Escritos Esparsos

10 de maio de 2015

Amor de Mãe

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Haroldo - Mãe

Renato Russo, na música Pais e Filhos, imortalizou de maneira extremamente bela uma percepção que muitos filhos têm quando amadurecem:

Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo.

São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer.

Para crescer, é preciso bater de frente com os pais muitas vezes. Pais de verdade, daqueles que não se limitam a por no mundo e sustentar, que não se veem apenas como provedores, preocupam-se com os filhos, sofrem com as dores dos filhos, não dormem enquanto os filhos estão na rua e esperam poder guiar os filhos pelo bom caminho, esperam ser capazes de fazer com que eles evitem os erros clássicos da adolescência, temem que seus filhos cometam os mesmo erros que eles cometeram no passado.

Por isso cobram, por isso impõem, por isso, muitas vezes, sufocam. É o amor, que traz o medo, falando. É a experiência, que traz o conhecimento, falando.

Mas é de nós não aprendermos com a experiência do outro, não sermos capazes de aprender senão através de nossos próprios erros. Precisamos teimar, bater de frente, seguir nosso próprio caminho, cair, quebrar a cara e levantar mais forte, mais maduro.

Feliz do filho que recebe dos pais bons conselhos, que faz suas escolhas bem orientado e que, quando teima e erra, tem os pais por perto, não para dizer “eu avisei”, mas para consolá-lo, para ajudá-lo a se reerguer, a enxergar seus defeitos com sabedoria e lhe dar, novamente, bons conselhos.

Feliz dos pais que têm sabedoria para enxergar que criam seus filhos não para si, mas para a vida, que não esperam fazer dos seus filhos uma versão mais bem acabada de si, que não depositam em seus filhos suas frustações, que sabem reconhecer as individualidades daqueles a quem deram a vida.

Feliz dos pais que reconhecem seu papel de educar, de orientar, de vigiar, de punir, mas que sabem equilibrá-lo com a dose de liberdade que todos precisamos para descobrir quem somos e o que queremos, para poder fazer nossas escolhas e encararmos as consequências delas, para que aprendamos com nossos erros e sejamos capazes de andarmos com nossas próprias pernas.

Hoje é dia das mães. E um pai, por mais pai que seja, não pode conceber o que é ser mãe, o que é ver crescer dentro de si o fruto do seu amor, o que é sentir a sua carne e seu sangue gerando vida, o que é sentir um coração pulsando dentro do seu corpo, o que é, antes mesmo de ter o filho entre os braços, pedir aos céus que o protejam, querer ser capaz de sofrer em sua própria carne todas as violências que a vida tiver reservado para seu filho.

Por nove meses, minha mãe me carregou em seu ventre. Por nove meses, cresci protegido pelo seu corpo e embalado pelo seu amor por mim, por seus sonhos para mim, por seus medos por mim.

Não sou capaz de imaginar quão forte é esse amor, quão poderosa é essa ligação. Não sou capaz supor o peso da responsabilidade de se sentir tão responsável por mim, por minha segurança, por minha felicidade.

Quantas vezes não terá sofrido por não poder me dar o que eu pedia?

Quantas vezes não abdicou do seu conforto, do seu orgulho, dos seus sonhos para me dar o que eu precisava?

Quantas vezes não terá se perguntado se falhou ao me ver seguindo um caminho errado?

Quantas vezes não terá chorado ao me ver doente e não ser capaz de me curar com seus abraços?

Quantas noites insone, pedindo a Deus, que me protegesse e me fizesse capaz de atingir meus objetivos?

Mãe, você fez um excelente trabalho. Nada que não tive me faltou. Tudo que me era necessário eu tive. Você sempre esteve comigo quando precisei, quando adoeci, quando sofri por amor, quando cai por consequência de minhas más escolhas. Você sempre me deu a mão e ajudou a levantar, sempre me empurrou para a frente, sempre teve fé em mim e por mim..

Mãe, eu sou forte, eu sou duro. Minha fortaleza é o teu amor por mim. Minha confiança, teu abraço me deu.

Mãe, eu sou um lutador. As lágrimas que choraste por mim forjaram minha resistência. Minha coragem, teu exemplo me deu.

Mãe, eu acredito em mim, acredito que por mais que tudo esteja dando errado, eu posso consertar, que tudo vai dar certo. Minha coragem para o trabalho, teu exemplo me deu. Meu otimismo é o fruto da tua luta por mim. Minha fé em mim, teu incentivo me deu.

Mãe, eu sei ser só, eu aprecio o encontro comigo mesmo. Foi de ti, de tua independência, de tua abnegação, que herdei o gosto pela solidão.

Não consigo imaginar meus dias sem tua presença, sem tua preocupação, sem teu cuidado, sem teu amor se fazendo presença, preocupação e cuidado.

– Teté, tu me ama? – Tu me perguntaste hoje. Eu, mais uma vez respondi com silêncio e te oferecendo o rosto para beijares.

Amo mãe. Nem consigo mensurar quanto. Até me acovardo diante desse amor.

Nunca quis permitir que esse amor se tornasse dependência emocional, psicológica, sempre procurei me defender. Mas tu nem imaginas o quanto esse amor me moldou.

Não sou presente na tua rotina como gostarias, não durmo mais abraçado a ti na tua cama. Mas quando eu durmo, sinto teu amor me embalando e tuas rezas me protegendo. Por isso eu durmo sempre tão bem.

Feliz Dia das Mães!

Steller de Paula

25 de dezembro de 2014

O amor e suas dores. O amor e seus ardores.

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Ao que a gente nasce para o amor.

Quando crianças, dormimos o sono profundo do desconhecimento, embalados pela tranquilidade de não conhecer o poder devastador do amor.

Um dia, já adolescentes, vamos caminhando nossos dias daquele jeito leve e descompromissado; e o amor nos vê passar, sem peso, sem medo, sem ansiedade.

Imperceptivelmente, então, ele se aproxima, arrepia nossa pele com seu toque e nos deixa sua marca.

Daí em diante, do amor não nos livramos mais, pois que o perseguiremos ou seremos por ele perseguidos, e o amor terá um altar em cada esquina por onde passemos.

O amor e suas dores. O amor e seus ardores.

Do amor, às vezes, a gente foge por covardia, por incompreensão, por falta de atenção.

Mas vida mexe com a gente, leva para um lado, leva para outro e, no caminho, consciente ou não, o que a gente procura é uma coisa só: esbarrar no amor, se afeiçoar a outro alguém de modo a querer com ele conviver, construir, dividir, plantar o presente e colher o futuro.

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Tamanho de amor se mede?

De amor mesmo a gente pouco sabe, que nosso entendimento não alcança o lugarzinho onde o sentimento nasce, de onde ele se espalha.

Sentimento amor a gente controla? A gente governa?

Sentimento amor muita vez nasce é onde não devia de.

E cresce na adversidade, pois que a gente idealiza, e a dificuldade faz o que era abstrato ganhar corpo.

A gente quer o impossível. E nas palavras com as quais cantamos nosso amor, ele ganha peso, ganha mais vida.

A gente quer um amor figurado.

Um amor de render belos versos, um amor de canção, musicado. A poesia nasce é no peito da gente, a poesia carece do amor pra se fazer palavra. A poesia inflama o amor, quer vê-lo pegar fogo para que das cinzas recolha versos.

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Por isso, há quem diga que não crê no amor. Que inventaram o amor, que inventamos o amor. Quem diz que não crê no amor é porque tem medo. Medo de encarar o amor e não medi-lo com os olhos. Medo de abraçar o amor e não conseguir abarcá-lo com os braços. Medo de beijar o amor, querendo mais, querendo mais, e não conseguir sorver tudo de que precisa.

O medo é uma roupa com que o amor, muitas vezes, se veste.

Medo de não encontrar; medo de, encontrando, não conquistar; medo de, conquistando, perder; medo de, perdendo, não superar a perda.

O amor exige coragem e, por amor, muita coragem se faz.

Steller de Paula

16 de dezembro de 2014

A Anulação em Face do Amor

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Mark Rothko

Em Senhora, de José de Alencar, Aurélia Camargo é abandonada por Fernando Seixas, que noiva com outra garota. Ainda assim, Aurélia guarda seu amor por Seixas intocado, pois não se sente digna dele, pois o colocou numa altura tal, que não se sente capaz de alcançá-lo e entende que Seixas a deixe por outra, mais digna. Quando descobre que Fernando, na verdade, trocou-a não por uma mulher que amava, mas por 30 contos, Aurélia revolta-se contra o amado, pois ele, assim, se desonrou. Ao se desonrar, Seixas rebaixa-se ao plano mais rasteiro da existência, distanciando-se das alturas onde o amor de Aurélia o tinha posto. Ao se desonrar, Seixas desonra o amor de Aurélia.

As reviravoltas que o a trama traz são bem conhecidas e no fim o amor redime e o final é feliz.

Mas, agora lembrando Aurélia, lembrei histórias que já me foram contadas, ou presenciadas, de pessoas que colocavam o ser amado em tão grandes alturas, que se diminuíam perante ele, que se anulavam.

O amor nos é vendido de tal forma, nós o queremos tanto, ansiamos tanto por ele, que o idealizamos. Amamos amar, amamos o amor e o que ele desperta em nós. Precisamos, então, que alguém se encaixe na visão que construímos de uma relação amorosa, precisamos de alguém que nos desperte o intenso, que nos permita viver o amor.

Diante disso, algumas pessoas deixam-se cegar, diminuem-se, anulam-se perante o outro. Acostumam-se a fazer sacrifícios, a dar bem mais do que recebem, a serem, a estarem pedindo o que deveriam receber espontaneamente.

Os amigos alertam, a família grita, até a voz da razão, sufocada, resmunga lá dentro, mas o desejo de amar fala mais alto: é preciso acreditar no amor, é preciso lutar pelo meu amor, o amor vai fazer as coisas mudarem, melhorarem e tudo vai acabar bem como num livro de José de Alencar!

Sim, é preciso acreditar no amor, é preciso lutar pelo amor, vivê-lo em sua integridade. Mas, nunca, a despeito de nós próprios, nunca pisando em quem nós somos, abrindo mão de nossa individualidade, de nossos sonhos, de nossas necessidades.

Amor é soma, não é subtração. É troca, não doação unilateral.

Drummond, num belíssimo poema, diz que “amor é dado de graça e com amor não se paga”, mas isso é bonito em verso, em cinema, em romance, é bonito naquele amor platônico, à distância, não naquele amor do dia a dia, não no amor que divide projetos pro futuros, que faz planos, que dorme junto na mesma cama.

Um amor que só te tira, que só te exige, que nada te dá além da vontade de cultivá-lo, vai te deixar vazio, repleto apenas de frustrações, ilusões, mentiras e lágrimas.

Steller de Paula

28 de abril de 2014

Amando as mulheres certas

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Fabian Ciraolo 03

Antes de ser uma escola literária, o romantismo é um estado de espírito, uma espécie de paradigma de comportamento, que o Romantismo sistematizou numa linguagem específica, numa perspectiva estética no início do século XIX.

Há pessoas mais racionais, objetivas, céticas e críticas e há pessoas mais passionais, emotivas, mais idealizadoras e sonhadoras. Estas são as que se enquadram no paradigma romântico.

Claro, são os extremos. Muito de nós passeamos entre eles.

Pessoas racionais, quando apanhadas pelo Amor, deslocam-se um pouco para perto do padrão romântico e costumam idealizar o ser amado, costumam idealizar o próprio amor, tornam-se, até, menos céticas.

Todos têm o seu “ideal” de parceiro. Aquela mulher ou homem que atenderia a todas as suas expectativas, que se enquadraria na sua noção de perfeição. E seguem-se os adjetivos: bonita, inteligente, sensual, extrovertida, aventureira…

Eu já tive o meu ideal de mulher muito bem construído em minhas expectativas, mas as mulheres que amei, as mulheres que me despertaram o amor, mostraram-me como ele era uma simples receita sem sentido, pois, na prática, não há receitas, nada é previsível e o ideal não existe.

Não se pode amar o que não se conhece. Quando amamos alguém com quem não convivemos na intimidade, dividindo o dia a dia, amamos, na verdade, um ideal que construímos.

E quantas vezes nos encantamos, nos apaixonamos, passamos a amar alguém que possui determinadas características que não só passavam longe do nosso ideal, mas estavam no rol das características que colocávamos como impossíveis de aturarmos? Como disse em outro texto, não é que o amor nos cegue para os defeitos ou para as características que antes repudiávamos. Não, nós a enxergamos bem, elas ainda nos incomodam. Mas o amor nos faz querer a pessoa apesar dos defeitos. Quando conhecemos os defeitos, as manias, aquelas características que nos exasperam às vezes, mas, mesmo assim, amamos as pessoas, é por que o amor se assentou sobre uma base sólida, saiu da idealização.

Amei mulheres com características que, racionalmente, pareciam incapazes de que me despertarem o amor. Mas o amor às vezes te joga nessas ciladas e surge de onde menos se espera. O que é bom, pois nos desestabiliza, nos faz ampliar nossa capacidade de aceitação, de convivência, de entendimento do outro.

Amei uma mulher farrista e extrovertida; o que me fez me soltar mais, abandonar muito da minha timidez que tanto me exasperava.

Amei uma mulher impaciente, ambiciosa, olhando sempre pro futuro; o que me fez abandonar muito do meu imediatismo, projetar mais, querer mais.

Amei uma mulher muito religiosa, com medos e tabus; o que me fez ampliar minha paciência, meu respeito aos limites do outro, abandonar muito do meu preconceito.

Não foi fácil amá-las, foi turbulento, foi desestabilizante; mas um prazer amá-las, foi recompensador amá-las, foi engrandecedor amá-las.

Não espero mais a mulher ideal, a mulher que me complete. Espero a mulher que me faça bem, que me faça querer ser melhor, que me faça querer estar com ela, agradá-la, acompanhá-la em sua caminhada. Espero a mulher com quem queira dividir meus sorrisos, por quem queira abrir mão da minha solidão.

Claro, ainda crio minhas expectativas. É natural, é humano.

Continuo valorizando a beleza e a inteligência, juntas. Mas entendi que a grande beleza às vezes pode dar lugar a um grande charme e que há diferentes tipos de inteligência, além daquela, acadêmica, que tanto valorizo.

Hoje percebo que gosto de mulher que bebe cerveja, joga sinuca e fala um palavrão bem colocado. Uma mulher que é divertida, que tem um jeito moleque, que carrega consigo uma certa leveza, que estimula meu bom humor; mas que sabe dividir meus silêncios e ajudar a carregar minha seriedade.

Gosto de mulher que sabe dançar. Gosto de mulher atrevida, ousada, segura de si, de sua beleza, de sua feminilidade. Mulher que sabe explorar sua sensualidade. Mulher que caminham “de um jeito como se soubesse que encontraria tudo nos seus lugares certos”.

Adoro mulheres cuja beleza possui uma inocente maldade.

A vida é muito curta para que amemos as mulheres erradas. Ainda que traga dor, ainda que traga sofrimento, há mulheres que valem a pena, mulheres com quem o amor nunca é desperdiçado, mulheres por quem até as lágrimas são justificáveis. Essas são as que devemos amar.

Steller de Paula

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