Escritos Esparsos

16 de dezembro de 2014

A Anulação em Face do Amor

Filed under: Crônica — stellerdepaula @ 20:17
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Mark Rothko

Em Senhora, de José de Alencar, Aurélia Camargo é abandonada por Fernando Seixas, que noiva com outra garota. Ainda assim, Aurélia guarda seu amor por Seixas intocado, pois não se sente digna dele, pois o colocou numa altura tal, que não se sente capaz de alcançá-lo e entende que Seixas a deixe por outra, mais digna. Quando descobre que Fernando, na verdade, trocou-a não por uma mulher que amava, mas por 30 contos, Aurélia revolta-se contra o amado, pois ele, assim, se desonrou. Ao se desonrar, Seixas rebaixa-se ao plano mais rasteiro da existência, distanciando-se das alturas onde o amor de Aurélia o tinha posto. Ao se desonrar, Seixas desonra o amor de Aurélia.

As reviravoltas que o a trama traz são bem conhecidas e no fim o amor redime e o final é feliz.

Mas, agora lembrando Aurélia, lembrei histórias que já me foram contadas, ou presenciadas, de pessoas que colocavam o ser amado em tão grandes alturas, que se diminuíam perante ele, que se anulavam.

O amor nos é vendido de tal forma, nós o queremos tanto, ansiamos tanto por ele, que o idealizamos. Amamos amar, amamos o amor e o que ele desperta em nós. Precisamos, então, que alguém se encaixe na visão que construímos de uma relação amorosa, precisamos de alguém que nos desperte o intenso, que nos permita viver o amor.

Diante disso, algumas pessoas deixam-se cegar, diminuem-se, anulam-se perante o outro. Acostumam-se a fazer sacrifícios, a dar bem mais do que recebem, a serem, a estarem pedindo o que deveriam receber espontaneamente.

Os amigos alertam, a família grita, até a voz da razão, sufocada, resmunga lá dentro, mas o desejo de amar fala mais alto: é preciso acreditar no amor, é preciso lutar pelo meu amor, o amor vai fazer as coisas mudarem, melhorarem e tudo vai acabar bem como num livro de José de Alencar!

Sim, é preciso acreditar no amor, é preciso lutar pelo amor, vivê-lo em sua integridade. Mas, nunca, a despeito de nós próprios, nunca pisando em quem nós somos, abrindo mão de nossa individualidade, de nossos sonhos, de nossas necessidades.

Amor é soma, não é subtração. É troca, não doação unilateral.

Drummond, num belíssimo poema, diz que “amor é dado de graça e com amor não se paga”, mas isso é bonito em verso, em cinema, em romance, é bonito naquele amor platônico, à distância, não naquele amor do dia a dia, não no amor que divide projetos pro futuros, que faz planos, que dorme junto na mesma cama.

Um amor que só te tira, que só te exige, que nada te dá além da vontade de cultivá-lo, vai te deixar vazio, repleto apenas de frustrações, ilusões, mentiras e lágrimas.

Steller de Paula

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