhar para o lado, para os políticos, para os juízes, para os policiais, para a imprensa, para as manifestações, para o BRASILEIRO e ter esperança, e não ser pessimista?

Mas estou cansado, muito cansado. Cansado da alienação, cansado da corrupção, cansado da imprensa defendendo sempre seus próprios interesses. Estou cansado das minhas críticas, cansado do meu discurso diário contra tudo isso, cansado de reclamar. Estou cansado de ser pessimista, de não ter fé no meu povo, no meu país. Estou cansado de estar cansado.

E no meio do meu cansaço eu me pergunto:

– Seremos todos safados?

– Seremos todos corruptos, corruptores, corruptíveis?

– Seremos todos tão preconceituosos, tão conservadores?

– Então, é isso? Os corruptos se organizaram, os vagabundos se organizaram, os idiotas ganharam força e agora gritam a plenos pulmões na internet, perseguindo, ofendendo, humilhando, calando quem não é idiota? Então não há mesmo esperança? Não adianta sonhar com uma cidade melhor, com um país melhor? Não há bons? Não há honestos? Não há cidadãos de boa vontade, com uma boa dose altruísmo para fazer frente a tanto, corrupto, a tanto vagabundo, a tanto idiota? Não há a quem pedir ajuda?

Sim, eu sei que há. Eu sei que estão por aí, cansados, indignados, fazendo a sua parte, cultivando a gentileza e a honestidade no seu universo particular, mas com sua voz abafada, com as mãos atadas, enquanto os ladrões, os assassinos, os corruptos e os idiotas gritam a plenos pulmões e percorrem as ruas, os tribunais, as jurisdições, as repartições, as assembleias livremente, sem serem incomodados, estão por aí rosnando na internet, fazendo panelaços, torcendo por um partido como um torcedor doente torce pelo seu time, ofende pelo seu time, agride pelo seu time.

Mas enquanto os ladrões, os assassinos, os corruptos e os idiotas andam em bando, aprenderam a se organizar, os bons andam sozinhos, são desorganizados, estão sonhando um mundo que cada vez mais parece uma utopia.

Eu cansei de estar cansado, eu quero uma cidade melhor, eu quero não ser roubado pelos corruptos, ameaçado pelos idiotas, calado pelos preconceituosos.

Eu quero ser cobrado por minhas palavras, por minhas ideias expostas em sala de aula. Eu quero ser cobrado pelos meus sonhos, pelas minhas esperanças, mas quero ser cobrado por outros que sonham e esperam uma sociedade melhor.

Eu quero ser cobrado por aqueles que se indignam, mas que lutam diariamente para não se afundar no lodo da mentira, da hipocrisia, da esperteza. Quero ser cobrado por aqueles que procuram fazer a sua parte, que não mentem para si mesmos, procurando justificativas para agir como os corruptos, como os safados.

Quero ser cobrado por aqueles que se cobram não cair na tentação, que se cobram resistir ao jeitinho brasileiro. Não, não quero ser cobrado por santos, não sou santo, mas quero encontrar aqueles que cultivam suas virtudes, que combatem seus defeitos, suas falhas.

Mas quero ser cobrado por todos eles juntos, organizados.

Enquanto os bons não se organizarem, enquanto aqueles que cultivam a honestidade e a decência não se mobilizarem, enquanto não forem capazes de se identificarem, de se encontrarem, de planejarem uma ação, enquanto os bons não forem capazes de expandir seus sonhos e esperanças para além de suas mentes e de seus universos particulares, continuarão à mercê da maioria (maioria?) corrupta, safada e idiota.

Com quem eu falo?

Eu falo com quem apoia os direitos dos homossexuais.

Eu falo com quem reconhece que vive num país preconceituoso contra o negro, contra a mulher. Um país que mata os seus negros e suas mulheres.

Eu falo com quem acha que o aborto precisa ser discutido, como uma questão de saúde pública.

Eu falo com quem não grita pela redução da maioridade penal e não encara o problema da violência praticada pelo menor como um problema complexo que é.

Eu falo com quem está disposto a sair de sua zona de conforto, a se mobilizar, não para ir gritar na rua pedindo intervenção militar, batendo panela para a tv, mas com quem quer olhar para a sua cidade, para nossa cidade, com mais cuidado, com mais carinho, com mais vigilância.

Eu falo com quem quer se organizar, discutir, debater e agir para o bem.

Estou falando sozinho talvez. Talvez seja apenas mais um desabafo. Talvez eu esteja fazendo papel de ridículo e amanhã seja ridicularizado por isso.

Mas, apesar do cansaço, continuarei gritando e tentando fazer minha parte.

São 02h36min da madrugada. Tenho sono e amanhã pela manhã estarei mais uma vez em sala de aula.

Talvez ninguém se dê ao trabalho de ler esse texto até aqui.

Mas talvez eu esteja falando com você.

Steller de Paula

8 de dezembro de 2013

Amizades à deriva

Filed under: Crônica,Não categorizado — stellerdepaula @ 17:35
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The storyteller

No livro a máquina de fazer espanhóis, de Walter hugo mãe, um olhar profundo e lírico sobre a velhice, o senhor Silva perde a esposa Laura depois de meio século de casados e é colocado pela filha num lar para a terceira idade. Lá, convive com a dor pela perda da mulher que amou, com a raiva pelo tratamento que lhe deram os filhos e com a constatação de que foi posto lá para esperar a morte ir buscá-lo, vendo seu corpo e sua mente desmoronarem lentamente sem que ele nada possa fazer.
Mas, lá, o senhor Silva conhece outros idosos, com histórias diferentes da dele, mas, no fim, unidos num mesmo resto de destino. E no meio da raiva e da dor, o senhor Silva, que sempre vivera em função da família, para a família, fechado no circulo estreito da família, descobre a amizade:

“nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. não era nada esperada aquela constatação de que família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas…”

E, com essa “terrível prenda”, ganha mais um lote de dores, pois precisa assistir à morte de alguns dessa sua nova família, antes que venha a sua.

“precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia.”

É um belo livro, um livro triste, que nos mostra verdades ácidas sobre o ser humano, a vida, a velhice, a morte.
Um livro que li em parcelas, pois cada capítulo exige do leitor uma longa parada, um mergulho em si mesmo.
Sentado na Saraiva, interrompo a leitura e reflito novamente sobre a amizade. Fecho o livro, olho um pouco para trás, para meu passado recente, e recordo algumas pessoas com as quais o convívio me dava grande prazer, dava mais graça às horas do dia. Hoje não mais.

E, quando me questiono sobe o que teria acontecido para que tenhamos nos afastado, percebo que o afastamento não veio por uma ação de um ou de outro. Veio por omissão, veio por inércia. Uma “falta de tempo aqui”, uma “preguiça” ali, um esquecimento pontual, mais outro… e a distância se alargou ao ponto de a voz não ser mais ouvida. O silêncio se instalou.

A vida corre, nos leva aos repuxões, às vezes nos atropela. É preciso que tenhamos atenção para que ela não nos afaste daquilo que vale a pena preservar. É preciso zelo, cuidado com os carinhos que nos cercam. É preciso fazer com que os carinhos, os cuidados, as amizades que recebemos voltem em boa medida a quem nos devotou carinho, cuidado, amizade.

Por que essa incapacidade de conservarmos todos os carinhos? Essa incapacidade de guardar com a gente todos os afetos que nos fizeram bem? Por que precisamos nos afastar de uns para que outros surjam? Não cabe tudo num só coração?
Num determinado momento, o senhor Silva diz: “histórias bonitas aconteciam por acaso, e eu acabara de aprender que a vida tem de ser mais à deriva, mais ao acaso, porque quem se guarda de tudo foge de tudo.”

Concordo, o acaso nos traz pessoas que deixam marcas em nós, que encantam e dão mais sentido à nossa trajetória, amigos, amores sem os quais muitos dias teriam sido completamente vazios e a vida insuportável.

Mas depois de tê-los em nossa vida, por que deixá-los à deriva, distanciando-se de nós cada vez mais? Os amigos são a boia a qual nos agarramos para não nos afogarmos no tédio, no marasmo, na solidão. São eles que nos ajudam a levantar quando a vida nos derruba, que nos ajudam a clarear a visão quando as decepções nos obscurece a vista.

É triste que não saibamos preservá-los todos, que permitamos que a saudade ocupe seus lugares em nossa vida e que nos contentemos com as lembranças do antigo convívio.

Quantas saudades vieram aos seus olhos enquanto você lia? Quantas boas amizades hoje são lembranças? E o que faremos?

Steller de Paula

9 de junho de 2013

Falta gentileza, falta solidariedade; sobra egoísmo e revolta.

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 23:40

Moro numa cidade em que frequentemente escuto as pessoas se queixarem da falta de educação de nosso povo, em que é comum ouvir alguém dizer, após voltar de uma viagem ao exterior, que sente falta da educação do povo, com o outro, com sua cidade.

Mas olho para o lado e não vejo na maioria delas uma pratica cotidiana de cordialidade com o outro. E não estou falando de pessoa com baixa escolaridade, que têm que se preocupar com o que por à mesa para dar de comer aos filhos. Falo de pessoas cultas, com boa condição de vida, que aproveitam o que o mundo do consumo tem a oferecer, como viagens ao exterior.

Comportamentos simples como dar “bom dia”, pedir “por favor”, agradecer por um serviço que lhe foi prestado. Segurar a porta para alguém passar, ajudar a carregar pacotes ou embrulhos até o carro de alguém, ceder o lugar aos idosos, respeitar a fila, jogar o papel no lixo… Você, quando vai ao shopping, ao hospital particular, ao restaurante caro, ao barzinho, vê essas ações com frequência? Eu vejo muito menos do que gostaria.

Fazer isso não é ser, simplesmente, educado: é ser cortês. Mais do que educação sinto falta de gentileza entre as pessoas. Ser gentil com os parentes, com os amigos, com aqueles que nos prestam um serviço, com pessoas desconhecidas com quem cruzamos na rua.

Ser gentil não é gostar de todo mundo, não é rir para todo mundo. Ser gentil não é ser extrovertido. Nem todos são assim, e todos têm lá os seus dias ruins. Ser gentil é saber tirar o olho do próprio umbigo, é tratar bem as pessoas, é saber conviver e tornar os espaços em que convivemos mais harmônicos.

Gentileza tem a ver com educação; educação tem a ver com solidariedade; solidariedade tem a ver com gentileza. E a falta de tudo isso tem a ver com egoísmo.

José Saramago disse em um dos seus livros que “ainda está para nascer o primeiro homem desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, muito mais dura que a primeira, que a tudo sangra”.

Não deixo de concordar. Não é fácil lutar contra meu egoísmo, contra minha preguiça. Não é fácil sair da minha zona de conforto, abrir mão do meu tempo de lazer e de descanso para procurar me preocupar com os problemas dos outros. Não é fácil, eu sei. Eu luto e nem sempre venço.

Mas muitos dos problemas dos outros são meus.

Fortaleza hoje organiza a marcha “Fortaleza Apavorada”. Vejo as pessoas revoltadas com a insegurança, postando mensagens de apoio no facebook, curtindo as fotos e colocando a culpa no Governo e tentando se organizar para cobrar medidas contra a violência.

Sentimentalismo Burguês

É fácil colocar a culpa no Governo.

Mas violência tem a ver com desigualdade social, e desigualdade social tem a ver com educação pública de qualidade.

Muitos que hoje clamam por segurança e organizam a passeata contra a violência são críticos mordazes dos programas de distribuição de renda do Governo. E quantos dão apoio aos professores das escolas públicas quando eles fazem greve lutando por melhores condições? E quantos já fizeram algum tipo de trabalho voluntário ou social?

É fácil criticar o Governo e ficar esperando que alguém resolva os problemas que afetam a todos. É fácil compartilhar fotos de esfomeados na África e posar de revoltado. É fácil ligar ara o “Criança Esperança” uma vez por ano doando R$ 30,00 ou contribuir com o dízimo na Igreja e achar que fez sua parte.

Difícil, como eu disse, é sair da nossa zona de conforto, é ser menos egoísta, mais solidário, mais gentil.  É ser mais político, pois ser político não é apenas votar, esquecer em quem votou, e ficar clamando contra o Governo esperando que ele resolva todos os problemas.

O filósofo Alexis de Tocqueville, em seu livro sobre a Democracia americana, previu, em 1835, um mundo assim:

“vejo uma multidão inumerável de homens semelhantes e iguais, que sem descanso se voltam sobre si mesmos, à procura de pequenos e vulgares prazeres, com os quais enchem a alma. Cada um deles, afastado dos demais, é como que estranho ao destino de todos os outros: seus filhos e seus amigos particulares para ele constituem toda a espécie humana; quanto ao restante dos seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-os e não os sente; existe apenas em si e para si mesmo, e, se ainda lhe resta uma família, pode-se ao menos dizer que não mais têm pátria.”

 

Você também percebeu alguma semelhança com esse nosso mundo?

E você já se perguntou o que pode, realmente, fazer, além de clamar contra o Governo?

Estou me perguntando agora…

Steller de Paula

24 de abril de 2013

Mulheres que não se deixam esquecer

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 17:42
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Chagall 01

Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.”

Pablo Neruda

Era para haver uma data no calendário, um dia especial, para que nós homens pudéssemos beber à lembrança das mulheres que nos esqueceram e as quais nós, nunca, as podemos esquecer.

Gabriel Gárcia Márquez, com a sabedoria de quem muito viveu, diz que “A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como recorda para contá-la”.

Pois um longo fio da minha memória segue o caminho que tracei através de mulheres que viveram em meus pensamentos, me encantando, me assombrando, me sufocando com seus beijos ou com a falta deles, com suas vozes ou com seus silêncios, com suas presenças ou com suas ausências.

Estando esse dia oficializado, eu beberia à lembrança da Mel, a primeira mulher cuja beleza queimou meus olhos e me fez querer ser melhor para estar à sua altura. Fazíamos a alfabetização, no saudoso Instituto Infantil Tia Neuma. Loirinha, cabelos muito cacheados, inteligente, me fez estudar para ser o primeiro da turma, empatado com ela. Naquele tempo eu ainda não sabia, mas foi o primeiro caso a comprovar o quão grande incentivo é a necessidade de impressionar uma garota. (Já a procurei no facebook e não encontrei)

Beberia à lembrança das gêmeas que estudaram comigo no ensino fundamental do colégio Erotides Melo Lima, duas garotas desinibidas e voluptuosas (naquele tempo não conhecia esse sinônimo elegante para “gostosa”), que povoaram meus desejos adolescentes.

Beberia à Jennifer, minha colega de ensino médio no Geo, pele branca, cabelo preto e olhos que era vê-los e meu dia se tingia de azul. Um azul que me intimidava mais que tudo, e foi outro platonismo.

Platonismo e timidez no fundamental, no ensino médio e, como não podia deixar de ser, na faculdade: beberia à Mariana, amiga que tantas vezes ouvi querendo beijar, que consolei querendo curar com meus carinhos.

Ah, como eu beberia à lembrança da Bia, minha primeira namorada, meu primeiro amor, por quem emagreci cinco kg em três dias, depois de a ter perdido por conta do carinho e do desejo sem tamanho por outra mulher que não esqueço.

Beberia à Carol, mas nesse dia especial, beberia sozinho e não na companhia dela como recentemente tenho feito.  Beberia a ela que me ensinou novamente a amar e a perder, que me fez aprender que o amanhã é quase tão importante quanto o hoje, embora ela às vezes se esqueça de que o hoje é mais importante que o amanhã, pois a vida é o agora. Beberia a ela que fez amá-la a distancia por seis meses, convivendo cotidianamente com a saudade e com a insegurança. Só a lembrança da sua presença, da vida que ela irradiava me fez persistir. Beberia a suas cobranças que tanto me exasperavam, mas que tanto me melhoravam Beberia à sua carência, á seu carinho, à sua fragilidade, à sua precisão de mim naquele momento .  Beberia a ela que, como diz Vinícius, quando nos separamos, não foi: partiu.

Beberia à Raissa, japinha linda, tão guardada no meu carinho, que ajudou a curar meu coração ferido, que só falava comigo sem o auxílio das palavras e que por conta desse muro de silêncio eu não aprendi a amar.

Beberia a uma menina-poeta, a quem chamei de tentação, a quem feri sem saber numa confusão de amores entrecortados e cujos olhos inda hoje me lembram doçura e desejo, inocência e malícia.

Beberia à Lari, cujos beijos faziam exuberâncias em mim, cujo abraço era uma “dulcíssima prisão”. Beberia a ela, que me ensinou o mais amplo sentido das palavras paciência e compreensão. Lari, por quem tanto lutei, mas a quem perdi; pois o medo às vezes tem mais força que o cuidado, o carinho, o amor. Beberia à sua lembrança, que no meio de tudo, apesar de tudo e por tudo, ainda me desperta uma vontade de sorrir e ainda me enche de poesia.

Neste dia, eu beberia às mulheres que tive e às que não tive. Àquelas que povoaram minhas fantasias, meus sonhos e minha realidade e, hoje, ainda povoam minha memória. Beberia pelo que me deram e pelo que me tiraram. Beberia às mulheres que amei e às que não pude amar. Nós homens, mais que elas, merecemos esse dia. Um dia para lembrar e homenagear, agradecer e pedir desculpas, reconhecer os erros e os acertos. Pois, no fim do dia, a gente percebe que tudo é por elas.

Steller de Paula

29 de março de 2013

Amigos e uma mesa de bar

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 2:57

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Se me lembro bem, foi Nietzsche quem disse que “temos a arte para que a verdade não nos destrua.”

É madrugada de uma véspera de feriado e estou em casa assistindo How i met your mother, série que acompanho há uns bons anos (está na oitava temporada). Mais uma noite que vivo através daqueles personagens tão diferentes e tão igualmente cativantes. Foi através deles meu escapismo de hoje.

“- E como eu tentaria te parar?

– Não sei… contando como a vida é curta, e se cruzar com um lindo, animado e louco momento tem que pegar enquanto pode, antes de perder o momento?

– Ted, esse momento já está perdido.”

Engraçado como a arte, ao mesmo tempo em que nos proporciona uma fuga de nossa realidade, que impede nossa realidade nos destrua, também funciona como espelho, nos faz mergulhar nessa realidade, questioná-la, querer mudá-la.

Sempre que acompanho a vida de Ted, Barney, Marchal, Lily e Robim, sinto falta de uma amizade como a deles. Mais do que invejar a cara de pau do Barney e seu sucesso com as mulheres, mais do que querer uma Robim pra mim, mais do que admirar o companheirismo e o amor entre Marshall e Lily, mais do que me ver um pouco no abestado do Ted, sinto falta de uma amizade forte, presente, constante como a deles.

Lembro meus grandes amigos do passado, Isaac, Heide, Daniel, Térsio, os Thiagos, Janaína, Priscila… hoje tão longes; amizades que a distância desfez, que o tempo enfraqueceu.

Lembro os amigos recentes que, por um motivo ou outro, só vejo ocasional e separadamente. (Babi em viagem, a pouco tempo do dia do seu aniversário, perguntando: “Amiga, posso comprar meu presente logo aqui?”)

Lembro os amigos-irmãos, Beto e Márcio, já casados, sempre na lembrança mas poucas vezes ao redor da mesa de um bar conversando besteira e dividindo problemas, medos, incertezas tanto quanto alegrias e satisfações.

A vida às vezes nos pega pela mão e vai nos afastando de muito daquilo que a gente ama, que nos importa, que nos faz bem. As obrigações, as contas a pagar, a preguiça… fazem com que a gente se permita o afastamento, encontre desculpas para não aparecer, não ligar, não se fazer presente na vida de quem a gente ama.

É mais fácil a gente deixar de lado aquilo que já está conquistado, o carinho já garantido, a amizade já consagrada, pois a gente acredita e espera que, quando precisar, aquele carinho, aquele cuidado vai estar lá, onde a gente deixou, pronto a nos acolher.

E, assim, não se reserva um tempo pra conversar com a mãe, para fazer algum programa com os irmãos, pra visitar aquela tia que tanto nos acolheu nas férias de infância, para fazer um carinho na avó. E, assim, os amigos vão sendo perdidos pela rotinas, suas histórias se tornando desconhecidas, as conversas superficiais e, quando o encontro finalmente acontece, já não é mais tão fácil conversar besteira e o silêncio, que antes unia, agora constrange.

Sim, uma bela amizade resiste à distância, mas é preciso a presença, ainda que por meio virtual, para que se mantenha a confiança, para não se perca a intimidade, para que o sorriso continue abraçando, para que o peso dos dias não construa uma barreira que separe o carinho, que esfrie o companheirismo.

Ah, claro que um bom bar a ser visitado por todos com alguma frequência ajuda bastante! Meus bons tempos de bar do avião e de Zug que o digam!

Steller de Paula

18 de março de 2013

Um homem só é completo no amor.

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 2:08

Psique revivida por Eros - Canova - Louvre

Um homem só deve correr atrás da mulher que ama, ou daquela que algum temor indica que ele pode vir a amar. Correr para trazer, correr para preservar, correr para manter-se fiel ao amor.

Quando o amor nos começa, difícil é saber o limite, a fronteira que nos separa dele. Como retirar o amor da pele? Como separá-lo do olhar? Como saber onde começa o homem e onde termina o amor que o preenche? E aquilo que não se pode ver é sempre tão mais bonito.

É difícil desenhar o amor. Eu tento por meio das palavras.

Eu conheço o amor que vive em mim como a palma da minha mão. Conheço os meandros desse amor, seus melindres, seus receios, suas falsas esperanças. Eu sei que o amor por vezes me enrubesce os olhos; basta vê-la.

Um homem deve ser devoto às mulheres, deve dar a elas o que elas precisam de atenção, de proteção, de conforto, de carinho, de desejo. Mas um homem só pode dar-se ao amor. Um homem não consegue trair seu amor. E não escolhemos o amor. Contraímos o amor.

Um homem só é completo no amor. É aos pedaços que me entrego às mulheres, talvez esperando que alguma delas consiga juntar os pedaços e montar o todo que outra quebrou. Porque é de amor que se faz a vacina para nos curarmos do amor.

Raiva, ciúmes, solidão, amizade, sexo… eu sei que nada disso vai me curar do amor que tenho, só mais e mais amor.  E não é me aprisionando à solidão que o reencontrarei, é me abrindo ao convívio, procurando aquele perfume de jasmim no canto de um sorriso. Quem sabe se mergulhando no desejo que atraí não encontro o azul do amor repousando lá no fundo. Ao jogar com o desejo, o prêmio pode ser o amor. Sentimentos são imprevisíveis.

Correr atrás da mulher que ama, então, não significa tentar reconquistar o amor dela, quando perdido. O amor, o grande amor, não é egoísta, não é possessivo, não torce contra. Correr atrás, nesse caso, significa lutar contra a saudade, contra o desejo de possuir, contra a vontade de vê-la sentindo minha ausência como sinto a dela. Significar estar perto quando necessário, ajudar quando possível, confortar quando for imperativo.

Meu amor é um querer bem, é querer estar perto para ajudar a suportar suas dores, a carregar seus sorrisos como o silêncio carrega a beleza da noite.

Eu conheço o amor que vive em mim como a palma da minha mão. Eu o desenho com palavras para conhecê-lo. Ele me preenche, mas não me controla. Eu o direciono para o melhor de mim.

Steller de Paula

9 de março de 2013

DIA DAS MULHERES

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 15:54

COLETÂNEA EM HOMENAGEM ÀS MULHERES, QUE TANTO ENCHEM MINHA VIDA DE POESIA! FELIZ DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES!

“As mulheres são encantadas. Encantam-me mais que o mar, encantam-me mais que o luar. Nada me maravilha mais que vê-las, conhecê-las, vivê-las. Ir, aos poucos, descobrindo suas particularidades, seus mistérios. É o modo como sorri, como ajeita o cabelo, como se maqueia as pressas no espelhinho do carro. É o modo como anda, como dança, como se despe, tirando peça por peça, mas deixando os brincos. O modo como se excita, como sua pele arrepia, como sua respiração ofega. É o modo como chora, como em seu peito reverberam os sentimentos, como as lágrimas inundam seus olhos, às vezes lentamente, brotando de sua alma como uma pequena nascente brota do interior da terra, às vezes de súbito, como o inesperado som do trovão.”

“Uma mulher, nenhuma mulher, não deve ser usada para o homem disfarçar sua fraqueza, sua carência, seu abandono. Uma mulher, toda mulher, deve ter ao seu lado um homem concentrado nela, atormentado pelo desejo que sente por ela, com os olhos em poesia pela beleza dela, satisfeito pela admiração que tem por ela.”

“Cada mulher que passou por mim, por minha vida, me deu e deixou em mim muito do que eu tenho de bom. E espero ter retribuído em carinho, em afeto, em honestidade, em delicadeza. Espero ter construído, mais que destruído. Espero estar nelas, tanto quanto elas estão em mim.”

“Havia luz no teu sorriso, teu sorriso resplandece, e, sem perceber, eu me pegava sorrindo e percebia que não havia mais máscara. Se olhava pro lado e me via mergulhado em teu sorriso largo, lindo, alegre como um campo de trigo acarinhado pelo vento, era como se a paz reinasse e não houvesse injustiça, nem decepção, nem solidão.”

“De todas as formas de arte, amar bem a mulher que você ama é a que requer mais especialização, cuidado e sensibilidade.”

“Vou dormir. Eu não rezo, você sabe. Mas toda noite, antes de dormir, tenho um bom pensamento pra ti. Já faz um tempo acredito no poder disso. Sempre um bom pensamento te abraçando, te embalando, pensamento de proteção e carinho.”

Steller de Paula

*Frases retiradas de vários textos diferentes que escrevi nos últimos 3 anos.

5 de março de 2013

Faz-se o caminho ao seguir

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 3:50

The dream catcher

“É inútil cantar o que perdi.” Chico Buarque

Minha amiga mais amada, já quase um ano faz que tu te foste para longe do meu abraço.

Mas nem um só dia deixaste de andar comigo, que a luz do meu amor projeta tua sombra junto a meus passos.

Várias, várias luas passaram, e eu sigo dormindo embalado pela lembrança da tua pele confundindo-se com a minha.

Que é a saudade? É a companhia que eu busco quando o vazio me ameaça tomar conta. É um terreno árido o coração de um homem sem amor. Meu coração é ocupado pela lembrança da tua vida em mim.

Antes de ti, eu seguia firme o meu caminho, sem medos, sem dúvidas; a certeza de que estava preparado para o Amor era o arco que me projetava para frente. Eu ia aonde queria ir, e os desvios também eram caminhos.

Mas na tua trajetória tu te perdeste, e eu te encontrei perdida em meu caminho.

De repente, caminhávamos de mãos dadas, e eu sentia a vida pulsar mais forte na terra sob os meus pés. Fez sol, fez chuva, e eu te amei quando houve luz e quando houve sombra.
Do pouco que dormiste em mim, a cabeça encostada em meu peito, eu pude sentir teu suor mergulhar em minha pele, seguir junto ao meu sangue o caminho de veias e artérias; como que seguindo um impulso vital, enredaste-te em meu coração, fizeste do meu peito teu jardim.

Amar é cultivar cotidianamente a vontade de querer ser melhor. É sorrir às diferenças. E Junto a ti eu era mais eu, eu me descobria a cada dia, que a melhor forma de se conhecer é se doando como eu me doei a ti, amada.

No entanto, eu sabia… enquanto andávamos juntos, procuravas teu caminho, que o meu era triste para ti, exigia uma força que tu não tinhas. E numa curva te distanciaste de mim.

Ainda vives nos meus olhos, no meu sono, nos meus sonhos, junto a mim. Nenhuma mais passeou pelos meus sonhos depois de ti, amada.

Vai teu caminho, canto de luz que alegrou meus dias. Vai teu caminho, que meus olhos ainda te velam à distância.

Steller de Paula

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