Escritos Esparsos

29 de setembro de 2014

Oásis de Livros

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 2:46
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Saraiva

Não é por acaso que fiz de livrarias em shopping meus escritórios de trabalho, minhas salas de leitura. Uma conjunção de fatores me levou a isso.
Primeiro, eu sou leitor, leio em qualquer lugar, com ou sem movimento, com ou sem barulho, em pé ou sentado ou balançando em pé no ônibus eu me fecho no livro. Desde criança assim. Hoje mais fácil ainda, com a música ajudando a me isolar através dos fones de ouvido. Também contribui eu ser preguiçoso: em casa não me concentro, pois me chama a cama, me chama a internet, me chama a tv… e não me concentro para ler ou trabalhar.
Mais ainda, amo livros, sou viciado em comprar livro, compro mais do que sou capaz de ler, adoro folheá-los, cheirá-los (quem, como eu, ama os livros sabe que não é estranho parar numa livraria, pegar um livro, e folheá-lo junto ao nariz).
E, por fim, gosto do movimento ao meu redor enquanto eu me fecho. Gosto de poder parar e ver a vida que corre fora de mim, as pessoas conversando, namorando, passeando entre os livros. Gosto de ver os velhinhos, no café, lendo. Gosto de ver as crianças pedindo livros aos pais, os adolescentes com os olhos gulosos olhando-os.
Uma livraria, uma biblioteca, uma sala de leitura pelos mundos que encerram, pelo que despertam, pelo que proporcionam são pequenos oásis num mundo muitas vezes desértico.
E há dois lugares em que uma bela mulher, desconhecida e vista de longe, se torna incrivelmente charmosa e tem seu poder de atração intensificado: numa pista de dança e entre prateleiras de livros.
Levantar os olhos do livro e, susto, ver uma bela garota folheando os livros com interesse é sair de um mundo e mergulhar em outro. É imaginar o mundo que ela esconde, é tentar enxergar por trás da beleza, enxergar aquilo que, não sendo externo, enfeitiça. Uma mulher bonita com um bom livro na mão é sempre mais bonita, porque já parece interessante.
E imagino uma mulher que não é de se apenas admirar, mas uma mulher para se conhecer, uma mulher para se viver. Uma mulher com quem conversar, com quem se dividir gostos, interesses, curiosidades, paixões.
Caio Fernando Abreu diz que “Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Não alimento a esperança de começar um relacionamento de comédia romântica, de encontrar a minha alma especial folheando o mesmo livro que estou lendo e que nossas almas se conectem. Mas é bom imaginar que almas semelhantes e interessantes passam por ali, crianças, velhinhos e – ah, as possibilidades – belas mulheres.

Steller de Paula

19 de setembro de 2010

Ser Paternal sem Ser Pai

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 5:17
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Pintura de Michelangelo

O que me levou a ser professor?

Não é uma pergunta que costumo me fazer, mas é uma pergunta que freqüentemente escuto.

Não sei responder com exatidão. Resolvi fazer Letras porque não me via trabalhando com Direito e porque amava Literatura.

Comecei a lecionar porque era a alternativa mais óbvia para quem cursa Letras. Quando comecei o curso, eu sabia que em algum momento iria tentar ser professor. Só não sabia que isso um dia ia fazer parte da definição que faço de mim.

Somos, todos, muito daquilo que fazemos. Eu sou professor.

Sou professor a maior parte do meu dia, quase todos os meus dias. E não me vejo sendo outra coisa com tanta satisfação.

Eu não me vejo sendo só um, a lidar sempre as mesmas variantes.

Ser professor é ser múltiplo. É ser um em cada aluno, em cada turma, em cada lembrança ou esquecimento de ex-aluno.

Eu sou o amável e o grosso, o divertido e o chato, o alegre e o sério, o que interage e o que é fechado, ao mesmo tempo, no mesmo dia.

Não há rotina na vida de um professor.

Pode haver um milhão de obstáculos e dificuldades, mas não há monotonia.

Cada dia é um dia, não a cópia do anterior. Pois cada turma é um universo, cada aluno é um mundo.

Uns giram mais ao meu redor, por gostarem de mim ou por não gostarem de mim, por darem trabalho ou por serem participativos. – Ou eu giro ao redor deles?

Outros giram mais distantes, esquivos, às vezes indiferentes… – Ou eu me perco e não alcanço sua órbita?

Mas cada um deles compõe um todo que me completa, que me ajuda a me definir.

A sala de aula é minha terapia.

A sala de aula é o bar para onde vou beber para esquecer.

Eu bebo a vitalidade, a juventude, a alegria dos meus alunos.

Eu bebo o interesse, a curiosidade, a surpresa diante da descoberta de todos eles.

Eu bebo o imediatismo, a irresponsabilidade, a imaturidade de cada um deles.

E eles me dão bem mais do que eu posso dar.

Por isso eu me esforço, eu me preocupo, eu cobro demais, eu sofro quando vejo um sofrendo.

Sofrendo porque não vai poder ir ao o show de uma banda que adora, chorando porque tirou uma nota baixa, machucado pela perda do amor da vida toda que será logo esquecido amanhã.

Eu sofro quando eles sofrem por qualquer uma daquelas coisas que para nós são tão pequenas, tão banais, mas que, para eles, assumem uma significação tão grande que diante daquilo a vida perde sentido, naquele momento. Tudo tão intenso. Tão absoluto.

Eu sofro vejo que a vida começa a dar as primeiras rasteiras, às vezes cedo demais, cedo demais, de tantas que ainda dará.

Mas é um sofrimento que vem da alegria do afeto. É um sofrimento que é consequência de se sentir conectado.

Ser professor é estar diariamente saudando a vida.

Eu vivo cercado de vida, cercado de sorrisos e de carinho.

Carinhos de todos os tipos, da paixão platônica, à amizade. Do abraço expansivo à batidinha tímida no ombro.

E, enquanto escrevo, lembro daqueles que fazem meu dia mais leve, mais divertido, mais repleto de carinho.

Lembro dos que já não fazem parte do meu cotidiano, que agora estão encarando o desafio de crescer longe dos meus olhos.

E é gratificante, emocionante, encontrá-los por aí, crescidos.

É um orgulho. Mas não me orgulho de mim, não me orgulho por sentir que fiz parte. Sinto orgulho deles, por vê-los se sair bem nessa roda viva.

Ser professor é estar com os sentimentos sempre à mão.

Ser professor, para mim, exige um tipo de sensibilidade que eu não sei se um dia chegarei a ter, mas que busco todo dia alcançar.

É a sensibilidade de entender o outro, de lidar positivamente com as diferenças.

É a sensibilidade de saber ler os sinais, de não se afastar ante a raiva, ante a indiferença, ante a tristeza.

É a sensibilidade de saber gostar sem ser gostado, de se muitas vezes impotente, desnecessário, de entender que a preocupação que sente muitas vezes não lhe cabe.

É a sensibilidade de conviver também com a frustração.

Por isso meus alunos são minhas crianças.

Ser professor é ser paternal sem ser pai.

Steller de Paula

29 de agosto de 2010

O desejo é a pele do Amor.

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 17:19
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Pintura de Oskar Kokoschka

 

Os chineses antigos tinham belas metáforas para tudo o que envolvia o sexo. Chamavam, por exemplo, o ato sexual de “As nuvens e a Chuva” – o que representaria os céus e a terra a fazerem amor – e o orgasmo de “O Estouro das Nuvens”. 

E para que as nuvens estourem não é preciso amor, principalmente para os homens. 

A grande maioria dos homens separa muito bem amor e desejo. 

Há, sim, como desejar, e muito, sem amar. 

Sexo é prazer. Ponto. Sexo sem carinho é prazer. Sexo com carinho é muito prazer. Sexo com amor é quase uma experiência mística. 

Talvez por isso as mulheres (grande parte) não conseguem separar, como os homens, sexo e amor. 

Parece que as mulheres sentem o prazer sexual de uma forma diferente, uma espécie de prazer psicológico muito forte, na consciência do desejo. O que não quer dizer que elas devem abrir mão do prazer físico. 

É lindo ver uma mulher durante o orgasmo. 

É lindo ver o êxtase, o torpor, o abandono a que elas se entregam. 

A mulher, quando atinge o orgasmo, sente a terra se mover. 

A mulher, quando goza, tem sua alma expandida; seu corpo inteiro é sensação. Por isso, de alma expandida, com o corpo inteiro sentindo a si mesma, ao homem, a terra e ao céu, é tão fácil para a mulher o recomeço, a continuidade. 

O homem, quando goza, é triste. 

É triste porque é término. 

É triste porque ele não pode se abandonar a si mesmo, pois se cobra o recomeço. E o recomeço não é tão imediato. 

O homem separa muito bem amor e desejo. 

Mas o homem, por ser triste o orgasmo masculino, por ser vazio comparado ao da mulher, precisa bem mais do carinho, do amor. 

É no carinho, ou no amor, refletidos no abraço, no aconchego após o orgasmo, que o homem pode completar seu caminho para as nuvens. 

Sem carinho, sem amor, depois que goza, o homem fica no limbo. Nem toca a terra, nem atinge o céu. 

E é o carinho, ou o amor, que tornam, para o homem, mais fácil o renascer do desejo. 

O amor é lascivo, se excita com a lembrança, com o pensamento, com o cheiro. O amor antecipa o toque. 

O desejo mora na ponta dos dedos, e o amor no abraço dos olhos. 

O amor abraça, acolhe, conforta e aquece com o olhar. O olhar do amor percorre a espinha e arrepia, desnuda o desejo e excita. 

O amor não veste roupa e vai embora. Ele deita e deixa o corpo secar na quintura do outro corpo. 

Mas não é fácil conciliar amor e desejo. 

Quando se tem carinho por quem se tem desejo, já é uma conquista. 

Mas o fato é que o amor intensifica o desejo. 

O amor é o desejo que contraria o desejo de não desejar. 

O homem nunca vai abrir mão do desejo, com ou sem carinho, com ou sem amor. 

A mulher não deve abrir mão do desejo, mesmo com carinho, mesmo com amor. 

Nem sempre se acha o amor, ao esbarrar com o desejo. 

Mas o desejo vem de carona com o amor. 

O desejo é a pele do amor. 

Steller de Paula

24 de agosto de 2010

Grito de Amor

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 15:56
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Pintura de Frida Kahlo

Dia 19/08 foi o aniversário da minha mãe. Eu não dei os parabéns. Lembrei que também não a parabenizei no dia das mães. Mesmo comprando presente, não dei parabéns, não fiz um cartão, não falei nem escrevi as palavras bonitas que sou capaz de pensar e dizer e que ela há muito espera ouvir.

Não consigo dizer à minha mãe que a amo.

Não lembro se criança eu dizia. Sei que cresci e não consigo dizer. E ela também não sabe como isso me dói, dói em mim não dizer, como dói nela não escutar.

Minha mãe abarca todos os estereótipos de mãe. Ela pega todos eles e os funde, resultando em um amor pelos filhos que chega a anular o amor por si.

Minha mãe educa, ensina, aconselha. Mas minha mãe vai junto se pegamos o caminho errado, apesar de tudo.

Ela sabe o caminho, ela aponta o caminho. E ela estará no início, se pegarmos o caminho errado e voltarmos, pronta a nos consolar e orientar. Ela estará no final, se pegarmos o caminho mais longo e montanhoso, para nos acolher, nos confortar, no fortalecer.

Mas o mais importante é que ela nos deixa escolher o caminho (quase todos), não faz a escolha por nós.

Minha mãe apóia não concordando.

Minha mãe entende não apoiando.

Minha mãe concorda não entendendo.

Ela deixa, mas que deixa, ela espera que aprendamos com nossos erros.

Minha mãe caminhou, e até hoje caminha, por nós, quando, por alguma fraqueza – medo, insegurança, orgulho, vaidade – nós somos incapazes de percorrer o caminho necessário.

Por nós, minha mãe não tem medo, orgulho, vaidade. E se tem, por nós, ela vence a todos.

Minha mãe é o sacrifício. É a abnegação. É a doação.

Minha mãe parece imortal. Mesmo com todas as suas fraquezas, com todas as doenças, minha mãe parece imortal, parece que vai resistir a mim, a nós.

Mas algo lá no fundo me grita que não, me grita que não, me grita que não.

E eu, que tão bem lido com a morte, com a perda, me assusto diante desse grito.

E não única vez em que a mortalidade dela se mostrou de forma mais cortante, eu chorei. Chorei um choro que não soube explicar.

É grande demais o amor de minha mãe. É grande, é corpóreo, é onipresente.

Talvez seja grande demais para eu carregar, grande demais para eu retribuir.

Talvez eu precise lutar contra seu peso, para suportá-lo, para não sumir sob ele.

Talvez tudo isso, a grandeza desse amor, a intensidade desse amor, a minha pequenez diante desse amor, a necessidade de não me anular perante esse amor e a consciência da mortalidade de minha mãe, sufoque as palavras, reprima as demonstrações de afeto e carinho. Ainda que o sufocar e o reprimir me tornem mais pequeno.

E eu espero ter metade dessa capacidade de amar para dar aos meus filhos.

Certamente ela não lerá esse texto, mas, mãe, esse é meu grito de amor. É o eu te amo que eu não sei dizer, é o abraço que eu não consigo dar.

Parabéns! Parabéns por mais um ano carregando e extravasando tanto amor!

 Steller de Paula

23 de agosto de 2010

O Amor Teima em Não Acabar

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 0:38
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Pintura de William-Adolphe Bouguereau

Quando um relacionamento termina, quando o vazio toma conta do peito e o pensamento transborda de confusão, poucas situações nos assustam tanto quanto reencontrar a ex.

Saber que vamos permanecer vivendo na mesma cidade que a ex nos causa transtornos, graves transtornos dissociativos. Surgem em nós o masoquista, o egoísta, o abnegado, o confiante e o inseguro. Eles nos tomam assim que colocamos o pé para fora da soleira da porta. Diante da possibilidade de esbarrar com a ex a qualquer momento, sofremos de múltipla personalidade. E cada personalidade tem seu plano, fica imaginando como vai agir caso o temido e esperado encontro aconteça.

Não, não quero vê-la. Não me importa se ela está bem, se está mal.

Quero, quero vê-la. Saber como ela está reagindo.

Tomara que ela esteja mal, abatida, com olheiras. Então eu vou consolá-la, abraçá-la.

Tomara que ela esteja mal, abatida, com olheiras. Então eu estamparei meu ar mais vitorioso.

Espero que ela esteja bem, apesar de tudo. E que ela não perceba que me dói.

Espero que ela esteja bem, apesar de tudo. E que ela perceba que eu sofro por nós dois.

É bom que ela esteja sozinha. O constrangimento é menor…

É bom que ela esteja acompanhada. Assim, tudo se encerra de uma vez.

Não, é bom que eu esteja acompanhado. Meu deus, preciso de uma companhia!

A confusão dá o tom. E não sabemos o que queremos. Sabemos o que não queríamos. Não queríamos que tivesse chegado até aquele ponto. Que o amor não tivesse sido gasto, que não tivesse acabado. Que a companhia dela ainda fosse nossa pele.

Mas o amor acaba. E precisamos enfrentar o fato que de que, de um dia para o outro, não sabemos o que mais importa sobre aquela que durante muito tempo era o sorriso estampado em nossa face. E precisamos lutar contra o orgulhoso em nós, contra o egoísta em nós, contra o inseguro em nós. Para que o que era amor não se transforme numa onda de esquecimento e ingratidão. O amor pode acabar, mas não pode nos abandonar.

Recentemente reencontrei minha última ex-namorada. Não foi o Acaso, o Fortuito, o responsável pelo encontro. Não sei quem foi.

Sei que, após meses e meses sem notícias, vejo a janelinha do MSN com o nome dela piscando em minha tela.

Não dizia “oi”, não queria saber como eu estava. Dizia que precisava de um conselho. Um conselho sobre homens, sobre relacionamento, fez questão de frisar.

Lembrei de uma frase que mandei quando ela começou a aprender francês:

 “L’amour est un sentiment égoïste. Je veux vous à moi non pas parce que Je t’aime, mais parce que j’ai l’amour de vous. J’ai vraiment l’amour est de le laisser partir. Aller.”

 Foi uma conversa longa e de vários conselhos.

Na semana seguinte, o telefone toca e ela me convida para comer algo. A conversa precisa da presença.

Minutos depois, estávamos ambos sentados frente a frente, conversando, como tantas vezes num tempo que pareceu tão remoto e tão ontem. Nós tão os mesmos e tão outros.

Quando a vi, não senti um frio percorrendo minha espinha e arrepiando os pelos da minha nuca, como aconteceu na primeira vez que nos vimos depois do término. Minha cabeça um turbilhão que o corpo escondia, que o sorriso disfarçava.

Ela falou do trabalho, das conquistas recentes e mirou no futuro como sempre. Falou dos meus textos, perguntou das minhas novas tatuagens e elogiou o modo como eu estava vestido. Na verdade, ela se gabou pelo modo como eu estava vestido. E ela pode se gabar. Eu sinto que existe um pouco dos seus olhos nos meus olhos.

Existe um pouco dela no meu jeito de andar, de trabalhar, de querer da vida.

Existe muito dela no meu jeito de me pensar, de amar, de querer de mim.

Olhando para ela ali, rindo enquanto ela se gabava, eu percebi que o amor não acaba.

Verdade que eu não amava mais aquela garota de 23 anos, linda e metida, sentada a minha frente. Mas eu ainda amo aquela garota de 20 anos, linda e metida, com quem eu namorei e que anda comigo quando eu ando, que escolhe roupas comigo quando eu escolho, que ama comigo quando eu amo e que quer da vida e de mim o que eu quero.

Amo o que ficou dela em mim. Não senti ciúmes, nem desejo. Aquela garota foi minha, é minha, está guardada, e ninguém a teve, nem terá, como eu a tive. Suas qualidades e defeitos. Seus rompantes de alegria e de raiva. Seus planos e seus medos. E tudo isso atuou em mim, como nela. Tudo fez parte de mim, como dela.

Indo embora, depois do encontro, lembrei da minha primeira namorada. Lembrei de como também tenho a agradecer a ela. De como tenho a agradecer a cada mulher que amei e que me amou, a cada mulher que dividiu comigo mais que seus beijos.

Cada namorada que tive me tornou um homem melhor para a mulher que encontrou depois.

Cada mulher que passou por mim, por minha vida, me deu e deixou em mim muito do que eu tenho de bom. E espero ter retribuído em carinho, em afeto, em honestidade, em delicadeza. Espero ter construído, mais que destruído. Espero estar nelas, tanto quanto elas estão em mim. Porque o amor não acaba. Ele fica guardado na lembrança, fica por baixo da pele, fica estampado no sorriso, extravasa nas lágrimas e no suor. Cada amor é um amor, mas o amar é um só. Amor não acaba, não se esquece, não se supera. Amor se guarda, acumula, cresce e se aperfeiçoa.

1 de agosto de 2010

Da difícil Arte de Namorar Mulher Bonita

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 19:27
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* Tela de Francesco del Cossa

Namorar uma mulher muito bonita não é fácil. É desafiador e trabalhoso.

Uma mulher bonita exige um homem seguro e confiante, para que a atração não se torne desejo de posse e o amor, prisão.

Uma mulher, nenhuma mulher, merece ser vigiada, ter sua liberdade cerceada em um relacionamento. Se não há confiança, não há como a relação ser saudável.

Rolar ciúme é normal, para ambos. Quando a mulher é muito bonita há de ser ter cuidado para que o ciúme não vire paranóia, para que o ciúme não morda a cada olhar de outros homens na rua, a cada indireta dada pelos que a cercam, para que o ciúme não grite cada vez que o telefone tocar.

Uma mulher cuja beleza se destaca exige um tipo diferenciado de compreensão, pois ela pode cultivar admiradores onde quer que vá e ainda assim ser a mais fiel das namoradas. Seu ego se nutre dos elogios que ela cultiva, dos olhares que ela arranca quando passa. Isso não quer dizer que ela seja infiel.

Então que seja o namorado seu maior admirador. A mulher bonita exige sempre um brilho nos olhos e um suspiro nos lábios daquele que a namora. Deve-se estar sempre surpreso perante sua beleza, que se renova com os elogios.

Não basta ela se sentir amada, se saber admirada. Ele quer ser cantada. Ela precisa ouvir. A poesia tem que brotar dos seus olhos diante dela.

Toda mulher exige que o homem seja observador. A mulher bonita exige que ele seja meticuloso. Há de se ter que notar o brinco novo, o esmalte novo, o volume maior dos cabelos por causa do novo shampoo. É o mínimo que se pode fazer. É o reconhecimento por todo o esforço que ela faz para estar sempre linda para você (mesmo que ela se embeleze muito mais para si mesma).

O homem tem que ter vários olhares para a mulher bonita. Tem que ter o olhar que se ilumina quando ela surge; o olhar que despe, que rasga a roupa, que a faz se sentir desejada; o olhar que acolhe, que abraça e que diz “és minha”. E cada um tem seu momento, e descobrir o momento certo de cada um é quase uma arte.

A mulher bonita quer ser vista. A rua é uma passarela e ela sempre quer estar pronta para o desfile. Não é fácil para o homem entender isso. Perceber que o muito tempo gasto se vestindo para ir fazer compras é importante. Dificilmente uma mulher veste “qualquer coisa”. Uma mulher bonita então…

E eu aprendi, a golpes de olhares decepcionados, que o namorado da mulher bonita não pode ser dar ao luxo de vestir qualquer coisa.

Lembro de um desses olhares em especial, lançado pela minha última namorada. Cheguei em sua casa numa quinta à noite, depois de dar dez aulas, e só queria tomar um banho, colocar um short e deitar abraçado a ela. Ela me esperava para sair. Diante do meu desânimo e falta de coragem ela fez uma concessão: “Pois vamos só comer um cachorro quente aqui na Virgílio Távora.” Era só descer e andar dois quarteirões, então o acordo foi fechado. Ela foi tomar banho. Eu, de banho já tomado, me vesti enquanto ela estava no banheiro e fui para a sala assistir alguma coisa.

Fui me entregando ao cansaço, e ela tomando banho, o cansaço foi me envolvendo, e ela se arrumando. Quase cochilei, e ela se arrumando…

Quando enfim ela termina e surge na minha frente linda e perfumada, como quem vai a uma festa. Nossos olhares se cruzam e ali morreu nossa noite. Eu a olho surpreso pela produção toda para ir comer cachorro quente a dois quarteirões de casa. Ela me olha decepcionada por eu estar de bermuda, camiseta e havaianas para sair com ela. Não nos entendemos. E não houve jeito de consertar o desentendimento na hora. Nem minha incompreensão, a decepção dela permitiram. Depois, percebi que o errado era eu. Meu desleixo machucou sua beleza.

Hoje deixo a dica: se sua namorada quer sair, a acompanhe. Vista-se de forma que ela sinta orgulho de estar ao seu lado. E caso sua namorada seja bonita, amigo, esforce-se para estar a altura dela. Porque mulher bonita quer, e merece, ser admirada, contemplada. Às vezes ela quer, inclusive, ser invejada. E na cabecinha dela pode ser que você faça parte disso, pode ser que ela te veja como algo que acrescenta. Ela quer, e precisa, ter orgulho de você. Segurar a sua mão como quem diz “É meu. Eu conquistei”. Sim, você é o prêmio. Sua presença a engrandecendo ainda mais. Para uma bela mulher, o namorado é como o coadjuvante perfeito: não rouba a atenção que deve ser dedicada a ela, mas também não estraga a cena.

De todas as formas de arte, amar bem a mulher que você ama é a que requer mais especialização, cuidado e sensibilidade.

28 de julho de 2010

De amizades que se perdem e permanecem

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 6:30
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Pintura de Héctor Becerini

Bem disse que o próximo texto ia ser sobre reencontro com ex-namorada. Mas por esses dias estava correndo com o mp3 no ouvido quando escuto bem longe, quase no meio da canção, meu nome sendo chamado. Parei, tirei os fones e ouvi novamente. Ao me virar, levei alguns segundos para reconhecer quem me chamava. E era minha infância que gritava por mim, na figura do meu primeiro grande amigo, Isaac.

Isaac e eu começamos a estudar juntos no pré-escolar. Morávamos perto um do outro e quando eu não estava na casa dele, brincávamos na minha.

Éramos realmente bons amigos. E estar diante dele ali, depois de tanto tempo, no mesmo bairro onde nascemos e de onde me mudei aos oitos anos, voltando há pouco mais de dois, me trouxe uma boa parte da infância às retinas.

Nos encaramos, apertamos as mãos e, depois dos “Como vai?”, “Tudo bem!”, ficamos meio sem ter o que dizer. Nos despedimos, coloquei meus fones nos ouvidos e voltei a correr, pensando que esse reencontro foi injusto com a antiga amizade.

Não foi a primeira vez que me vi em uma situação dessas: perceber que a distância e a falta de esforço, principalmente a falta de esforço, transformou uma amizade bonita em meras imagens que busco na memória vez ou outra quando brinco com o passado como quem brinca com pecinhas de lego.

Enquanto corria, não lembrei onde a amizade se perdeu. Em que momento ela ficou pelo caminho; eu caminhando rápido demais e ela sem fôlego para me acompanhar.

“Porra, eu briguei por aquele cara!” – pensei. E eu brigo pelos meus amigos. Hoje, mudei de forma que brigo mais por eles que por mim.

Foi uma lembrança que me fez sorrir. Tínhamos sete anos e fazíamos a segunda série. Havia na nossa turma um garoto que já havia repetido o ano duas vezes e, portanto, era bem maior. Certo dia, na hora do intervalo, enquanto jogava bafo, ouvi um burburinho. Apanhei minhas figurinhas e corri com meus colegas para ver o que era. Era o garoto ofendendo o Isaac, só lembro que era algo relacionado a sua cor de pele e o fato de Isaac ser negro sempre foi um detalhe que passava completamente despercebido. Não lembro se eu sabia o conceito de racismo, mas lembro que ceguei e comprei a briga. O ofendi, ele gritou de volta e eu o esmurrei até que o servente me interrompesse no que me parecia imensamente justo. Diante de certas coisas nunca aprendi o caminho do diálogo. Quando é comigo, normalmente pego o caminho do desprezo, do silêncio, do fingir que não é comigo. Quando é com amigos ou família, não penso, quero machucar. Talvez não seja correto, mas me parece justo. Amizade e família merecem meu lado ruim para os que ofendem, para os que machucam.

Briguei por causa do Isaac e foi uma briga justa, como outras que comprei mais para frente. Hoje me pergunto se briguei para manter a amizade, depois que me mudei e fui morar em outro bairro.

Amizade requer dedicação, exige esforço, sacrifício, não apenas empatia. Amizade requer presença, mesmo na ausência. Amizade é ter o que dividir, o que compartilhar. É um contínuo exercício do querer.

O amigo é um outro eu que escolhi manter por perto por não ser eu.

Quando a distância retira dos amigos o que eles têm em comum, o que eles costumam dividir, a amizade arrefece, até que não passe de lembranças. A falta de assunto mata a amizade, pois só bons amigos se entendem em silêncio. Quando não há amizade, o silêncio é constrangedor. Só amigos e amantes passeiam pelo silêncio sem notar o seu peso.

Pode a amizade superar a distância, desde que não haja distanciamento.

Eu e Isaac nos distanciamos. Ele ainda permanece sendo o grande amigo da criança que fui. E nessas linhas, de certa formas, estão escritas as brincadeiras, as idas e as voltas diárias para a escola, o cuidado de um, o companheirismo do outro. Duas pequenas crianças que começaram juntas a aprender a ser gente, a enfrentar o desafio que é crescer. E, por ser um aprendizado tão difícil, um desafio tão penoso, e que ainda não se completou, não foi vencido, preciso parar, voltar no tempo, e encontrar lá atrás um pouco do que fui, do que fui e se perdeu, do que fui e ainda se encontra em mim.

23 de julho de 2010

Não é o tempo que cura

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 4:38
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Tela de Hopper

Não acho que o tempo cura tudo. Dizer que o tempo cura tudo é quase uma metonímia.

Nós só precisamos do tempo para nos curarmos. Para permitir que a desistência, ou o esquecimento, ou a compreensão, ou a tolerância atuem. É um processo de auto-recuperarão. Às vezes demora muito, às vezes pouco. Algumas vezes, o orgulho ou a mágoa, não deixam que o processo se complete.

Nesse último mês pude confirmar que o esquecimento atuara em mim ao longo do tempo, que, imperceptivelmente, um processo havia se concluído.

Não sou um cara que se apaixona facilmente. Sou um cara que demora pra desapaixonar. Amizade, apego, carinho, instinto protetor: tudo isso me deixa em direção aos outros com certa facilidade. Até surpreende a cara de turrão.

O amor que vem do encanto e da paixão, esse não surge facilmente. Esconde-se dos corpos que tenho vivido. Vivências de respeito, carinho e tesão. Estar com uma mulher e não amá-la é dar ao corpo o que o corpo exige e à mente o que a mente precisa. Precisão e exigência de carinho, de contato humano, de descoberta e de esperança.

Não consigo me apaixonar com a mesma velocidade com que vejo meus conhecidos se entregando.

O que me dá duas paixões, dois amores.

E duas ex-namoradas.

Ter ex-namorada pode ser complicado, perigoso. Tentar manter contato com ex-namorada assim que termina o relacionamento é como reagir a um assalto. É instintivo e estúpido. Bater no ladrão é bom, te enche de satisfação, mas depois a gente acaba pensando “Que merda foi essa que eu fiz? Eu podia ter me lascado!” Às vezes quem reage se lasca.

É cômodo para duas pessoas que até pouco namoraram saírem juntos e transarem ocasionalmente. Na maioria dos casos o relacionamento se desgasta, mas o tesão não. Com o término, acabam as brigas, as cobranças, as promessas; e a transa até melhora, pois são dois corpos que se entendem, se conhecem, se curtindo sem compromisso.

Aí mora o perigo. O perigo habita as gotas de suor que brota na cama. Ele percorre os corpos, mas demora para ser notado.

O compromisso foi quebrado por um dos dois. E um dos dois tenta se recompor naquela transa. Para um é prazer, para o outro é esperança. Alguém sairá mais magoado ainda. Principalmente se descobrir que não é a única fonte de prazer. Já vi isso.

Os dois terminaram, passada a fase do cada um na sua (bem curta, quase sempre), veio a fase do sair para ficar. Ela tinha terminado. Ele ainda a amava. O sexo era ótimo e ele ainda tinha esperança de reconquistá-la, até que ela avisa que conheceu outra pessoa e que estava ficando sério. O perigo que habitava as gotas do suor de prazer se transfigura na mágoa das lágrimas de dor.

E é muita dor. O grito vem da pele acariciada, da boca beijada que cospe insultos.

É a dor da esperança soterrada. A dor do saber-se ingênuo, idiota.

Não, ele não podia acusá-la, dizer que ela a usou. Os dois se curtiram, se tiveram e os dois tiveram prazer, como tem que ser. O problema estava em expectativas diferentes. Para ela os sentimentos eram afeição, carinho, respeito, atração. Para ele era tudo isso e o amor. Para ela não havia amanhã, era o hoje sendo bem vivido. Para ele era uma tentativa de transformar o hoje no amanhã, reconstruindo o ontem.

O ontem vira um borrão, o hoje descolore e para o amanhã não se conhece caminho.

É nessa dor que entra o tempo. Como eu disse, o tempo não vai curar essa dor. O tempo não resgata o que ficou do ontem, não torna o hoje aprazível, não faz do amanhã o desconhecido que atrai.

Isso é responsabilidade de cada um. É um processo de reconhecer a fraqueza, aprender a viver com ela, fazê-la sua companheira e dela extrair força, sair mudado, mais forte, mais imune.

Leva tempo. E o tempo é diferente para cada um. Requer força. E cada um tem a força que cultiva.

Um término de relacionamento pode acarretar muitas coisas: trauma, barreira, desconfiança, ferida; fortalecimento, recomeço, aprendizado, evolução.

De tudo, podem ficar lembranças boas, daquelas nos comprovam que a vida vale a pena, ou ruins, daquelas que vão fundo no nervo e machucam sempre.

Eu tenho duas ex-namoradas e muitas lembranças boas.

A primeira, hoje, depois de todas as etapas cumpridas, está distante fisicamente, embora presente no que me tornei para a segunda namorada.

A segunda ex reapareceu fisicamente depois de um bom tempo. Uma ressuscitada brilhando na janelinha do MSN. Tentamos, vamos tentando, ser amigos. E a amizade é o que de mais puro se pode restar de toda a profusão de sentimentos que envolvem um relacionamento e o término dele.

Esse reencontro merece um texto só dele.

2 de julho de 2010

Um Instante de beleza e deslumbramento.

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 2:27
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Eu sei que no computo geral dos dias, de todos os dias, o que fica, o que resta, são momentos, lembranças esparsas de momentos.

Os dias passam, se sucedem, e nós passamos com eles. Às vezes, nem nos damos conta de que já passaram tantos dias – e tão rápido! – nuvens arrastadas pelo vento.

A maior parte dos dias se vão sem que nos demos conta, sem que prestemos atenção naquelas horas que perdemos (ou ganhamos?) imersos na rotina, com os olhos vendados para as pequenas belezas que se escondem nos atos contínuos, insensíveis às gotas de doçura, de carinho, de deslumbramento que, por tão pequenas, não nos encharcam, mas nos refrescam a alma.

Nós queremos ser encharcados de beleza, de doçura, de carinho, de deslumbramento. São dos dias de profusão ou intensidade que nos lembraremos. São das lembranças desses dias que retiraremos a conclusão de que, no fim, valeu a pena ter vivido, de que a vida foi bem vivida, bem aproveitada, foi gasta com satisfação.

Mas sem as pequenas gotas, sem aqueles pequenos momentos espalhados pelos nossos dias comuns, estes dias seriam demasiado longos e a espera por grandes momentos, momentos marcantes, demasiadamente sofrida.

São os pequenos momentos que tornam os dias comuns vivíveis.

Hoje seria mais um dia comum; e talvez eu nem lembrasse bem dele amanhã, caso uma gota de beleza e deslumbramento não tivesse me acertado os olhos e, por eles, refrescado minha alma.

Entre trabalho e a necessidade de ter uma consulta com um ortopedista, tive uma hora de folga e resolvi gastá-la folheando livros na Saraiva do Del Paseo.

Passeando por entre mesas e estantes, uma antiga conhecida me proporcionou um instante de surpresa, de beleza, de deslumbramento que fez com que meu dia tão comum ficasse especialmente comum e me deixou mais leve para o dia de amanhã.

Ao passar a vista por alguns livros, um livrinho de capa marrom e título Episódio Humano exigiu meu olhar. Era um livro da Cecília Meireles do qual nunca havia ouvido falar, eu, que sou apaixonado por ela; eu, que tenho toda a sua poesia; eu, que a cada ano a apresento a meus alunos.

Já antevendo o prazer que sentiria, tomei o livro nas mãos e descobri que era um livro até então inédito, publicado recentemente, com uma compilação de crônicas que Cecília escreveu entre 1929 e 1930 para O Jornal, do Rio de Janeiro.

Ainda surpreso, li algumas linhas e foi quando fui tomado pela beleza e pelo deslumbramento.

Cecília, ela que tanto cantou a fugacidade da vida, a transitoriedade das coisas, lembrou-me que, sim, nós queremos, ansiamos, precisamos de momentos intensos, marcantes, mas que são os pequenos momentos escondidos sob a capa da monotonia que nos preparam a alma para vivê-los.

Sem esses pequenos momentos nos concentraríamos tanto, mas tanto, na demora, na espera de que algo grande, algo grande e bom nos acontecesse, que nos aborreceríamos, nos agunstiaríamos e talvez perdêssemos a oportunidade de viver O momento quando ele finalmente chegasse. Já aconteceu comigo. E é triste quando acontece.

Deixem que eu divida um pouco da beleza Cecília soprou levemente em mim com vocês.

“Quero comprar um belo pássaro colorido, que só saiba dizer esta palavra: “Sim”. Todos os dias lhe perguntarei, amanhecendo: “A vida é bela? Devemos seguir sorrindo? Depois das coisas que passam vêm as que para sempre permanecem?”

E ele me dirá que sim, que sim, que sim. E eu me alimentarei dessa palavra indispensável, que o meu pensamento, de tanto ter dito sem êxito, já tem medo de repetir.”

 

“O dia de amanhã está guardado entre o céu e a terra. Irei abri-lo com o Sol. Aparecerão as tristezas de hoje e de ontem, e com elas também velhas e novas esperanças. Meu espírito olhará com ternura para essas coisas que o dia traz.

Estamos sempre dizendo: “Oh! Que monotonia…” Mas, quando a noite fechar nossa vida incoerente, iremos talvez balbuciando com os lábios frios: “Oh! Se fosse possível possuir um pobre dia mais!”

 

“Amanhã vestirei meu vestido branco e prenderei flores em meu cabelo, pois quero aparecer nos caminhos com alegria porque sei que te vou encontrar.

Não sei por onde vens, nem me inquieta adivinhá-lo. Estou descuidosa quanto à hora em que chegas e ao tempo que ficas. Porque não quero nada de ti.

Não quero nada de ti. Sinto, porém, que existe alegria no meu pensamento, sabendo que vens. E desejo que o dia de hoje passe. E queria gastar minha vida mais depressa, para que desde já fosse amanhã.”

Cecília Meireles

Meu deus! – como é lindo, não é?! Eu espero o momento em que uma alma como essa cruze o meu caminho, que almas que saibam reconhecer o quanto a alma dessa mulher está repleta de beleza cruzem o meu caminho.

Mas não é uma espera dolorosa. E Cecília, hoje, me lembrou da necessidade de manter os olhos atentos e a pele sensível para as pequenas coisas, que podem se tornar grandes, para as pequenas coisas que, mesmo pequenas, nos preparam para as grandes, para as pequenas coisas que tornam um dia comum agradável e a vida gostosa de ser vivida.

Steller de Paula

28 de junho de 2010

Sobre a Inveja

Filed under: Não categorizado — stellerdepaula @ 1:03
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Por esses dias andei pensando sobre a Inveja. Sempre achei engraçadas aquelas frases típicas de pára-choque de caminhão: “A força da sua inveja é a velocidade do meu sucesso.” Frase tão repetida que faz com que paremos de refletir sobre o seu significado, ou sobre o que levaria uma pessoa a escrevê-la numa parede, num pára-choque, quase como um escudo contra o mau-olhado.

Nunca perdi muito tempo com a Inveja, nem minha, nem dos outros. Sempre gostei muito de mim para ter inveja dos outros, para ficar triste com o sucesso dos outros. Prefiro lembrar a frase de Oscar Wilde: “A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.”

Eu prefiro que os outros me invejem a ser medíocre. E nunca fiz questão de ser popular à custa da minha personalidade, da minha honestidade.

Também nunca achei que a inveja alheia pudesse me prejudicar. Sempre achei que era imune a isso. Mas, por esses dias, andei refletindo e comecei a repensar o assunto.

Talvez eu não esteja imune à inveja que os outros sentem. Talvez ninguém esteja. Porque a inveja na maioria das vezes não vem sozinha, traz consigo a maldade. Vejam o que o dicionário Aurélio diz sobre a inveja:

Inveja: s. f.,
1. Desgosto ou pesar pela felicidade de outrem.
2. Desejo violento de possuir o bem alheio.
3. Emulação, cobiça.

Diante disso, é fácil perceber que dificilmente a inveja vem desacompanha. O invejoso é, ou torna-se, por causa da inveja, uma pessoa má. Uma pessoa que quer o mal daquele que inveja, uma pessoa que perde o seu tempo não tentando melhorar para conseguir o que almeja, mas desejando e agindo para que outro perca aquilo que conquistou.

Não consigo entender a capacidade que o ser humano tem para a maldade. Para grandes maldades, mas para maldades pequenas do dia a dia, maldades motivadas pela inveja e pelo despeito. Não consigo conceber que uma pessoa, por inveja, procure desvalorizar outra pessoa, levante falso, aja pelas costas, no anonimato, na covardia. Não consigo conceber que alguém, corroído pela inveja, tenha satisfação em ver outra pessoa triste, derrotada, perdendo o que conquistou. Não entendo como a tristeza alheia possa trazer felicidade a alguém. Traz? Não traz. É uma satisfação enganadora, que vai amargurando o invejoso por dentro.

Claro, eu também sinto “inveja”. Já disse várias vezes “Cara, te invejo.” para amigos meus. Mas não é a Inveja definida pelo Aurélio, não é a cobiça, o desgosto pelo sucesso da pessoa. Não. É aquela inveja acompanhada de felicidade, de satisfação pela conquista do amigo. Já “invejei” pessoas desconhecidas também, mas não dessa inveja maldosa, de desejar o mal, de desejar a perca. Era aquela inveja de querer ter o mesmo, de almejar o mesmo. Para eu ter, não é preciso que a outra pessoa não tenha, ou perca. E se só houver possibilidade de um de nós termos, porra, que vença o melhor! E se eu perder que eu tenha humildade para reconhecer a derrota e força para procurar novos objetivos. Acho que é isso que alguns chamam de “inveja boa”.

E não me vejo cercado de inveja boa. Me vejo cercado de pessoas maldosas. Pessoas invejosas na pior acepção do termo.

Continuo tentando entender… Não entendo o invejoso, o maldoso. Reconheço que existam, e são muitos, mas não os entendo.

Sei que, como disse Balzac, “É tão natural destruir o que não se pode possuir, negar o que não se compreende, insultar o que se inveja.” Mas não entendo. Me recuso a entender.

Steller de Paula

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